Quinta-feira, 24 de Maio de 2012
Vitor Hugo e Danislau Musicais é publicada às quintas-feiras. Assinam a coluna, em dias alternados, o radialista Vitor Hugo e o músico Danislau Também.
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Como é saudável a prática do camping! Nossas barracas plantadas no coração da cidade de São Paulo, tecido fino sobre concreto armado. São quase dez dias sem tirar os pés do tênis, são quase dez dias de nariz vermelho recebendo na cara os rios de vento correndo por entre os corredores das avenidas. A sensação, nas filas, é de muito conforto. Não incomoda, muito ao contrário, trata-se de uma experiência profunda: de walkman no metrô lotado, as pessoas como que em pause, uma expressão comum a todos os rostos – o embalo que o veículo em movimento causa no viajante.
Desembarcar na praça da Sé, lunáticos anunciando o fim do mundo batendo com as mãos nos frontispícios das bíblias surradas, é um modo de encontro. Esses homens são a prova concreta, são a comprovação de que estão prevendo um futuro já presente. Provavelmente habitam outro planeta, se tentasse falar com eles não obteria resposta. Nisso, está a seriedade do trabalho: esses homens são, de fato, enviados.
Que o frio deixa tudo mais bonito, não se pode questionar. O frio gera no homem o desejo inconsciente de luz, a luz que sempre, ou quase sempre, vem a ser quente. E que a luz, tão desejada, ao que seja vista, se afigura mais bonita – eis a tese formulada entre as feiuras impressionantes da praça da Sé. No frio, é mais bonito. Mas estou atrasado.
Mais um ônibus, a intimidade compartilhada de dentro do ônibus. Sorrio para uma menina com uma apostila do Antônio Cândido nas mãos. Ela desce no ponto da USP. Há como que um diálogo imaginado, constante, plantado no pensamento.
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Ederaldo Gentil, cantor e compositor, nasceu no dia 7 de setembro de 1943, no Largo Dois de Julho, um dos tradicionais bairros do centro de Salvador. Foi, ainda criança, que com o pai aprendeu o ofício de relojoeiro, o que ajudava nas rendas financeiras da família bastante numerosa. Adolescente, mudou-se para o bairro do Tororó, também na área central da cidade, que era nessa época o mais forte reduto do carnaval baiano, o que o fez tomar gosto pela coisa. Passou, então, a frequentar os ensaios da bateria da escola “Filhos do Tororó” e, ao mesmo tempo, começou a esboçar suas primeiras composições. Resultado: tornou-se figura forte na ala de compositores da escola e seus sambas passaram a ser cantados nos ensaios.
O mundo do futebol reclamou seu refinado toque de bola e Ederaldo, que chegou a treinar no Vitória, fez dupla de ataque no Esporte Clube Guarany com um dos grandes craques do futebol baiano: André Catimba. O samba, porém falava mais alto em seu coração e o “futuro ex-craque” resolveu apostar no que realmente acreditava, a música. No ano de 1967 venceu um concurso municipal para o carnaval de Salvador com a música “Rio de Lágrimas”. A partir daí, durante alguns anos, tornou-se presença constante nesses concursos, sempre obtendo as primeiras colocações. Em 1969, um fato curioso aconteceu no carnaval de Salvador. Indisposto com as brigas internas da sua escola, Ederaldo resolveu se afastar. Imediatamente foi assediado pelas escolas concorrentes que o convidaram para compor seus sambas-enredo. O resultado foi que, no carnaval de 1970, todas as outras nove escolas de samba saíram no desfile principal da cidade com sambas assinados pelo mesmo compositor, Ederaldo Gentil. A única que não trazia essa autoria era, simplesmente, a sua escola, Filhos do Tororó.
Fora do ambiente carnavalesco, Ederaldo Gentil aportou para valer na cena da MPB no ano de 1970 por meio das composições “Berequetê” e “Alô, Madrugada”. O intérprete desses sucessos foi o cantor Jair Rodrigues, o que lhe facilitou a aproximação com outros nomes da música brasileira. Em 1975 gravou um compacto simples com os sambas “O ouro e a madeira” (regravado pelo Nosso Samba) e “Triste samba”. Esse destaque fez com que a gravadora Chantecler o convidasse para gravar um LP, o primeiro de sua carreira. E assim surgiu, ainda em 1975, o disco “Samba, Canto Livre de Um Povo”, que é nos dias de hoje uma raridade, visto que ainda não foi reeditado em CD, a exemplo de grande parte de sua obra. Falei um pouco de Ederaldo Gentil, compositor de mão cheia, pedra lapidar da nossa música. Viva o samba de Gentil. Salve a cultura popular!
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Neguinho da Beija-Flor pode ser considerado um dos mais importantes ícones do principal produto cultural brasileiro para exportação: o carnaval. Travou a pouco mais de dois anos uma batalha contra um câncer de intestino e, mesmo assim, não parou de pensar no desfile da escola do coração, a Beija-Flor de Nilópolis. Aproveitou o momento de superação pessoal e transformou a Marquês de Sapucaí no templo do seu matrimônio no dia marcado para o seu desfile pela azul e branco.
Nascido em 20 de Janeiro de 1949 no bairro de Vila Isabel, no subúrbio carioca, Luis Antonio Feliciano Marcondes logo se envolveu com o samba. Com apenas 10 anos de idade ele ganhou seu primeiro concurso como puxador. O evento aconteceu num parque de diversões e Neguinho cantou um samba do mestre Jamelão. Apesar da pouca idade, sua voz já demonstrava grande potência e afinação. Durante a infância, Neguinho morou nos bairros de Nova Iguaçu e Nilópolis.
Sua estréia profissional se deu em 1970, puxando um samba para o bloco carnavalesco Leão de Iguaçu. Cinco anos depois ele estreou na escola que seria sua companheira por mais de 30 anos, a Beija-Flor. Foi na entrada da avenida no carnaval de 1976 que Neguinho estabeleceu o grito de guerra mais famoso do samba: “Olha a Beija Flor aí gente! Chora cavaco”. O que veio depois dessas palavras foi um lindo desfile ao ritmo do samba-enredo “Sonhar com Rei da Leão”, do próprio Neguinho, e que culminou com o primeiro título de campeã do carnaval para a escola de Nilópolis. Atualmente a Beija Flor conta 13 títulos no carnaval carioca, todos embalados pela potente voz de Neguinho da Beija Flor.
Mas Neguinho não é só carnaval. Solidificou paralelamente sua carreira como intérprete de sambas firmando-se no mercado fonográfico com excelentes trabalhos. Depois de algumas participações em coletâneas, em 1978 Neguinho gravou seu primeiro disco, um compacto, titulado “Minhas Amizades”, pela Odeon. O primeiro grande sucesso da carreira musical veio em 1979, com “Meu Rio de Janeiro” e “O campeão”. Para divulgar o trabalho, Neguinho contou com a ajuda de um amigo que era o encarregado do sistema de som no estádio do Maracanã. A faixa “O campeão” foi tocada num dia de jogo e Neguinho se encarregou de distribuir panfletos para a torcida aprender a letra da música: “Domingo, eu vou ao Maracanã/
Vou torcer pro time que sou fã…” É isso aí. Falei um pouco de Neguinho da Beija-Flor, o homem das grandes vitórias: no palco, na avenida e na vida. Salve a cultura popular.
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