Traído pela memória
“Não faz sentido, pra que que a pessoa quer gravar as coisas que não são da vida dela e as coisas que são não?” – escreveu Antonio Prata na “Folha de S. Paulo” há poucos dias, em uma das crônicas mais bonitas que já li. Ele narrava a conversa com um taxista, cuja mulher havia morrido sem que restasse dela nenhuma foto ou registro do cotidiano, mas apenas de momentos festivos que não representavam a vida normal dos dois.
Quase no mesmo dia, localizei mais uma vez meu diário escrito em 1997 e 1998. A leitura do texto de Antonio Prata e das minhas próprias recordações só me fez ter mais certeza de uma coisa: a vida fica muito mais rica e interessante quando você a registra. Mais importante ainda é evitar que a memória te traia, pois ela é a maior trapaceira que existe. Registre a sua vida em um diário e anos mais tarde volte lá para conferir: você vai descobrir que muito do que achava ter vivido e sentido aconteceu de outra forma. A nossa mente cria passados paralelos a partir de uma conveniência que só ela entende. Esconde muitos fatos e distorce outros. Amplia dores. Superestima a importância de algumas pessoas e joga outras, tão ou mais importantes, em algum canto que nem ela mesma, a nossa memória, é capaz de resgatar. Você se lembra da frase “Quem conta um conto aumenta um ponto”? A nossa memória é assim, mas ela não só aumenta, ela reescreve o que aconteceu. Não sou psicólogo, mas deve ter alguma relação com o tal do inconsciente, esse lugar tão próximo e tão inacessível de nós mesmos. O que entra em nosso inconsciente é algo que não dá para controlar e quase sempre a gente nem fica sabendo. E o que sai dele também é desse jeito. Dessa caverna inacessível, brotam estranhas coisas durante o sono, após uma garrafa de vodca ou naquele momento de ira desgovernada, em que as palavras saem da nossa boca como uma boiada estourada. O que eu percebo é que o inconsciente também vai moldando nossas memórias por caminhos tortuosos que ninguém pode controlar. Eu não sou o meu inconsciente, mas ele é parte de mim, em uma relação conflituosa entre o que eu percebo e o que eu incorporo de forma imperceptível.
Mas eu não quero deixar que essa parte de mim mesmo, que tem uma vontade própria diferente da minha, controle minhas memórias e minta sobre o meu passado. Por isso, há anos venho registrando em um diário o que eu vivo. Depois do texto de Antonio Prata, também vou dar mais valor aos registros fotográficos das cenas bobas do meu cotidiano e das pessoas que eu amo, pois são essas cenas bobas que tornam a vida maravilhosa e, ao contrário do que meu inconsciente imagina, representam o que eu realmente sou e o que eu realmente vivi.
Alexandre Henry – Escritor
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