Alexandre Henry

Modo de Ver

Modo de Ver A coluna é publicada às quartas-feiras no CORREIO

22 de maio de 2013 7:05

Casamento gay não é só festa

Escritor

Nos últimos dias, uma decisão do Conselho Nacional de Justiça causou bastante polêmica, pois determinou a todos os cartórios do Brasil que não recusem a celebração de casamento entre pessoas do mesmo sexo. É uma discussão que vai parar no Supremo Tribunal Federal, com certeza. Mas, enquanto isso não acontece, ela está valendo e hoje é possível aos pares homoafetivos se casarem, indo além da simples união estável.

Acredito que muitas pessoas aproveitarão essa oportunidade para finalmente ter uma certidão de casamento de uma relação consolidada há anos. Por outro lado, não duvido que muitos gays e lésbicas, na euforia desse momento histórico, embarquem em um casamento de ocasião sem pensar nas consequências que ele pode trazer. Não falo da questão sentimental, mas das questões jurídicas. Hoje, tem muito casal heterossexual que prefere uma simples união estável a um casamento, pelas facilidades que a primeira traz em termos práticos no caso de uma separação.

Agora que casar com alguém do mesmo sexo se tornou possível e fácil, é preciso entender que se separar é quase sempre muito mais difícil. Os casais do mesmo sexo estarão sujeitos ao art. 1.124-A do Código de Processo Civil, que permite o divórcio diretamente no cartório. Mas isso só acontece quando o fim da relação é consensual e não há filhos menores ou incapazes e, mesmo assim, é necessário pagar um advogado para assinar os documentos.

Se o seu parceiro não quiser a separação ou se menores estiverem envolvidos, vocês vão para uma longa, cara e desgastante disputa judicial. Por outro lado, diz o Código Civil que podem os cônjuges pedir uns aos outros os alimentos de que necessitem para viver de modo compatível com a sua condição social. É a famosa pensão alimentícia, que já valia também para as uniões estáveis. Mas, pedir pensão quando não se é casado no papel é mais complicado. Já para os casados, as coisas são bem mais fáceis. Isso significa que o número de pedidos de pensão alimentícia feitos por pessoas que se separam em relações homoafetivas deve se multiplicar após as formalizações dos casamentos. Sem contar a questão da divisão dos bens!

Enfim, o que eu quero dizer com tudo isso é que o casamento gay não é só festa, pois se você se iguala a todo mundo em direitos, tem que se igualar também em relação aos deveres. E como o casamento traz deveres e obrigações para quem o contrai! Por isso, independentemente de ser uma relação hetero ou homoafetiva, somente se case se você acreditar que a relação possa ser estável, duradoura e baseada em fundamentos sólidos, como o amor, o carinho, o respeito mútuo e a boa convivência. Só assim a sua festa não lhe trará um pesadelo no futuro.

15 de maio de 2013 6:58

“Somos Tão Jovens”

Escritor

Quem me conhece sabe o quanto sou fã do trabalho da Legião Urbana e de Renato Russo. Tive a sorte de ir a três shows da banda! Eu me lembro de um dia em que passei horas ouvindo uma fita cassete com a gravação de “Faroeste Caboclo”, enquanto tentava datilografar a letra da canção. Eu tinha apenas 11 anos e não havia internet onde pesquisar música nenhuma. Até hoje, ainda escuto a banda, embora em menor intensidade.

Por tudo isso, fiquei bem reticente quanto ao filme “Somos tão jovens”, que trata da adolescência e juventude de Renato Russo, desde o contato com o violão até a formação da Legião Urbana. Sabe quando você tem certeza de que o negócio não vai prestar? Sabe aquela sensação de que se trata apenas de um caça-níquel? De que vai ser uma baboseira total? De qualquer maneira, decidi enfrentar a resistência interna e fui ao cinema. Foi aí que comprovei mais uma vez minha teoria: a expectativa é a semente da frustração. Aliás, comprovei por vias inversas, pois minha má vontade com o filme fez com que eu me surpreendesse com o que eu vi. É uma produção leve e às vezes pode ser um pouquinho sem emoção para quem não é fã de carteirinha da banda ou não conhece os detalhes da vida do seu vocalista. Mas o filme até que consegue se segurar. Não caiu no sentimentalismo e optou por uma etapa da vida de Renato Russo que é mais desconhecida e que permite mostrar como nasceu um movimento musical que marcou uma geração inteira: o rock nacional dos anos 1980, cujo epicentro foi a capital federal. É muito legal ver como aquelas turmas foram formando bandas que mudariam o que os jovens ouviam nas rádios. Mas o que me chamou a atenção mesmo foi a interpretação de Thiago Mendonça. Se você não foi ao cinema, não espere que o ator tenha o porte vocal de Renato Russo. Ele até que segura uns graves bem, mas não consegue subir como o vocalista da Legião. Em suas limitações, porém, ele conseguiu se sair muito bem. Melhor ainda foi a sua capacidade de reproduzir as expressões faciais de Renato Russo e o seu jeito meio afetado de falar e de se comportar. Ficou muito parecido com o que eu já vi do cantor.

Renato Russo pode não ter sido um exemplo de comportamento, assim como o Cazuza não foi. Usuários de drogas, às vezes promíscuos, muitos pais não desejariam um filho assim. Mas é interessante ver os filmes dos dois para perceber como talento e rebeldia podem construir um artista como Renato Russo, que influenciou uma geração inteira. No mais, vale para relembrar o tempo em que os jovens escutavam letras um pouco mais complexas do que um monte de sílabas dançantes ou estímulos contínuos ao coma alcoólico.

8 de maio de 2013 7:15

Um ano sem internet

Escritor

Paul Miller é um jornalista especializado em tecnologia que, de tanto ficar na internet e isso atrapalhar sua produtividade, resolveu dar um tempo de um ano para ver se conseguia melhorar. Ao final da experiência, ele escreveu: “Não diria que foi um erro ficar off-line, mas minha hipótese se mostrou incorreta: mesmo sem a distração da internet, eu não sucedi nas coisas que mais queria fazer. Mas o experimento fez com que aprendesse sobre mim. Não recomendaria às pessoas que se desconectassem só por desconectar. Mas muitas coisas merecem atenção exclusiva e, para alguns, isso só acontece tirando o laptop do colo, desligando o celular. A questão é achar um ponto de equilíbrio, e isso é difícil”.

É o que eu sempre digo: a virtude está no meio termo, no bom senso. Não acho que as pessoas totalmente desconectadas sejam mais evoluídas por não terem sido contaminadas pelo vício da internet. Por outro lado, também percebo que o excesso de conexão é prejudicial. Mas, como disse Paul Miller, o difícil é achar o ponto de equilíbrio. Eu vivo correndo atrás dele. Quando percebo que não tenho paciência ou tempo para ler minha revista semanal, ver um filme ou ler o livro que há tempos está me esperando, noto que o excesso chegou.

Há algum tempo, experimentei uma tática que foi muito positiva: acessar e-mail e redes sociais apenas após o anoitecer. Às vezes, uso essa técnica e quando eu faço isso sempre consigo adiantar minhas leituras e diminuir a ansiedade.

Outra saída é não publicar nada nas redes sociais por um tempo. Quando você publica, automaticamente se prende àquilo e fica ansioso para saber se alguém respondeu ou comentou. Claro, as redes sociais servem justamente para trocar informações, seja a trabalho, seja por lazer, mas publicar demais sem que o conteúdo seja realmente relevante para a sua vida pode amplificar sua ansiedade. Para quem gosta de participar ativamente das redes, deixar de publicar todos os dias é um desafio. Mas vale a pena tentar dar um tempo às vezes.

Quanto ao e-mail, é um pouco mais difícil, pois a gente realmente usa essa ferramenta para várias atividades profissionais e estudantis, razão pela qual não dá para ignorá-lo. De qualquer maneira, ainda tento – muitas vezes sem sucesso – seguir a dica de não acessar o e-mail em um prazo menor do que duas horas.

Se a mensagem for tão importante que não possa esperar esse tempo, certamente a pessoa vai ligar. E se a pessoa não tem o seu telefone, então é porque a mensagem não é tão importante assim a ponto de obrigá-lo a conferir o e-mail a cada dez minutos.

Enfim, para nós, que gostamos da internet, é um desafio encontrar um limite para o uso. Banir a rede, como percebeu Paul Miller, é uma saída ineficaz. O jeito é tentar moderar.