Confraria dos sauneiros
* A coluna de hoje foi escrita por Danislau Também
O movimento dos vapores da sauna, a dança da fumaça por sobre as cabeças, o som das duchas lá fora. Alegria maior não pode haver – estamos tomando uma sauna. O Dante disse, com melhores palavras, que o inferno é o lugar onde, do lado de fora, se deixa a esperança. Pois emendo um desenvolvimento para essa imagem: sauna é onde, do lado de fora, deixamos tudo que não interessa: a poeira, o cansaço do cotidiano, os rancores, os ciúmes. Quem adentra o recinto de uma sauna é um homem. Quem sai, já é outro. Alguém duvida? Pois façamos o teste. Hoje tem sauna? Vale a pena reunir nossas melhores moedinhas para pagar uma sessão termal na sauna mais próxima.
Um dos papos que sempre faço questão de levar na sauna – porque toda sauna é, antes de tudo, uma sala – gira em torno dos benefícios da atividade sauneira. Dizem que os espanhois não falam de outra coisa, à mesa, além da comida que vão devorando. Sigo o exemplo dos hermanos. Adoro conversar sobre sauna, quando estou na sauna. Modo de mergulhar mais profundo no que vou fazendo? Estacionado no meu cantinho, chega um amigo, já pergunto: “bom demais, né?”. Só para ouvir o companheiro manifestando a sua visão pessoal de tudo. “Ah, você não acredita no sono da noite”. “Ô, meu filho, eu saio daqui pisando nas nuvens”. “Bão demais, que que isso!”.
E por aí vai. Mas a grande oportunidade será conversar com o professor Charles Garcez, fisioterapeuta, massagista e sauneiro profissional, que conheço desde minhas primeiras sessões em Uberlândia. Charles, na sauna, senta-se sempre com a postura de um Buda, e jamais se furta a dar uma explicadinha (inteligentíssima, sempre) sobre os benefícios do vapor seguido da água fria. E dá-lhe palavras bonitas: limpeza profunda, desenvolvimento da imunidade, vasodilatação seguida de vasoconstrição.
Bom, professor, se é bom para o corpo, é bom para o espírito, não é verdade? Porque um dos pontos altos da sauna coincide com o momento em que se sai da sauna. Comigo mesmo, é assim. Tão logo recebo na pele a brisa do lado de fora, reconheço o trato, o bem-estar completo: o ar já é outro. Nesses momentos, sempre mando um alô ancestral para o pessoal que, mil anos atrás, desenvolveu essa tecnologia benfazeja. Esquentando pedra e jogando água por cima, dentro da cabaninha.
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