O leitão
Hoje é Natal então eu pus “então é natal” da Simone e fui comer sozinho o leitão que arrematei barato no leilão. Arrematei, papel celofane parecendo embrulho de presente. Self-service nesse dia especial não dá.
É o primeiro Natal que passo sozinho. Sozinho, sozinho, não, né. Porque tem o leitão. Porque ela não tem mais. Ela foi embora.
Mas eu virei o leitão com a cara pra lá, muni-me de garfo e faca e espetei. E comecei a comer. E fui comendo. E fui me lembrando que ela foi embora e fui comendo. E fui me lembrando que estava sozinho no mundo e fui comendo. E fui me lembrando que tinha voltado ao vício do wafer e fui comendo. E fui me lembrando que tava comendo e fui comendo.
Aí a gordura da pururuca começou a fazer o garfo querer ir embora. Como a vida é escorregadia! Tudo escorregando, eu disse: “ah, leitão!” e comecei a comer com a mão. Aí a vida é escorregadia e o leitão também é e ele foi parar no chão e eu fui atrás com os braços que deus me deu. Eu já estava sem camisa e éramos nós dois rolando no chão nesse natal.
Tudo correndo, tudo escorrendo, a mão não dava mais pra segurar o leitão. E eu fui de dente, mordi o danado, fiquei com a cara toda engordurada. Ninguém me disse, mas eu sinto na cara o espelho de gordura refletindo azuis e rosas, toda a alegria da cidade natalina estampada no meu rosto.
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