Alexandre Henry

Modo de Ver

Modo de Ver A coluna é publicada às quartas-feiras no CORREIO

12 de junho de 2013 6:31

Traído pela memória

Escritor

“Não faz sentido, pra que que a pessoa quer gravar as coisas que não são da vida dela e as coisas que são não?” – escreveu Antonio Prata na “Folha de S. Paulo” há poucos dias, em uma das crônicas mais bonitas que já li. Ele narrava a conversa com um taxista, cuja mulher havia morrido sem que restasse dela nenhuma foto ou registro do cotidiano, mas apenas de momentos festivos que não representavam a vida normal dos dois.

Quase no mesmo dia, localizei mais uma vez meu diário escrito em 1997 e 1998. A leitura do texto de Antonio Prata e das minhas próprias recordações só me fez ter mais certeza de uma coisa: a vida fica muito mais rica e interessante quando você a registra. Mais importante ainda é evitar que a memória te traia, pois ela é a maior trapaceira que existe. Registre a sua vida em um diário e anos mais tarde volte lá para conferir: você vai descobrir que muito do que achava ter vivido e sentido aconteceu de outra forma. A nossa mente cria passados paralelos a partir de uma conveniência que só ela entende. Esconde muitos fatos e distorce outros. Amplia dores. Superestima a importância de algumas pessoas e joga outras, tão ou mais importantes, em algum canto que nem ela mesma, a nossa memória, é capaz de resgatar. Você se lembra da frase “Quem conta um conto aumenta um ponto”? A nossa memória é assim, mas ela não só aumenta, ela reescreve o que aconteceu. Não sou psicólogo, mas deve ter alguma relação com o tal do inconsciente, esse lugar tão próximo e tão inacessível de nós mesmos. O que entra em nosso inconsciente é algo que não dá para controlar e quase sempre a gente nem fica sabendo. E o que sai dele também é desse jeito. Dessa caverna inacessível, brotam estranhas coisas durante o sono, após uma garrafa de vodca ou naquele momento de ira desgovernada, em que as palavras saem da nossa boca como uma boiada estourada. O que eu percebo é que o inconsciente também vai moldando nossas memórias por caminhos tortuosos que ninguém pode controlar. Eu não sou o meu inconsciente, mas ele é parte de mim, em uma relação conflituosa entre o que eu percebo e o que eu incorporo de forma imperceptível.

Mas eu não quero deixar que essa parte de mim mesmo, que tem uma vontade própria diferente da minha, controle minhas memórias e minta sobre o meu passado. Por isso, há anos venho registrando em um diário o que eu vivo. Depois do texto de Antonio Prata, também vou dar mais valor aos registros fotográficos das cenas bobas do meu cotidiano e das pessoas que eu amo, pois são essas cenas bobas que tornam a vida maravilhosa e, ao contrário do que meu inconsciente imagina, representam o que eu realmente sou e o que eu realmente vivi.

Alexandre Henry – Escritor
www.dedodeprosa.com

5 de junho de 2013 6:00

Teatro, chuvas e a nossa parte

Escritor

O Teatro Municipal de Uberlândia sofreu com a chuva da semana passada e vai demorar ainda mais para iniciar suas atividades de verdade. É uma pena. Embora eu torça o nariz para a arquitetura de Niemeyer e ache o teatro uma tragédia do ponto de vista estético, o fato de os eventos que nele ocorrerão estarem nas mãos, principalmente, de Carlos Guimarães Coelho me encheu de esperança quanto a um enriquecimento cultural da cidade.

É, foi uma chuva muito forte. Minha sala no trabalho virou uma cachoeira. A menos de um quarteirão de distância, eu via os carros rodarem na novamente alagada avenida Rondon Pacheco. Que tristeza! Fiquei pensando que esse parece ser um problema sem solução e que sempre teremos enchentes na cidade. O pior é que, embora boa parte da solução dependa do Poder Público, a população não está nem aí quanto à sua parte. Um exemplo: uma pessoa conhecida comprou recentemente um apartamento no bairro Santa Mônica, perto do Parque do Sabiá. Fui lá ver. Ele me mostrou a garagem e eu perguntei sobre uma que estava descoberta ainda. Ele disse que aquela garagem estava na área mínima permeável do terreno exigida pela prefeitura, mas que, depois de o construtor conseguir o habite-se, ele iria cobri-la. Ou seja, ele iria contribuir para que tenhamos mais enchentes na Rondon Pacheco. Da mesma forma, a maioria das pessoas prefere cimentar todo o seu quintal, em vez de deixar uma boa parte gramada para que a água da chuva infiltre no solo e não escorra para as ruas e avenidas de uma só vez. E quem já pensou em colocar calhas no telhado e canalizar a água da chuva para uma caixa subterrânea, tanto para ter água de graça depois quanto para diminuir as enchentes? Quase ninguém. E quantas pessoas não jogam lixo pelas janelas dos carros ou colocam sacos de lixo na calçada, onde a enxurrada pode levá-los? Tudo isso contribui para novos alagamentos, mas é sempre mais fácil colocar a culpa na Prefeitura. O pensamento ecológico que as novas gerações possuem só serve naquilo que não dá trabalho direto para os ecologistas do asfalto.

Torço para que o Teatro Municipal de Uberlândia seja recuperado rapidamente e que, sob a batuta de Carlos Guimarães, possamos ter bons eventos aqui. Sei que lá a culpa dos estragos foi de um projeto malfeito ou mal executado. Mas e o resto da cidade? Torço também para que as pessoas passem a entender que muitos estragos que Uberlândia sofre quando vem a chuva forte poderiam ser minimizados com um pouquinho de consciência coletiva, com um pouquinho do “vou fazer a minha parte em vez de ficar só reclamando dos políticos”.

29 de maio de 2013 6:55

Carminha, Félix e as novelas

Escritor

Muita gente torce o nariz para as novelas brasileiras, mas não há como negar que elas são um dos produtos culturais mais fortes do nosso país. Nada a lamentar com isso, pois há produções fracas, sim, mas há outras boas. Os americanos também produzem e exportam muita porcaria da indústria do entretenimento.

Eu costumo dizer que as novelas não são ruins como muitos preconceituosos vivem falando. Ruim é o vício que elas provocam, fazendo com que você não marque nenhum compromisso de segunda a sábado naquele horário, para não perder os capítulos. Mas tenho que confessar que o gênero está desgastado, o que é admitido por vários diretores da Globo, conforme li em uma reportagem outro dia. Quando a gente vê a chamada de uma nova novela, já sabe o que vai acontecer: um casal de mocinhos que se desencontra por oito meses e só fica junto nos últimos capítulos, um bandido que quer acabar com a felicidade deles, brigas e mais brigas pelo comando de alguma empresa, desentendimentos entre famílias.
Por isso, as produções que trazem alguma coisa nova acabam se destacando. “Avenida Brasil”, por exemplo, foi um sucesso tremendo. Motivo? Conseguiu juntar dois elementos que têm salvado algumas novelas: locação em lugares diferentes dos bairros chiques e a presença de um vilão que foge dos padrões. “Avenida Brasil” era ambientada basicamente em um bairro de subúrbio, com personagens mais próximos da realidade da maioria da nossa população. Não foi uma novidade total, pois outras produções já haviam mostrado bairros simples. A novidade foi priorizar ao máximo o local, ao invés de fazer do subúrbio apenas uma aparição esporádica vinculada a um núcleo de menor importância para a trama. Já a vilã… Como a Carminha conquistou o público! Aí eu te pergunto: por que a tal da Lívia, na última novela, não teve o mesmo impacto? Porque a Lívia era uma vilã comum, com aquele ar superior e o caráter totalmente voltado para a maldade. Já a Carminha era uma cruel, mas tinha grandes tacadas de humor, possuía os pontos fracos e parecia menos caricata.

A novela “Amor à Vida”, que acabou de estrear, não foge muito da receita comum e batida, inclusive quanto à ambientação no seio de uma família rica. Por sorte, porém, conta com o vilão Félix, interpretado por Mateus Solano. Por ter umas tiradas de humor fenomenais, pela ambiguidade sexual e a grande interpretação do ator, pode ser a salvação da trama. Para a Globo, um alívio, já que o nosso principal produto cultural de exportação tem enfrentado uma concorrência muito grande da TV paga e da internet. Já para o público, parece ser uma história um pouco menos entediante, se comparada à novela anterior.