Alexandre Henry

Modo de Ver

Modo de Ver A coluna é publicada às quartas-feiras no CORREIO

29/06/2011 10:03

Ela tem um amante

Escritor

Uma coisa que aprendi com meus quinze anos de CORREIO: se um periódico tem 50.000 leitores, menos de dez por cento desse total chega a ler por completo alguma das colunas publicadas todos os dias. A maioria fica na parte de esportes, política, coluna social e coisas do gênero. Confesso: também não sou um bom leitor de colunas. Casa de ferreiro, espeto de pau.

Mas, de vez em quando nós nos deparamos com al-guns textos que nos fazem pensar no porquê de quase sempre deixarmos os colunistas e suas opiniões de la-do. As boas colunas costumam ser traduções perfeitas do que as notícias não conseguem ensinar sozinhas sobre a vida. Passeando pela página da Folha.com, por exemplo, cheguei a um texto do Xico Sá intitulado “E-la tem um amante. O que fazer?”. Deliciei-me com a sabedoria do colunista e suas sugestões ao leitor desesperado com a descoberta da traição. Por conta da qualidade do texto e da minha falta de criatividade nesta semana, tomo a liberdade de reproduzir os conselhos de Xico Sá ao leitor denominado apenas de Amaro, que pergunta o que fazer.

O autor responde: “Deixar que eles durmam e acordem juntos por vários dias seguidos. Que tenham seus problemas, que percam o luxo dos encontros fortuitos e vespertinos, que se esbaldem. É necessário deixar a Bovary sentir o bafo matinal da rotina. (…) Nada mais cruel para o amante da tua mulher que presenteá-lo com o pão-com-manteiga do dia-a-dia. A rotina é o cavalo de tróia do amor. Amaro, nada de violência ou besteiras desse naipe. Ao amante, todas as chances do mundo. Ao amante aquela D.R., a famosa discussão de relação, em plena TPM.

Um amante nunca sabe o que venha ser uma mulher sob o domínio da TPM. Ela faz questão de re-servar todos os direitos desse ciclo ao pobre marido. Ao amante, Amaro, a tapioca fria e sem recheio da rotina do calendário. Ao amante, Amaro, a falta de as-sunto. Ao amante, os cabelos revoltos da mulher, naqueles dias em que nem mesmo ela se aguenta ou encara o espelho. Naqueles dias em que os cabelos brigam com as leis do cosmo e não há pente ou diabo que dê jeito. Some, Amaro, depois me conta”.

Peço desculpas ao Xico pela transcrição de boa parte de seu artigo, mas é que as lições são por demais inteligentes e úteis, especialmente em uma época na qual a traição passou a ser um ato disseminado também entre as mulheres. Dar um tiro na cabeça da mulher que te traiu? Uma surra? Aprontar um escândalo? Nada disso! Melhor seguir as brilhantes dicas a-cima. Depois que você tirar seu time de campo por um tempo e os dois amantes perderem o encanto no lusco-fusco do cotidiano, aí você pode decidir com calma se irá dar uma nova chance a ela ou se vai partir para outra.

Comentários (3)

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  1. Junior disse:29/06/11 17:39

    Caro Alexandre.

    Muito bom mesmo.

    E obrigado pela sinceridade: “conta da qualidade do texto e da minha falta de criatividade nesta semana…”

    Abraços.

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  2. joao roberto spini machado. disse:04/07/11 11:18

    Eita,meu caro Dr.Alexandre,ficou tão alegre ao voltar a terrinha,que até se abriu,com o Xico Sá,na estribeira,em comentarios sobre o que é,foi,será,pode ser,sei lá,um Casamento,entre um homem e uma mulher,antes que o homosexual chegue para atrapalhar tudo…

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  3. augusta@balz.com.br disse:20/07/11 22:32

    Decidir com calma se irá dar uma nova chance?
    Pode ter certeza: isso só ocorrera se for bala trocada, meu caro escritor. Não há espaço para calma nesses casos.
    O problema é que muitos traidores nao aceitam que também já foram ou estão sendo traídos. Homens principalmente.

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