Quinta-feira, 24 de Maio de 2012
Vitor Hugo e Danislau Musicais é publicada às quintas-feiras. Assinam a coluna, em dias alternados, o radialista Vitor Hugo e o músico Danislau Também.
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*Por Danislau Também
Meus fones de ouvido parecem um capacete, eu ando pela cidade enfiado neles, agora mesmo na cidade de São Paulo quem cruzou comigo terá visto um homem de capacete. Não o capacete das motocicletas (capacete rosado é mais barato, soube), mas o capacete dos meus fones gigantes, hediondos, insolentes. São Paulo fica bonita assim caladinha, meus fones interpostos entre mim e a cidade, mas eu quero estar o mais próximo possível desse asfalto, dessa gente, dessas fachadas – do som dessas ruas. Justamente por isso caminho de capacete: meus fones de ouvido me aproximam desse som. Uma vez calada a cidade, põe-se a falar, a cidade. Falam as fachadas com a música silenciosa dos blocos de concreto, falam os passos em mute da menina atravessando a rua, falam todas e nenhuma língua as bocas das pessoas se movendo. Fala e dança essa cidade sem som (o único som dessa cidade está contido pelas conchas do meu capacete).
Que grande coreografia essa dos automóveis, reduzindo a velocidade com a sincronia de uma esquadrilha da fumaça. Os carros deslizando na rua parecem que vão todos chegar à velocidade zero com a mesma velocidade de desaceleração, isso não é coisa comum, mais parece um milagre, um milagre que acabou de acontecer.
Explosão da horda liberada para a travessia da avenida, avança coreografada a multidão, olho para o céu em busca do regente daquela sinfonia toda (a cidade é uma grande dança) dou logo com a cara de um leão de concreto, abençoando a São Luís com fúria animalesca. Estou aqui a trabalho, não posso ignorar a força da expressão desse leão de cimento incrustado na fachada cinzenta.
Seguro com dedos a ponta da barbicha, inauguro a pesquisa: “de que deus tomaste emprestada essa fúria, ó leão da São Luís?” A guitarra do disco que vou ouvindo vira uma esquina, canta de forma que se insinue sobre minhas vistas o convite de um corredor sombrio. Ao fundo do corredor, vejo um altar de mármore velho. Caminho devagar, escuto a escuta de alguém, contra-escutas uma colada na outra, sei que sou ouvido, porque ouço quem me ouve.
Ignoro as semipresenças, posto-me diante do altar, percebo uma pequena câmara da qual não se vê o fundo. Silêncio total, o disco acabou de acabar. Retiro os fones de ouvido, guardo-os na mochila, percebo tímidos sinais sonoros, emitidos do fundo da câmara. Viro a cabeça, devoto a inteireza do meu ouvido esquerdo à causa de entender que som poderia ser aquele. Som de distância, essa câmara não apresenta fundo, não há parede nem fim aqui, além do muro negro do vazio sem luz. (O som foi de crianças brincando na água). Próximo disco, capacete produzindo música, dou as costas para o altar, e reinicio a caminhada. Atravesso a rua sem perceber o leão de cimento. Que, de sua parte, me ignora também.
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