“Somos Tão Jovens”
Quem me conhece sabe o quanto sou fã do trabalho da Legião Urbana e de Renato Russo. Tive a sorte de ir a três shows da banda! Eu me lembro de um dia em que passei horas ouvindo uma fita cassete com a gravação de “Faroeste Caboclo”, enquanto tentava datilografar a letra da canção. Eu tinha apenas 11 anos e não havia internet onde pesquisar música nenhuma. Até hoje, ainda escuto a banda, embora em menor intensidade.
Por tudo isso, fiquei bem reticente quanto ao filme “Somos tão jovens”, que trata da adolescência e juventude de Renato Russo, desde o contato com o violão até a formação da Legião Urbana. Sabe quando você tem certeza de que o negócio não vai prestar? Sabe aquela sensação de que se trata apenas de um caça-níquel? De que vai ser uma baboseira total? De qualquer maneira, decidi enfrentar a resistência interna e fui ao cinema. Foi aí que comprovei mais uma vez minha teoria: a expectativa é a semente da frustração. Aliás, comprovei por vias inversas, pois minha má vontade com o filme fez com que eu me surpreendesse com o que eu vi. É uma produção leve e às vezes pode ser um pouquinho sem emoção para quem não é fã de carteirinha da banda ou não conhece os detalhes da vida do seu vocalista. Mas o filme até que consegue se segurar. Não caiu no sentimentalismo e optou por uma etapa da vida de Renato Russo que é mais desconhecida e que permite mostrar como nasceu um movimento musical que marcou uma geração inteira: o rock nacional dos anos 1980, cujo epicentro foi a capital federal. É muito legal ver como aquelas turmas foram formando bandas que mudariam o que os jovens ouviam nas rádios. Mas o que me chamou a atenção mesmo foi a interpretação de Thiago Mendonça. Se você não foi ao cinema, não espere que o ator tenha o porte vocal de Renato Russo. Ele até que segura uns graves bem, mas não consegue subir como o vocalista da Legião. Em suas limitações, porém, ele conseguiu se sair muito bem. Melhor ainda foi a sua capacidade de reproduzir as expressões faciais de Renato Russo e o seu jeito meio afetado de falar e de se comportar. Ficou muito parecido com o que eu já vi do cantor.
Renato Russo pode não ter sido um exemplo de comportamento, assim como o Cazuza não foi. Usuários de drogas, às vezes promíscuos, muitos pais não desejariam um filho assim. Mas é interessante ver os filmes dos dois para perceber como talento e rebeldia podem construir um artista como Renato Russo, que influenciou uma geração inteira. No mais, vale para relembrar o tempo em que os jovens escutavam letras um pouco mais complexas do que um monte de sílabas dançantes ou estímulos contínuos ao coma alcoólico.