Vitor Hugo e Danislau

O retrato 3X4 da cultura popular.

Musicais Musicais é publicada às quintas-feiras. Assinam a coluna, em dias alternados, o radialista Vitor Hugo e o músico Danislau Também.

13 de junho de 2013 6:48

Relíquia: o samba de Itaquera

O Grupo Relíquia tem suas raízes fincadas em Itaquera, São Paulo. Incentivados por admiradores, os integrantes do conjunto, que se reuniam casualmente para as rodas de bar, resolveram, em 1987, assumir a condição de grupo que, na oportunidade, era formado por Davis, Rodney Simpatia, Carlão, Babalú, Robinho e Bigú. Trabalharam em todos os espaços possíveis, onde quer que houvesse um tamborim. Venceram o primeiro festival de pagode e samba realizado na Escola de Samba Leandro de Itaquera, em agosto de 1988. No mês seguinte venceram outro festival na Escola de Samba Passos de Ouro, atualmente X-9 Paulistana. Em novembro do mesmo ano, tiveram a oportunidade de vencer mais uma vez, na escola de Samba Leandro de Itaquera, com o samba-enredo “Babalotim”, interpretado por Eliana de Lima. Esta música chegou a ser considerada pela crítica, como um dos melhores sambas-enredo de São Paulo.
Em janeiro de 1989, apresentaram-se por dez meses no Aconchego’s Bar, em Vila Formosa. Depois foram convidados para se apresentar numa das casas mais agitadas da Capital, o Só Pra Contrariar. Ali permaneceram por três anos. Então surgiu a oportunidade de participarem de duas faixas do LP “Só Pra Contrariar e seus convidados”. Fizeram shows ao lado de ilustres figuras, como: Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Grupo Raça, Eliana de Lima, Beth Carvalho, Jorge Aragão, Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Marquinhos Satã, Reinaldo e Dicró. Em 1991, começaram a tocar no Sambarilove, na Bela Vista, onde permaneceram por um ano.
Veio o lançamento do primeiro LP, com o título “Tá tudo aí”, na qual se destacaram as músicas: “Vasto Coração”, “Segunda Vez” e “Loucura”. O disco chegou às ruas em dezembro de 1992. Em 1995, o grupo Relíquia lançou o seu segundo LP, com o titulo “Mudanças”, no qual contaram com grandes sucessos: “Batendo na palma da mão”, “Triste Dor” e “Rosa Amarela”.
Em 1998, surgiu “Viagem ao infinito CD”, terceiro trabalho do grupo. Esse foi distribuído e comercializado pelo selo Relíquia Produções Artísticas. O grupo Relíquia, na verdade, esteve sempre entre os grandes e nunca estourou. Trafega hoje pelos bares da capital paulista, com uma formação um tanto diferente, mas carrega a marca daqueles que contribuíram para a grande e avassaladora onda do samba que tomou conta do país no fim dos anos 80 e início dos 90. Viva o Relíquia e sua luta pelo estrelato. Salve a cultura popular!

6 de junho de 2013 6:04

De passagem, pra ficar

Passeando de bicicleta pela noite fria em São Paulo, recebo pelo celular a mensagem diabólica: os meninos do conjunto musical Do Amor estão na cidade, e vão realizar audição do seu mais recente álbum, Piracema, na Casa do Mancha. Comemorei como se fosse gol. Em menos de quinze minutos estacionava a bicicleta diante das caixas de som.

Quem me recebeu, já na portaria, foi o Marcelo Callado, heroi do rock brasileiro. Fiz minha saudação, festejei aqueles óculos redondos sob a cabeleira encaracolada com todas as forças que me restavam. Como me restavam muitas forças, e como sempre me pareceu impossível estar diante de um grande homem (ou de uma grande mulher) sem beber nada, elaborei com o barman um plano para a noite. Comecei com o drink Macaulay Caulkin, abacaxi e gengibre conspirando contra a paz mundial.

Ricardo Dias Gomes me sorriu de longe o sorriso mais elegante da música brasileira. Taí um cara que me leva a bater as mãos nas calças, asseio de capiau, antes de dar o abraço: Ricardo consta entre os grandes. Ouvimos o album inteiro, duas vezes consecutivas, balançando o esqueleto. Moita, Ricardo e Marcelo batiam algum papo, mas “Piracema”, o disco que lançam nos próximos meses, me fez virar os olhos e esquecer o português. Já nasce clássico, e está entre os maiores, o próximo disco do quarteto Do Amor.

Vexame: Gustavo Benjão acabou de chegar. Chegou em modo carnavalesco, mais alucinado que o Crocodilo Dundee, equilibrando na mão o drink fumegante. Parar em pé é para os fracos, foi sentado no chão que Benjão afinou sua guitarra, pra se levantar só na hora do show. “Freedom”: jamais essa palavra foi pronunciada com maior propriedade. Falsete majestoso, Benjão interpreta como ninguém a canção americana. Moita, a meu lado, leva as mãos aos joelhos, em regozijo de risada.

Gabriel Bubu, o quarto Do Amor, não estará presente nessa noite memorável. Toca com alguém em algum lugar do interior de São Paulo. Deve estar aprontando horrores por lá. Por aqui, só me faz lembrar da força dessa presença, justamente por não estar presente. Jagunçagem profissional, o Do Amor. Ataque consistente. Briga de faca no seio da cultura brasileira. Fui embora morrendo de rir, pedalando em slow motion, sentindo-me como que tragado pela imensa noite brasileira.

30 de maio de 2013 6:05

O samba de Grassa

Maria da Graça Oliveira Rangel é mais conhecida no meio do samba como Grassa Rangel. Carioca do Rio de Janeiro, cantora e compositora, cresceu no Engenho Novo cantando nas festas familiares com seus irmãos músicos e seu pai violonista e seresteiro. Daí surgiu o Grupo Família do Samba nos anos 90 em que ela cantava seus sambas prediletos chamando atenção pelo timbre afinado e domínio de palco. No final dessa década, ela se desligou do grupo e iniciou um trabalho solo. Reapareceu em 2003, lançando-se definitivamente no cenário musical brasileiro: foi levada por uma amiga ao programa de rádio da Mec, “Samba MPB de Raiz”, apresentado pelo radialista Adelzon Alves, onde foi convidada a cantar pela primeira vez, “ao vivo”, em um programa de rádio e passou, a partir desse dia, a integrar o elenco de compositores e cantores da produção comandada por Adelzon Alves na Rádio Mec – AM 800. Ainda hoje, participa semanalmente do programa “O amigo da madrugada” do próprio Adelzon, que vai ao ar de segunda a sexta, da meia-noite às 3h, pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Em 2004, conheceu o compositor do Salgueiro, Olímpio, que a convidou para escrever e interpretar um samba-enredo para o G. R. E. S. Acadêmicos do Salgueiro, passando a integrar, desde então, a ala de compositores da agremiação. Assim deu-se sua iniciação com os sambas de quadra e das escolas de samba. Em 2006, gravou o CD “Adelzon Alves, MPB de Raiz”, da gravadora Selo Mec, que teve como arranjador musical o conhecido Paulão Sete Cordas. Este trabalho foi lançado em novembro de 2006, no Teatro Rival, marcado por uma espetacular interpretação de Grassa Rangel, tendo sido este show reprisado pela TV Educativa na passagem do Réveillon do mesmo ano. Falei um pouco da nova geração do samba carioca. Grassa Rangel é uma legítima representante da mais brasileira das músicas. Embora ainda carente de divulgação fora da mídia de massa, é bastante conhecida no circuito carioca, tendo passado por seus principais redutos: Mistura Carioca, Teatro Rival, Scala Rio, Estudantina Musical, Sambola Hall, Beco do Rato e Casa da Mãe Joana. Grassa Rangel foi eleita “Personalidade do Samba – 2005” pela Associação das Escolas de samba do Rio de Janeiro. Viva, Grassa. Salve a cultura popular!