Alexandre Henry

Modo de Ver

Modo de Ver A coluna é publicada às quartas-feiras no CORREIO

11/07/2012 7:25

Meu irmão médico

Escritor

Nesta semana, ocorrem as cerimônias de formatura do Rodrigo, meu irmão caçula que acaba de concluir o curso de medicina. Lembro-me da luta dele para passar no vestibular da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), depois as dificuldades das intermináveis aulas e internatos, até concluir a graduação. Não foi fácil.

Tornar-se um médico exige uma dedicação excepcional, que não é vista na maioria das carreiras. Por isso, acredito que a sua felicidade seja realmente plena, não apenas por ser o primeiro médico de duas famílias – a materna e a paterna –, mas porque conseguiu sobreviver ao massacre que é uma escola de medicina. É uma semana para comemorar e recuperar o fôlego, pois agora começam as residências, com as dificuldades da graduação se repetindo.

Estou orgulhoso, muito orgulhoso. E o que eu desejo para ele? Não preciso desejar um bom trabalho com excelente remuneração, pois o esforço dos estudantes em medicina logo é recompensado. Não há carreira cujo recém-formado receba mais do que um médico, sem ter que fazer um concurso ou coisa do gênero. Por isso, o que eu desejo a ele é que realmente se sinta bem praticando a medicina, que cada novo dia em um hospital ou no consultório o faça se sentir pleno e realizado, que ele olhe ao final do expediente para o espelho e diga: era isso o que eu queria para a minha vida!

Que seja imune aos pecados e tentações que cercam parte dos médicos: receber agrados da indústria farmacêutica para prescrever remédios ou utilizar próteses, exacerbar a autoconfiança que cega e leva ao erro médico, deixar pacientes esperando tardes e tardes em bancos de consultórios, atender um paciente em cinco minutos e nem olhar em seus olhos, não ter humildade de reconhecer quando não souber resolver um caso, pensar-se melhor do que as demais pessoas e profissionais.

Livre dessas tentações, que encontre na satisfação de cada paciente um reconhecimento pelo trabalho bem feito. Que ajude a salvar vidas e, quando isso não for possível, ao menos que amenize o sofrimento de quem vai partir de qualquer jeito. Que ganhe muito dinheiro, muito mesmo, mas que no auge do sucesso separe um tempo para atender pessoas que, não fosse um gesto de doação, nunca teriam condições de receber um atendimento médico de qualidade.

É preciso lembrar: um curso de medicina é caro e é custeado pelos impostos pagos por todos. Retribuir com trabalho voluntário é nada mais do que um simples gesto de gratidão social. Desejo, por fim, que conserve a simplicidade, a vontade de estudar, o carinho e o amor pela profissão.

É isso e tudo o que mais de bom houver nesta vida que desejo ao meu irmão caçula. Sinto-me feliz por ele e torço para que seu caminho continue sendo de sucesso. Parabéns!

Comentários (4)

  1. LAURA@OFICIAL disse:11/07/12 8:45

    Parabéns ao Rodrigo!
    Medicina não é mesmo um curso fácil.

  2. Zé Lucas disse:11/07/12 18:03

    Parabéns pela brilhante exposição, é o que esperamos: a HUMANIZAÇAO DA MEDICINA.

  3. webstter disse:14/07/12 15:34

    Infelizmente existem medicos que se acham Deus outro que o mesmo os consultou.

  4. Dutra disse:16/07/12 14:05

    Excelente colocação, Alexandre!
    Muitas vezes o profissional da saúde de hoje, principalmente o médico, acaba esquecendo o mais precioso da sua profissão: Ajudar as pessoas! Não que não deva ganhar o seu dinheiro. Não vejo problema algum em querer progredir financeiramente, pelo contrário, prosperar financeiramente também faz parte de qualquer profissão. Mas aquele que lida com a saúde, cuida do bem mais precioso que temos, a vida.

    Eu mesmo já passei por inúmeros médicos que não recomendo a ninguém, pois parecem máquinas, não demonstram nenhum tipo de preocupação ou atenção com seus pacientes, portanto que seu irmão realmente exerça a medicina de maneira plena, contribuindo através do seu trabalho honesto com o nosso país.

    Quanto ao superego dos médicos, percebe-se que em muitas ocasiões o aluno é influenciado durante a faculdade, pelos próprios “professores médicos”, que dizem as alunos: Vocês são os melhores, portanto comportem-se como tal. A partir daí o estudante começa a perder a essência da profissão, que muitas vezes não está cursando por vontade própria, mas influenciado por terceiros, como pais e família.

    Uma outra observação que vale a pena ser feita, é a elitização da profissão. Grande parte dos alunos são de classe alta, e isto reflete geralmente na visão de mundo e no proceder. Pessoas de mais baixa renda, costumam ter uma visão mais realista da profissão e entram no curso mais conscientes do seu papel na sociedade. É claro que não é uma regra certeira, pois também temos pessoas de alta classe humildes, assim como temos pessoas de classe baixa extremamente arrogantes.

    Termino com a frase abaixo do médico Bezerra de Menezes considerado O MÉDICO DOS POBRES:

    “O médico verdadeiro não tem o direito de acabar a refeição, de escolher a hora, de inquirir se é longe ou perto. O que não atende por estar com visitas, por ter trabalhado muito e achar-se fatigado, ou por ser alta noite, mau o caminho ou tempo, ficar longe, ou no morro; o que sobretudo pede um carro a quem não tem como pagar a receita, ou diz a quem chora à porta que procure outro – esse não é médico, é negociante de negociante de medicina, que trabalha para recolher capital e juros os gastos da formatura. Esse é um desgraçado, que manda, para outro, o anjo da caridade que lhe veio fazer uma visita e lhe trazia a única espórtula que podia saciar a sede de riqueza do seu espírito, a única que jamais se perderá nos vaivens da vida.”

    Bezerra de Menezes

    Sucesso ao seu irmão!