Alexandre Henry

Modo de Ver

Modo de Ver A coluna é publicada às quartas-feiras no CORREIO

6/07/2011 6:00

Viciados em internet

Escritor

Certa vez, li que a chance de um fumante parar com o vício é bem menor quando ele acorda e logo acende um cigarro. Pela pesquisa, constatou-se que quem fumava somente depois de passar pelo menos trinta minutos acordado tinha muito mais chances de recuperação. Esses dados ficaram marcados na minha mente, não sei por qual razão.

Nos últimos meses, a tal pesquisa do cigarro começou a me incomodar. Não, eu não fumo, graças a Deus. Mas, percebi outro vício incômodo: internet. O que me chamou a atenção é que eu acordava e, antes mesmo de escovar os dentes, já pegava o smartphone para ver se não tinha nenhum e-mail novo ou algo interessante no Facebook. Às vezes, levantava da cama ainda sonolento, após o despertador tocar, e ia cambaleando até o computador para ligá-lo. Depois de começar a usar um iPhone, as coisas pioraram.

Às vezes, no meio de uma conversa com um amigo, eu disfarçava e acessava a internet pelo celular. Acontecia também no meio de jantares, no bar, enquanto assistia a uma final de futebol etc. O pior é que sei que há pessoas ainda mais viciadas, que correm para a internet para publicar qualquer coisa que acontece. O gato da vizinha miou? Pouco tempo depois, está lá no Facebook: “Gente, vocês não vão acreditar: o gato da vizinha não para de miar! Coitadinho!”. Escovou os dentes e acabou o creme dental? “Gente, coisa chata é acabar a pasta de dente, não é mesmo? Como vou escovar os dentes amanhã de manhã?”.

Aí vai um monte de viciados em internet e curte o comentário. Meu Deus, em que mundo nós estamos? Digo nós mesmo, pois não estou tirando o corpo da jogada. Estamos exagerando: eu, você, nossos amigos e todos os que passaram a ter uma dependência da internet tão grande quando de água e comida.

Fiquei pensando e vi que não há lógica para esse comportamento. Por que checar meu e-mail 97 vezes por dia? Se alguém tiver que me dar uma notícia muito importante, vai me ligar. Do contrário, dá para esperar duas ou três horas até que eu leia. E as redes sociais? Elas são muito boas para manter contato com os amigos, principalmente aqueles que estão distantes. Mas, será que preciso revelar tudo da minha vida ali? Será que preciso falar que o gato da vizinha miou ou que a pasta de dente acabou?

Tudo bem, um comentariozinho de vez em quando, até para puxar papo com os amigos, é legal e diverte. O problema é o exagero, a compulsão. Por conta disso, já tomei algumas decisões na vida: limitar a consulta diária ao e-mail, não abrir a internet antes do café da manhã, diminuir as postagens no Facebook, ocupar o meu tempo um pouco mais com a vida real e um pouco menos com a virtual.

Alexandre Henry – Escritor
www.dedodeprosa.com

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