Alexandre Henry

Modo de Ver

Modo de Ver A coluna é publicada às quartas-feiras no CORREIO

15 de maio de 2013 6:58

“Somos Tão Jovens”

Escritor

Quem me conhece sabe o quanto sou fã do trabalho da Legião Urbana e de Renato Russo. Tive a sorte de ir a três shows da banda! Eu me lembro de um dia em que passei horas ouvindo uma fita cassete com a gravação de “Faroeste Caboclo”, enquanto tentava datilografar a letra da canção. Eu tinha apenas 11 anos e não havia internet onde pesquisar música nenhuma. Até hoje, ainda escuto a banda, embora em menor intensidade.

Por tudo isso, fiquei bem reticente quanto ao filme “Somos tão jovens”, que trata da adolescência e juventude de Renato Russo, desde o contato com o violão até a formação da Legião Urbana. Sabe quando você tem certeza de que o negócio não vai prestar? Sabe aquela sensação de que se trata apenas de um caça-níquel? De que vai ser uma baboseira total? De qualquer maneira, decidi enfrentar a resistência interna e fui ao cinema. Foi aí que comprovei mais uma vez minha teoria: a expectativa é a semente da frustração. Aliás, comprovei por vias inversas, pois minha má vontade com o filme fez com que eu me surpreendesse com o que eu vi. É uma produção leve e às vezes pode ser um pouquinho sem emoção para quem não é fã de carteirinha da banda ou não conhece os detalhes da vida do seu vocalista. Mas o filme até que consegue se segurar. Não caiu no sentimentalismo e optou por uma etapa da vida de Renato Russo que é mais desconhecida e que permite mostrar como nasceu um movimento musical que marcou uma geração inteira: o rock nacional dos anos 1980, cujo epicentro foi a capital federal. É muito legal ver como aquelas turmas foram formando bandas que mudariam o que os jovens ouviam nas rádios. Mas o que me chamou a atenção mesmo foi a interpretação de Thiago Mendonça. Se você não foi ao cinema, não espere que o ator tenha o porte vocal de Renato Russo. Ele até que segura uns graves bem, mas não consegue subir como o vocalista da Legião. Em suas limitações, porém, ele conseguiu se sair muito bem. Melhor ainda foi a sua capacidade de reproduzir as expressões faciais de Renato Russo e o seu jeito meio afetado de falar e de se comportar. Ficou muito parecido com o que eu já vi do cantor.

Renato Russo pode não ter sido um exemplo de comportamento, assim como o Cazuza não foi. Usuários de drogas, às vezes promíscuos, muitos pais não desejariam um filho assim. Mas é interessante ver os filmes dos dois para perceber como talento e rebeldia podem construir um artista como Renato Russo, que influenciou uma geração inteira. No mais, vale para relembrar o tempo em que os jovens escutavam letras um pouco mais complexas do que um monte de sílabas dançantes ou estímulos contínuos ao coma alcoólico.

8 de maio de 2013 7:15

Um ano sem internet

Escritor

Paul Miller é um jornalista especializado em tecnologia que, de tanto ficar na internet e isso atrapalhar sua produtividade, resolveu dar um tempo de um ano para ver se conseguia melhorar. Ao final da experiência, ele escreveu: “Não diria que foi um erro ficar off-line, mas minha hipótese se mostrou incorreta: mesmo sem a distração da internet, eu não sucedi nas coisas que mais queria fazer. Mas o experimento fez com que aprendesse sobre mim. Não recomendaria às pessoas que se desconectassem só por desconectar. Mas muitas coisas merecem atenção exclusiva e, para alguns, isso só acontece tirando o laptop do colo, desligando o celular. A questão é achar um ponto de equilíbrio, e isso é difícil”.

É o que eu sempre digo: a virtude está no meio termo, no bom senso. Não acho que as pessoas totalmente desconectadas sejam mais evoluídas por não terem sido contaminadas pelo vício da internet. Por outro lado, também percebo que o excesso de conexão é prejudicial. Mas, como disse Paul Miller, o difícil é achar o ponto de equilíbrio. Eu vivo correndo atrás dele. Quando percebo que não tenho paciência ou tempo para ler minha revista semanal, ver um filme ou ler o livro que há tempos está me esperando, noto que o excesso chegou.

Há algum tempo, experimentei uma tática que foi muito positiva: acessar e-mail e redes sociais apenas após o anoitecer. Às vezes, uso essa técnica e quando eu faço isso sempre consigo adiantar minhas leituras e diminuir a ansiedade.

Outra saída é não publicar nada nas redes sociais por um tempo. Quando você publica, automaticamente se prende àquilo e fica ansioso para saber se alguém respondeu ou comentou. Claro, as redes sociais servem justamente para trocar informações, seja a trabalho, seja por lazer, mas publicar demais sem que o conteúdo seja realmente relevante para a sua vida pode amplificar sua ansiedade. Para quem gosta de participar ativamente das redes, deixar de publicar todos os dias é um desafio. Mas vale a pena tentar dar um tempo às vezes.

Quanto ao e-mail, é um pouco mais difícil, pois a gente realmente usa essa ferramenta para várias atividades profissionais e estudantis, razão pela qual não dá para ignorá-lo. De qualquer maneira, ainda tento – muitas vezes sem sucesso – seguir a dica de não acessar o e-mail em um prazo menor do que duas horas.

Se a mensagem for tão importante que não possa esperar esse tempo, certamente a pessoa vai ligar. E se a pessoa não tem o seu telefone, então é porque a mensagem não é tão importante assim a ponto de obrigá-lo a conferir o e-mail a cada dez minutos.

Enfim, para nós, que gostamos da internet, é um desafio encontrar um limite para o uso. Banir a rede, como percebeu Paul Miller, é uma saída ineficaz. O jeito é tentar moderar.

1 de maio de 2013 6:20

A ditadura não era melhor

Escritor

São recorrentes as coisas que leio na internet dizendo que os militares devem voltar, que durante a ditadura o país era mais sério, mais organizado, com menos crime, menos corrupção – fatos que justificariam a volta de um governo de pulso firme que acabasse com a esculhambação que virou o país.

Não tiro alguns méritos do governo militar e até questiono se realmente uma ditadura poderia ter sido evitada no país naqueles anos de Guerra Fria. Às vezes, penso que não tínhamos muita opção: ou uma ditadura socialista, estilo Cuba; ou uma ditadura de direita, como a que tivemos. Essa dúvida não me faz apoiar o golpe, mas apenas traz uma reflexão. De toda forma, reconheço que o governo militar se preocupou com o desenvolvimento do país em vários aspectos. Nenhum sistema humano é tão perfeito quanto Deus ou tão imperfeito quanto o diabo. Porém, se você passar os olhos pelo mundo de hoje, verá que não há nenhum país que tenha se transformado em uma sociedade desenvolvida por meio de uma ditadura. O caso da China ainda é muito recente para que possamos citá-lo como exemplo e, sinceramente, não sei até quando os chineses trocarão passivamente a liberdade pelo crescimento econômico. Por outro lado, quando você analisa nações nas quais existe riqueza, mas também existe um respeito muito grande pelo ser humano, o que é que você vê? Suécia, Dinamarca, Alemanha, Canadá, Japão, Noruega, Nova Zelândia, França e por aí afora: são todos países democráticos. E as ditaduras, quais são desenvolvidas e respeitam completamente a liberdade humana? Nenhuma.

Como já disseram, a democracia é um sistema político horrível, mas ainda é o melhor que nós temos. O que a moçada nova, a que mais publica elogios à ditadura militar nas redes sociais, não sabe é que nem mesmo redes sociais eles teriam para reclamar se vivessem em um regime autoritário. Hoje, se um petista ou um tucano são pegos em corrupção, qualquer um pode denunciar isso. Há quatro décadas, se um general desviasse qualquer quantia – e havia quem desviasse, pois não há humano perfeito – ninguém poderia colocar a boca no trombone. A maioria das mazelas era varrida para debaixo do tapete e tudo parecia perfeito. Reconheço que, em relação a alguns pontos, as coisas podiam até ser melhores do que temos hoje, mas a questão é de evolução: somente se chega a uma sociedade livre e desenvolvida por meio da democracia, um sistema que requer paciência e persistência, em uma luta constante para aperfeiçoá-lo. Pedir a volta da ditadura é ser preguiçoso, é querer uma solução fácil que, na realidade, não é uma solução, mas uma volta a um passado que deve ser superado, caso a intenção seja ter um país rico e, ao mesmo tempo, pleno de liberdade.

Alexandre Henry – Escritor
www.dedodeprosa.com