Quinta-feira, 24 de Maio de 2012
Vitor Hugo e Danislau Musicais é publicada às quintas-feiras. Assinam a coluna, em dias alternados, o radialista Vitor Hugo e o músico Danislau Também.
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Corria o ano de mil novecentos e sei lá quanto. Um ônibus da Universidade Federal de Uberlândia havia acabado de chegar à cidade da Bahia, a boa e velha Salvador. A cidade estava completamente deserta. Ninguém nas ruas, com exceção do ônibus destrambelhado, festivo, dos estudantes de Uberlândia. Preocupado, o motorista tentou colher a informação no posto de gasolina. Com o sotaque muito arretado, o frentista, sozinho no mundo baiano, pôde explicar: é que a polícia está em greve. Enquanto a turma da fumaça comemorava o fato, no fundão do ônibus, outra turma não deixou de se assustar. Salvador, esse barril de pólvora, sem polícia? Primeira coisa a fazer era correr pra Universidade, onde o congresso ia ser realizado. Entrou-se no campus, e todo mundo começou a se sentir mais tranqüilo. Até aí, tudo bem. Mas uma pesquisa precisava ser feita. Tínhamos que dar um pulo na Faculdade de Música, situado em outro campus, no bairro Canela. Criamos a coragem, e ganhamos as ruas. Eu e os parceiros: Guarany de Lavor e Moita Mattos. Contando com a guarnição do deus protetor dos viajantes, atravessamos os quarteirões vazios. Até chegarmos aos pés da Faculdade de Música. Visita mística, era preciso respirar o ar daquele edifício, tão importante pra história de nossa cultura brasileira. O que se passou foi que, ali pelo começo da década 60, a Universidade da Bahia simplesmente mandou ver, em termos de postura institucional. Tratou de contratar, e pagando bem, um monte de professor maluco, gente preparada, pesquisador de verdade – profissionais muito além do academicismo careta e protocolar, sabem como é. A Universidade queria aquele povo na Bahia, oxigenando o circuito criativo da cidade, irradiando. Até hoje essa turma é lembrada, no Brasil inteiro. Foi um marco. Quem esteve lá? Tomzé, por exemplo, como estudante. Walter Smetak e Hans Joachim Koellreutter, como professores e pesquisadores. E, naquele dia, eu, Guarany e Moita. Que pena o edifício estar vazio. Mas opa, quem é aquele moço que se aproxima? E deu-se que pintou um menino descalço, pisando devagar, muito baianamente, feito dançasse. Era estudante de Música, e detinha as chaves da faculdade. Passeamos entre os arquivos, salas de aula. Passeio cinematográfico. Um silêncio abismal. Subimos andares, fomos parar numa sala, dotada de piano. Moita e Guarany, a quatro mãos, produziram improviso. Quem mais estava tocando com eles? Jamais se toca sozinho, porque música é lugar de encontro, como se sabe. De repente o moço, agora dançando de fato, começou a improvisar um canto. Eu, da janela, estupefato com o momento, observava o mar distante. Que dançava também.
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