Vitor Hugo e Danislau

O retrato 3X4 da cultura popular.

Musicais Musicais é publicada às quintas-feiras. Assinam a coluna, em dias alternados, o radialista Vitor Hugo e o músico Danislau Também.

5/07/2012 7:00

Uberlândia, Uberlândia te saúda

O ônibus deslizando calado entre as luzes horizontais das sete horas da manhã em Uberlândia. Meninos, cheguei. O rapaz aqui do assento ao lado – estamos na rodoviária – Arlindo de Maceió, acabou de mostrar uma coleção de passagens. De Montes Claros para Pirapora, de Pirapora para Arapiraca, de Arapiraca para São Luís do Passo Fundo, de São Luís do Passo Fundo para Araguari. Arlindo acabou de me dizer que Uberlândia para ele seriam esses breves minutos entre o ônibus passado e o ônibus futuro. Não resisti, gracejei: que comigo era o contrário. Que não havia ônibus que pudesse me levar para longe de Uberlândia. Como não havia ônibus (triste paradoxo) que pudesse me levar para perto dela. Murilo Mendes, conforme nos diz o João Cabral, sempre que avistava um rio qualquer, fazia a saudação: “Salve o rio! O Paraibuna te saúda.” Tentei fazer o mesmo com as cidades que avistava. “Salve a cidade! Mas em nome de que cidade posso saudá-la?”

Ah Uberlândia, foram mais de 20 anos lambendo esse chão com o maior amor do mundo. Foram deslumbramentos diários com as churrasqueiras fumegantes do bairro Santa Mônica. Foram quilômetros e quilômetros da sua geografia inscritos na musculatura das pernas. Foram passeios de desespero nas madrugadas em chamas do Centro da cidade. Foram transes transcendentais entre os tambores do congado ou da umbanda. Foram papos e mais papos com os motoboys e caminhoneiros da sauna do UTC. Foram.
Porque foi preciso te esquecer, para poder te lembrar melhor. Nossa relação, que sempre foi de infidelidade mútua, só fez crescer ao que te abandonava (abandonar é minha maneira de ir em busca). Sim, Uberlândia, foi preciso o abandono. Porque uma amizade como a nossa não pode permitir o piloto automático, a sensação de tudo-visto, o tédio dos replays infinitos. Foi preciso a descontinuidade dos loopings, porque, afinal, a paixão é a prova dos nove. Vou escrever no para-choque do meu caminhão (a placa é de Uberlândia): “esqueci por que te amo.” Soaria muito cafajeste?

Pronto, já me sinto um esquecido da ideia de Uberlândia (a cidade, concreto armado, é mínima lembrança, na intimidade do pensamento). Já posso pisar nessa terra de novo. Repiso nesse chão como pisei há 20 anos. Com a mesma inocência. Lavado de passado. Então vamos para farra, fazer o quê? Quero ver o pecado na fachada do Cine It. Quero passar frio nas manhãs do Fundinho. Quero ver as beldades na Universidade. Quero ouvir o tambor no bairro Martins. Quero tomar banho no Uberabinha. Voltei, Uberlândia. Ou foi você que voltou?

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