Alexandre Henry

Modo de Ver

Modo de Ver A coluna é publicada às quartas-feiras no CORREIO

19 de junho de 2013 7:00

Sempre há um cretino pelo caminho

Escritor

Há poucos dias, um novo cretino cruzou o meu caminho. Sim, um cretino. Não se assuste com o vocabulário duro, até porque não há palavra mais suave para adjetivar alguém que tem o prazer de infernizar a vida dos outros sem ganhar nada com isso. Além do mais, eu tenho certeza de que você também já conheceu alguém assim e vai concordar comigo que o termo é apropriado.

Quando eu era mais novo, eu achava que certos tipos de pessoas só existiam nos livros, filmes ou novelas. Afinal de contas, qual a razão para alguém fazer o papel de bandido? Enfim, todo mundo era bom na minha visão, apesar de existir gente que comete alguns pequenos erros de vez em quando. Aos poucos, porém, fui entendendo que a vida muitas vezes leva o ser humano a caminhos errados e os papeis de vítima e carrasco se confundem em uma mesma pessoa. Produto do meio – já ouviu essa expressão? Entendi que uma criança que é espancada desde o berço, que tem os piores exemplos em casa e cresce em meio a uma comunidade violenta pode se tornar um adulto ruim, sem que tenha planejado esse destino por um só segundo de sua vida. Mas, os anos vieram e comecei a perceber que a minha teoria para a maldade como produto do meio não funcionava para certas pessoas, pois elas tinham crescido em bons lares, com exemplos saudáveis e cheios de oportunidades, mas ainda assim se degeneravam. Concluí que só podia ser produto da ambição desmedida, aquela que faz a pessoa desejar doentiamente ter mais dinheiro, mais poder, mais sexo, mais tudo. Claro, ambição e inveja juntas, já que as duas são condições irmãs da natureza humana.

Foi então que conheci a categoria dos cretinos. Eu sei que a maldade fruto da ambição e da inveja torna uma pessoa absurdamente cretina, mas aqui eu me refiro àqueles que são desagradáveis e maldosos apenas por um prazer mórbido e incompreensível. Não querem o mal de alguém para conseguir dinheiro, um cargo ou uma noitada na cama. Querem o mal porque assistir a outra pessoa sofrer lhes dá prazer. O cretino puro sangue é o sujeito que beira a insanidade, mas não é doente, apenas é mau caráter. Foi com um desses que me deparei outro dia e ele não foi o primeiro que passou pela minha vida. Mas, como eu já tenho meu cretino particular há mais de uma década, acho que evoluí. Às cretinices, respondi com vigor positivo o que merecia ter resposta e todo o resto ganhou apenas meu desprezo e, claro, este texto. Agir assim me fez bem. Os cretinos morrem de câncer, mais dia ou menos dia. Então, não se desespere com eles: deixe apenas que a natureza dê um jeito. Afinal de contas, nenhum cretino merece a sua atenção a ponto de você se desviar do caminho da felicidade.

Alexandre Henry – Escritor
www.dedodeprosa.com

12 de junho de 2013 6:31

Traído pela memória

Escritor

“Não faz sentido, pra que que a pessoa quer gravar as coisas que não são da vida dela e as coisas que são não?” – escreveu Antonio Prata na “Folha de S. Paulo” há poucos dias, em uma das crônicas mais bonitas que já li. Ele narrava a conversa com um taxista, cuja mulher havia morrido sem que restasse dela nenhuma foto ou registro do cotidiano, mas apenas de momentos festivos que não representavam a vida normal dos dois.

Quase no mesmo dia, localizei mais uma vez meu diário escrito em 1997 e 1998. A leitura do texto de Antonio Prata e das minhas próprias recordações só me fez ter mais certeza de uma coisa: a vida fica muito mais rica e interessante quando você a registra. Mais importante ainda é evitar que a memória te traia, pois ela é a maior trapaceira que existe. Registre a sua vida em um diário e anos mais tarde volte lá para conferir: você vai descobrir que muito do que achava ter vivido e sentido aconteceu de outra forma. A nossa mente cria passados paralelos a partir de uma conveniência que só ela entende. Esconde muitos fatos e distorce outros. Amplia dores. Superestima a importância de algumas pessoas e joga outras, tão ou mais importantes, em algum canto que nem ela mesma, a nossa memória, é capaz de resgatar. Você se lembra da frase “Quem conta um conto aumenta um ponto”? A nossa memória é assim, mas ela não só aumenta, ela reescreve o que aconteceu. Não sou psicólogo, mas deve ter alguma relação com o tal do inconsciente, esse lugar tão próximo e tão inacessível de nós mesmos. O que entra em nosso inconsciente é algo que não dá para controlar e quase sempre a gente nem fica sabendo. E o que sai dele também é desse jeito. Dessa caverna inacessível, brotam estranhas coisas durante o sono, após uma garrafa de vodca ou naquele momento de ira desgovernada, em que as palavras saem da nossa boca como uma boiada estourada. O que eu percebo é que o inconsciente também vai moldando nossas memórias por caminhos tortuosos que ninguém pode controlar. Eu não sou o meu inconsciente, mas ele é parte de mim, em uma relação conflituosa entre o que eu percebo e o que eu incorporo de forma imperceptível.

Mas eu não quero deixar que essa parte de mim mesmo, que tem uma vontade própria diferente da minha, controle minhas memórias e minta sobre o meu passado. Por isso, há anos venho registrando em um diário o que eu vivo. Depois do texto de Antonio Prata, também vou dar mais valor aos registros fotográficos das cenas bobas do meu cotidiano e das pessoas que eu amo, pois são essas cenas bobas que tornam a vida maravilhosa e, ao contrário do que meu inconsciente imagina, representam o que eu realmente sou e o que eu realmente vivi.

Alexandre Henry – Escritor
www.dedodeprosa.com

5 de junho de 2013 6:00

Teatro, chuvas e a nossa parte

Escritor

O Teatro Municipal de Uberlândia sofreu com a chuva da semana passada e vai demorar ainda mais para iniciar suas atividades de verdade. É uma pena. Embora eu torça o nariz para a arquitetura de Niemeyer e ache o teatro uma tragédia do ponto de vista estético, o fato de os eventos que nele ocorrerão estarem nas mãos, principalmente, de Carlos Guimarães Coelho me encheu de esperança quanto a um enriquecimento cultural da cidade.

É, foi uma chuva muito forte. Minha sala no trabalho virou uma cachoeira. A menos de um quarteirão de distância, eu via os carros rodarem na novamente alagada avenida Rondon Pacheco. Que tristeza! Fiquei pensando que esse parece ser um problema sem solução e que sempre teremos enchentes na cidade. O pior é que, embora boa parte da solução dependa do Poder Público, a população não está nem aí quanto à sua parte. Um exemplo: uma pessoa conhecida comprou recentemente um apartamento no bairro Santa Mônica, perto do Parque do Sabiá. Fui lá ver. Ele me mostrou a garagem e eu perguntei sobre uma que estava descoberta ainda. Ele disse que aquela garagem estava na área mínima permeável do terreno exigida pela prefeitura, mas que, depois de o construtor conseguir o habite-se, ele iria cobri-la. Ou seja, ele iria contribuir para que tenhamos mais enchentes na Rondon Pacheco. Da mesma forma, a maioria das pessoas prefere cimentar todo o seu quintal, em vez de deixar uma boa parte gramada para que a água da chuva infiltre no solo e não escorra para as ruas e avenidas de uma só vez. E quem já pensou em colocar calhas no telhado e canalizar a água da chuva para uma caixa subterrânea, tanto para ter água de graça depois quanto para diminuir as enchentes? Quase ninguém. E quantas pessoas não jogam lixo pelas janelas dos carros ou colocam sacos de lixo na calçada, onde a enxurrada pode levá-los? Tudo isso contribui para novos alagamentos, mas é sempre mais fácil colocar a culpa na Prefeitura. O pensamento ecológico que as novas gerações possuem só serve naquilo que não dá trabalho direto para os ecologistas do asfalto.

Torço para que o Teatro Municipal de Uberlândia seja recuperado rapidamente e que, sob a batuta de Carlos Guimarães, possamos ter bons eventos aqui. Sei que lá a culpa dos estragos foi de um projeto malfeito ou mal executado. Mas e o resto da cidade? Torço também para que as pessoas passem a entender que muitos estragos que Uberlândia sofre quando vem a chuva forte poderiam ser minimizados com um pouquinho de consciência coletiva, com um pouquinho do “vou fazer a minha parte em vez de ficar só reclamando dos políticos”.