Alexandre Henry

Modo de Ver

Modo de Ver A coluna é publicada às quartas-feiras no CORREIO

20/07/2011 6:00

OAB, meritocracia e você – 2

Escritor

Raramente escrevo dois textos seguidos sobre o mesmo assunto. Mas, como o tema da semana passada foi bastante complexo, preciso complementá-lo com mais alguns pontos de vista.

Eu dizia que muito se fala das deficiências do ensino brasileiro, criticando-se a formação dos professores, seus salários, a estrutura das escolas, mas pouco se fala da culpa dos alunos e seus pais nessa história. Dou alguns exemplos para clarificar meu pensamento. Há três anos, voltei temporariamente a dar aulas em uma pós-graduação absolutamente reconhecida no Brasil inteiro. O sistema de ensino é bem exigente: os alunos são obrigados a entregar um formulário de questões respondidas a cada duas aulas. Ao fazer a correção dos trabalhos, notei que uma boa parte era cópia pura e simples de textos retirados da internet, sem qualquer referência da fonte.

Os alunos simplesmente copiaram e colaram. Situação semelhante aconteceu no ano passado, em que fui convidado para participar de uma banca de monografia do Direito, em uma universidade federal. Não deixei o aluno defender seu trabalho, porque o texto não passava de uma colagem mal feita de vários artigos da internet. Vamos além: e os alunos que ameaçam professores exigentes? Nas particulares, vários amigos meus já reclamaram que muitos estudantes fazem chantagem com professores que aplicam provas de nível bom, que exigem trabalhos e são sérios: continuando assim, o caminho é a demissão. E pensa que isso acontece só nas faculdades privadas? Nas públicas, já ouvi mais de um caso de aluno que ameaçou professor em estágio probatório, dizendo que se ele continuasse cobrando muito dos alunos seria mal avaliado.

De onde vem esse comportamento? Da má educação dada pelos pais, principalmente. Em Uberlândia, soube de um caso em que uma mãe foi à escola particular para proibir os professores de dar uma nota que não fosse dez para seu filhinho, ainda nos primeiros anos escolares. O que vai ser desse menino? O pior é que muitos diretores de instituições privadas são frouxos e, pensando apenas na manutenção do aluno e de sua mensalidade, forçam a barra para os professores diminuírem as cobranças.

Alunos colam nas provas, copiam descaradamente trabalhos da internet, pagam para alguém fazer a monografia e por aí afora. Além do mais, querem tudo mastigado. Ninguém mais quer perder tempo lendo livros, onde se pode encontrar toda a teoria ensinada nas escolas e universidades. Os alunos, de todos os níveis, esquecem que professor – principalmente os do ensino superior – deve ser apenas um guia, alguém para tirar dúvidas. Não é papel de professor mastigar o conteúdo e enfiar na cabeça do estudante, sem que este tenha que fazer esforço algum.

Alexandre Henry – Escritor
www.dedodeprosa.com

Comentários (10)

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  1. Hugo Cesar Amaral disse:20/07/11 8:01

    Excelente abordagem Dr. Alexandre! Enquanto a preguiça grassar entre os estudantes, e enquanto reinar o super-protecionismo dos pais, não teremos estudantes mais do que medianos.

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  2. Lurana Glória Guimarães disse:20/07/11 19:41

    Dr. Alex, vou me ingressar no curso de Engenharia Elétrica em uma faculdade particular e acredito que apesar de bem mais fácil acesso do que uma pública,o nível de dificuldade seja o mesmo. Sinceramente eu espero mesmo que seja e também concordo, que um engenheiros depois de formado deveria fazer prova para obter o CREA, assim como os bacharéis em direito fazem prova para tirar OAB. Minha mãe sempre foi muito exigente comigo no ensino fundamental. No ensino médio foi um pouco menos mas continuou exigindo. Terminei agora meu primeiro curso superior tecnólogo em TI e ela tbm não deixou de ser exigente de vez em quando, mas confesso que eu deveria ter me esforçado mais. Pretendo fazê-lo na Engenharia Elétrica. Para quem trabalha e estuda ao mesmo tempo não é fácil mas nem por isso vou deixar de me dedicar à faculdade. Mas a educação no país há tempos deixa a desejar. O que esperar por exemplo de uma escola que coloca funk para alunos de no máximo 10 anos escutarem????(aconteceu hj próximo a minha residência)

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  3. augusta@balz.com.br disse:20/07/11 22:22

    O Senhor esqueceu de falar de professores que, às custas do contribuinte, viajam para participar de cursos e seminários que são mera assinatura de presença. Isso sem falar naqueles que simplesmente não aparecem para dar aulas, apenas mandam um substituto – muitas vezes sem vínculo com a instituição.
    Por fim, também tem a turma de mestres que apenas apresentam trabalhos comprados ou feitos por amigos ou familiares, mas terão aumento salarial após a conclusão dos tais cursos. Enfim, acredito que o exemplo continua sendo a melhor forma de ensino.

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  4. JUSTUS disse:22/07/11 17:39

    Voce esquaceu de comentar também de inúmeros professores que são somente teóricos e se precisarem sobreviver trabalhando na profissão não vão conseguir emprego principalmente porque na “pratica a teoria é outra.”

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    • Alexandre Henry disse:22/07/11 21:45

      Justus, com certeza há muitas falhas do lado dos professores. Mas, sobre elas já se fala muito. Eu quis chamar a atenção para o outro lado do problema.

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  5. Bel. Sebastião Alves de Araújo disse:23/07/11 8:59

    O outro lado do problema? O outro lado é que temos professores boçais tanto nas faculdades particulares quanto nas públicas. Muitos professores de Universidades Federais se consideram indemissíveis, e o pior é que os são, aluno de Universidade Federal já aprendeu que se solicitar a saída de um professor no seu primeiro período de estudo, após cinco anos quando estiver se formando irá encontrar esse professor em pleno exercício do cargo e ainda compondo a mesa principal na solenidade de colação de grau. Há professor que é tão prepotente ao ponto de dizer que assim o é porque o seu professor da Universidade Federal de Viçosa o foi para consigo. Concordo com leitores que estão a defender prova para Engenheiros, Farmacêuticos, Psicólogos, enfim para todas as profissões. Abraços.

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  6. Bel. Sebastião Alves de Araújo disse:23/07/11 9:06

    Quanto às Faculdades particulares, há muitos professores que por possuírem um curso de mestrado feito em São Carlos-SP à distância, se julgam os donos da Faculdade, mas como o corporativismo está impregnado em todos os segmentos da sociedade, há coordenadores de cursos que preferem dar razão a professores boçais a ouvir os alunos.

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    • Alexandre Henry disse:23/07/11 19:31

      Sebastião, realmente esses problemas que você apontou existem. Mas, se o professor é ruim, você ainda tem uma válvula de escape: os livros. Todo o conteúdo teórico ensinado nas universidades pode ser aprendido pelo aluno sozinho. Só as aulas práticas não.

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  7. joao roberto spini machado disse:26/07/11 11:41

    Lurana e Hugo Cesar,representam,Graças ao Bom Senhor,uma Qualidade Pessoale Intrinseca,acentuada e muito boa,que esperamos,aumente cada vez mais,neste País tão decadente em termos culturais.Ajude os meninos,Dr.Alexandre!!!

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    • Lurana Glória Guimarães disse:27/07/11 14:26

      Obrigada, Spni, pelos elogios sempre!

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