Vitor Hugo e Danislau

O retrato 3X4 da cultura popular.

Musicais Musicais é publicada às quintas-feiras. Assinam a coluna, em dias alternados, o radialista Vitor Hugo e o músico Danislau Também.

21 de fevereiro de 2013 7:13

Um grupo chamado Relíquia

O Grupo Relíquia tem as raízes fincadas em Itaquera, São Paulo. Incentivados por admiradores, os integrantes deste conjunto, que se reuniam casualmente para as rodas de bar, resolveram, em 1987, assumir a condição de grupo que, na oportunidade era formado por Davis, Rodney Simpatia, Carlão, Babalú, Robinho e Bigú. Trabalharam em todos os espaços possíveis, onde quer que houvesse um tamborim. Venceram o primeiro festival de Pagode e Samba realizado na Escola de Samba Leandro de Itaquera, em agosto de 1988. No mês seguinte, venceram outro festival na Escola de Samba Passos de Ouro, atualmente X- 9 Paulistana. Em novembro do mesmo ano, tiveram a oportunidade de vencer mais uma vez, na escola de Samba Leandro de Itaquera, com o samba-enredo “Babalotim”, interpretado por Eliana de Lima. Esta música chegou a ser considerada pela crítica, como um dos melhores sambas de enredo de São Paulo.

Em janeiro de 1989, apresentaram-se por dez meses no “Aconchego’s Bar” em Vila Formosa. Depois foram convidados para se apresentar numa das casas mais agitadas da Capital, o “Só Pra Contrariar”. Ali permaneceram por três anos. Então surgiu a oportunidade de participar em duas faixas, no LP “Só Pra Contrariar e seus convidados”. Fizeram shows ao lado de ilustres figuras, como Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Grupo Raça, Eliana de Lima, Beth Carvalho, Jorge Aragão, Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Marquinhos Satã, Reinaldo, Dicró e outros. Em 1991, começaram a tocar no Sambarilove, na Bela Vista, onde permaneceram por um ano.

Veio o lançamento do seu primeiro LP, com o titulo “Ta tudo aí”, onde se destacaram as músicas “Vasto Coração”, “Segunda Vez” e “Loucura”. O disco chegou às ruas em dezembro de 1992. Em 1995, o Grupo Relíquia lançou o segundo LP, com o título “Mudanças” no qual contaram com grandes sucessos: “Batendo na palma da mão”, “Triste Dor” e “Rosa Amarela”.

Em 1998, surgiu “Viagem ao infinito CD”, terceiro trabalho do grupo. Este foi distribuído e comercializado pelo selo Relíquia Produções Artísticas. O grupo Relíquia, na verdade, esteve sempre entre os grandes, mas nunca estourou. Trafega hoje pelos bares da capital paulista, com uma formação um tanto diferente, mas carrega a marca daqueles que contribuíram para a grande e avassaladora onda do samba que tomou conta do país no final dos anos 80 e início dos 90. Viva o Relíquia e sua luta pelo estrelato. Salve a cultura popular!

14 de fevereiro de 2013 7:00

Acento carnavalesco

Carnaval parece feriado, mas é mais: Carnaval é um acento inexplicável que de repente pousa sobre cada uma das relações pessoais. O amigo pense comigo: já sofreu de amor nos dias do Carnaval? Já brigou com a namorada? Já namorou no Carnaval? Beijou na boca? Lembra aquela breve troca de olhar por entre os foliões, entre você e uma mascarada sorridente? Jamais uma troca de olhares foi mais intensa. Aquela saudade eterna, como dói no Carnaval. Ninguém nunca foi tão feliz como foi no Carnaval. Ninguém nunca foi mais triste. Carnaval é muito mais que feriado. Carnaval é acento circunflexo psicodélico colorindo vivamente cada um dos sentimentos.

A dor do ciúme, Senhora da Abadia, me ferroa todo Carnaval, e com a potência máxima. Eu fico pensando na imensa formosura da musa desfilando pelas ruas de Recife, ou Belo Horizonte, ou Ouro Preto. O véu do vestido de noiva, um palmo de transparência branca, encobrindo o rosto de menina namoradeira. E mais: o pingo vermelho sobre a maçã do rosto, aquele coraçãozinho que a banda do Amor, a melhor do mundo, no modesto entendimento desse sofredor, mandou fazer especialmente pro Carnaval
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Sofro de saudades, sofro de ciúmes, no Carnaval, as contusões são mais fatais, mas ainda estou de pé. Aproveito e colo no bloco, procuro uma fantasia, vou até bonitinho, e quando me integro à fuzarca, sinto a força da imensa beleza dos corpos. Meninas de short, como é sexy essa moça de minissaia, mas epa, essa moça é um rapaz, que aliás acabou de me roubar um selinho de Carnaval. Vamos embora, na virada da esquina quem pinta é um moço de barba, vestido de mulher, mas com contornos femininos. Chego mais perto, percebo que o moço de barba, na verdade, é uma tremenda beldade, descendo até o chão, derramando irresponsavelmente um pouco de cerveja sobre as ruas. É isso aí, moça de barba, Carnaval é exatamente isso, é se derramar e descer até o chão. Não posso com tanta força, é um sensualismo perturbador, solto nas ruas, transtornando tudo. Ainda bem que vai chover. Aprovo a iminência da chuva, olho para o céu pedindo água. Derrama muita água, meu querido São Pedro, que Carnaval é exatamente isso: é se derramar e dar vexame.

Carnaval sendo acento, impossível evitar o acento de tristeza impresso pelo Carnaval a esses dias pós-Carnaval. Quarta-feira de Cinzas. De chorar essa tristeza. Sentado no meio-fio, a fantasia removida da face em função do rio de lágrimas. Mas uma esperança de repente pinta: Carnaval pode ser o ano todo. Vamos nessa, minha Velha-Guarda da boêmia permanente!

por Danislau

7 de fevereiro de 2013 7:12

Um certo Bira

Ubirajara Silva de Souza, o Bira da Vila São Luiz, nasceu em 8 de janeiro, na rua Santo Antônio, no Bairro da Vila São Luiz em Duque de Caxias, Rio de Janeiro. Faz parte de uma família tipicamente brasileira: humilde e criativa, pobre e com grande potencial artístico. Seus avós maternos foram escravos até a adolescência. Seus avós paternos eram uma índia e um sanfoneiro português. Esta miscigenação lhe deu como herança, pelo lado indígena, a garra para vencer obstáculos, pelo negro a determinação e a criatividade. Bira tem na figura do pai, Seu Jair, o grande inspirador de sua carreira artística. O conhecido “Neblina”, tem um extenso e variado currículo, que vai desde sambista e passista da “Cartolinha de Caxias”, passando pela função de ritmista, versador de partido alto até chegar à posição de goleiro do Vila São Luiz Futebol Clube. Neblina, o pai, foi inspiração para a primeira composição do filho, Bira da Vila: o “Malandrinho” é de 1978 e levou nosso compositor às melhores rodas de samba do Rio, cantando com gente poderosa, como: Monarco, Beto sem Braço, Roberto Ribeiro, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Dona Yvone Lara, Candeia entre outros ícones do samba.

Coincidentemente tem em Luis Carlos da Vila, seu maior ídolo e também seu maior incentivador, nascendo desse reconhecimento de valor artístico recíproco, uma real amizade e parceria musical. Sua carreira autoral decola em 1993, com a gravação do samba “Sorriso de Banjo” pela saudosa cantora “Jovelina Pérola Negra”. Em 1998, o padrinho Luís Carlos da Vila o incentivou a mostrar seu trabalho de compositor e intérprete. Nesse ano, no Teatro da Praia em Copacabana (RJ), estreia o show “Nova Matriz”, com a casa lotada, onde cantou somente sambas de sua autoria. Este show foi sua porta de entrada para ser convidado pelos produtores da Riotur, Fernando Gama e Luizinho, que acreditaram no seu potencial artístico e abriram espaço para outras apresentações. Sua maior emoção foi cantar no Arpoador, ao lado do próprio Luis Carlos da Vila e de bambas do samba como: Wilson Moreira, Nelson Sargento, Walter Alfaiate e Wilson das Neves. Este foi seu passaporte para a elite do “samba-de-raiz”. Desde então passou a se apresentar todos os anos nos eventos da Riotur: no show do Réivellon, no pré-carnavalesco, shows de carnaval do Terreirão do Samba, carnaval da Lapa, entre outros.

Enfim, Bira tem se apresentado nas principais rodas de samba do Rio de Janeiro e São Paulo. E o público continua aguardando com grandes expectativas o lançamento de seu primeiro CD. Atualmente Bira (como percursionista) tem integrado a banda de Luis Carlos da Vila. Bira é um dos mais legítimos representantes da fina estirpe do samba-de-raiz carioca. Viva Bira e viva a Vila São Luiz. Salve a cultura popular!