Alexandre Henry

Modo de Ver

Modo de Ver A coluna é publicada às quartas-feiras no CORREIO

14/09/2011 6:02

Vergonha dos pais

Escritor

Eu tive um amigo na adolescência que tinha vergonha do carro do pai. Até certa idade, as coisas foram bem na casa dele e me lembro direitinho quando um carrão novo estacionou na sua garagem. Meu amigo ficava horas lá dentro, admirando aquela belezura. Mas, o pai acabou sem emprego, o que levou à venda do carrão e à compra de um muito mais humilde. Era época das matinês do “110 Plaza”, ali na praça Rui Barbosa, e esse meu amigo proibiu o pai de deixá-lo na porta da boate com aquele carro: tinha que parar a um quarteirão de distância.

Atualmente, temos personagens assim em duas novelas. São jovens ambiciosos, que rejeitam a condição pobre dos pais e almejam subir na vida a todo custo, desprezando as origens. Parece-me que o da novela das sete está se regenerando, o que era de se esperar, pois é uma novela. Na vida real, costuma ser um pouco diferente. Com o meu colega, graças a Deus foi um episódio passageiro e, até onde eu sei, ele não rejeita os pais como os personagens da ficção. Mas, pode ter certeza que existe gente igual aos dois rapazes das novelas, que fazem de tudo para subir na vida e esconder as origens. Isso é patológico. Não nego que todo filho sinta vergonha dos pais ao menos uma vez na vida, pois isso é natural quando você tem em mente o choque de gerações. A mais nova sempre nega a anterior. Qual adolescente nunca achou os pais cafonas um dia? Isso é comum na adolescência. É a época em que a meninada está formando a personalidade e descobrindo seu espaço no mundo, libertando-se da imagem exclusiva de filhos. Em regra, isso passa. Aos quatorze, a gente acha os pais bregas. Aos trinta, se você ainda os tem, a visão é completamente distinta e que se dane quem pensar mal de seus pais, pois eles são tudo de bom para você e isso é o que importa. Enfim, a rejeição às origens, seja por conta da pobreza ou do conflito de gerações mesmo, é algo que costuma passar assim que a pessoa encontra seu lugar no mundo.

Há, porém, gente como os dois personagens das novelas. Alguns melhoram com uma educação mais rígida ou com os tapas na cara que a vida dá. Muitos utilizam a dor pela má condição financeira como estímulo para melhorar honestamente na vida e, mais do que isso, para dar aos pais a vida que deles não pode receber. Outros, infelizmente, mergulham em uma ambição sem fim que quase sempre descamba na prática de crimes. Ouvi histórias assim de um ex-dono de escolas em Uberlândia, posteriormente acusado de delitos atrozes. Não sei se o que eu ouvi era realmente verdade, mas não duvido. Por mais que os personagens das novelas sejam ficcionais, sempre haverá alguém na vida real capaz de igualá-los e, em alguns casos, até ir mais longe.

Alexandre Henry – Escritor

Comentários 1

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  1. Alexandre Henry disse:15/09/11 9:49

    Esse vídeo tem tudo a ver com a coluna de hoje: http://www.youtube.com/watch?v=rF4HbpiZF1o

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