Vitor Hugo e Danislau

O retrato 3X4 da cultura popular.

Musicais Musicais é publicada às quintas-feiras. Assinam a coluna, em dias alternados, o radialista Vitor Hugo e o músico Danislau Também.

29/03/2012 6:55

Embaixo d’água

Em Moreré, na Bahia, peguei um barco em direção às piscinas naturais. Aprendi a lidar com as máscaras e o canudo de respiração – a fluência respiratória veio em minutos. Quando dei por mim, estava respirando embaixo d’água com a mesma naturalidade com que respirava no oceano de ar assentado sobre a terra. Um peixe se aproximou sem dizer nada, nem bom dia, nem boa tarde, nem boa noite. Olhei fundo no olho dele, perguntando mentalmente: “quem tá aí? e como vai essa vida de peixe?”. Carinhosamente, e sem se despedir, ele me virou as costas. Saiu rebolando sua causa magnífica.

De repente, um peixe maior me chamou a atenção. Um peixe bem maior. Uma atenção… diferente. O campo de visão dos óculos de mergulho é mais limitado, por alguns momentos de pavor eu julguei estar diante de uma sereia, e pude confirmar: era uma moça que navegava por ali. O campo de visão dos óculos é mais limitado que a amplitude da visão do olho humano, mas o foco das lentes sob as águas é infinitamente superior: o melhor lugar pra se admirar o corpo de uma sereia, digo mulher, é embaixo d`água.

A Bahia e o mar, não sei se os amigos estão por dentro, despertam calores – com o peixe eu fracassei, mas com essa beldade submarina meu charme há de funcionar. Tentei uma aproximação. Flutuei como um galã flutuaria em um filme americano dos anos 50. Desconsiderei a possibilidade de tentar a linguagem dos sinais. Poderia soar ridículo, dado que os óculos e o canudo de mergulho favorecessem ainda mais o meu visual didi mocó. Mesmo sem a total confiança, não pude perder a ideia que me ocorreu: cheguei perto da moça, flutuei diante da vitrine das lentes dos óculos delas, quando dei por mim estava imerso em outro oceano, o mar verdíssimo daqueles olhos. Quase me perdi para sempre – são muitos os perigos do mar. Mas mantive o foco. Tomei posição diante da moça, e perguntei com os olhos que deus me deu: “a amiga… vem sempre por aqui?”

Borbulhas de ar perturbando o mar da Bahia foram nosso modo de sorrir com aquilo. Blublublu quase mudo, tantas borbulhas fizeram a gente se perder um do outro. Deu saudade, naquela eternidade do escuro de borbulhas. Mas eis que cessaram as bolinhas de ar. E o que se revelou, mais uma vez, foi o esplendor do corpo da moça, e os caprichos do laço do biquíni.

O peixinho maroto resolveu aparecer novamente, olhamos os dois para ele como se regidos por coreografia prévia, e cultivamos um adeus sem nenhum gesto (embaixo d`água podemos dispensar algumas solenidades). Na volta para minha rota de náufrago eterno, ainda suspiroso, só me restou piorar o poema do Drummond: “Ó oceano. Vasto oceano”.

Comentários 0

Ao enviar suas informações de registro, você indica que concorda com os Termos do serviço e leu e entendeu a Política de Privacidade do site do Correio de Uberlândia. Só serão liberados comentários cujos autores estejam identificados por nome e sobrenomes e que não contenham expressões chulas e/ou palavras de baixo calão.