Vitor Hugo e Danislau

O retrato 3X4 da cultura popular.

Musicais Musicais é publicada às quintas-feiras. Assinam a coluna, em dias alternados, o radialista Vitor Hugo e o músico Danislau Também.

16 de maio de 2013 6:45

Tia Ciata

Tia Ciata nasceu em Salvador em 1854 e, aos 22 anos, foi para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. Foi a mais famosa das tias baianas que deixaram Salvador por causa das perseguições policiais. As baianas eram perseguidas, naquela época, por serem negras e praticarem o candomblé. No Rio, instalavam-se na região da Cidade Nova, do Catumbi, Gamboa, Santo Cristo e arredores. Ao chegar à Cidade Maravilhosa, tia Ciata conheceu Norberto da Rocha Guimarães, envolvendo-se com ele. Engravidou de sua primeira filha, a quem deu o nome de Isabel. O caso dos dois não foi adiante. Para sustentar a filha, começou a trabalhar como quituteira na rua Sete de Setembro, sempre paramentada com suas vestes de baiana. Mais tarde, tia Ciata casou-se com João Baptista da Silva, que, naquela época, era um negro bem-sucedido na vida. Deste casamento resultaram 14 filhos. Recebia, todos os finais de semana em sua casa, pessoas que se interessavam pelo pagode e pela dança: cantores, compositores, dançarinos e cidadãos comuns. Assim, Donga, Sinhô, João da Baiana eram figuras constantes no batuque da tia Ciata. Partideira reconhecida, cantava com autoridade, respondendo aos refrões das festas, que se arrastavam por dias. Ela cuidava para que a comida estivesse sempre quente e saborosa e o samba nunca parasse. Assim, o ponto onde morava, na Praça Onze, se tornou passagem obrigatória das primeiras escolas de samba nos raiar dos desfiles.

Tia Ciata era famosa por seu lado curandeiro e foi um investigador de polícia, conhecido como Bispo, que proporcionou a ela uma interessante história, envolvendo o então presidente da República, Wenceslau Brás. O presidente tinha uma ferida na perna que não se curava. O policial disse ao presidente que tia Ciata poderia curá-lo. O mandatário foi até a negra, que, incorporando um orixá de cura, prescreveu uma pasta de ervas que acabou por cicatrizar completamente o ferimento. O presidente perguntou à negra do que ela mais precisava naquele momento. Tia Ciata respondeu que não precisava de nada, mas que seu marido precisava de um trabalho. Wenceslau Brás o empregou no serviço público.

Todo ano, durante o Carnaval, armava uma barraca na Praça Onze, reunindo desde trabalhadores até a fina flor da malandragem. Na barraca eram lançadas as músicas, as conhecidas marchinhas, que ficariam famosas no Carnaval do Rio de Janeiro. Tia Ciata morreu em 1924, mas, até hoje, é parte fundamental na memória do samba. Curiosamente, existem pouquíssimas imagens de tia Ciata. Viva, tia Ciata! Salve a cultura popular!

2 de maio de 2013 9:33

Alex Ribeiro

*Por Vitor Hugo

Cantor de samba da nova geração, Alex Ribeiro começou a carreira como o pai – o cantor e compositor Roberto Ribeiro – jogando futebol em times brasileiros e internacionais. A música falou mais forte e ele, que desde criança frequentava as rodas do Império Serrano, começou a interpretar as mais belas canções que o pai cantou e que, até hoje, são entoadas como verdadeiros hinos da música popular brasileira. Ainda menino participou, como percussionista, de algumas gravações dos discos do pai. Nesta época, já era integrante da Escola de Samba Mirim Império do Futuro.

Afilhado no samba do grande mestre Jorge Aragão e da diva Elza Soares, Alex Ribeiro foi abençoado e apresentado ao mercado musical pelos padrinhos em um lindo show no Teatro Rival em junho de 2010, onde contou com as participações especiais do percussionista Laudir de Oliveira e do rapper
B Negão. Já prestou inúmeras homenagens ao pai, entre elas, um grande espetáculo que aconteceu no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, titulado “Tributo a Roberto Ribeiro”, que contou com a participação de Zé Luiz do Império, Monarco, Toninho Gerais, Diogo Nogueira, Délcio Carvalho, Noca da Portela, Neguinho da Beija-Flor e Nelson Sargento.

Alex Ribeiro tem marcado presença em palcos importantes do samba, como “Carioca da Gema”, “Sala Baden Powell”, “Teatro Odisséia”, “Sesc”, “Lona Cultural Gilberto Gil” entre outros, sempre cantando músicas autorais e também relembrando o rico repertório do falecido pai. Assim também é o novo CD, que traz o talento de um bamba da nova geração com a música ancestral de um dos maiores sambistas da história.
A carreira encontra-se em plena ascensão. É sambista que preserva o estilo dos anos 70, época de artistas inesquecíveis que marcaram a música popular brasileira como um todo. O partido alto está vivo em cada uma das músicas e no timbre de voz. Basta fechar os olhos e sentir. Alex Ribeiro é pura raiz. Samba da melhor qualidade. Salve a cultura popular!

25 de abril de 2013 7:10

Altamira, 600

Eu e minha banda, uma mistura de Rolling Stones com os Trapalhões, atravessando o Brasil Central sobre as rodas da van do Reginaldo, a telejanela transmitindo os rios, a tristeza dos postos de gasolina, as meninas oferecendo siriguelas, tamandaris, pepinos e limões, toda a botânica brasileira brotando da telejanela da van quase estacionada sob a pouca velocidade dos quebra-molas.

A discotecagem ao acaso da pen drive defeituoso, horas e mais horas de cochilo nenhum, o medo da polícia, o medo nenhum dos bandidos, o medo nenhum da vida, muito menor o medo da noite. Uma paradinha para beber café, depois de três discos e meio de silêncio absoluto. Enzo Banzo resolveu tomar um banho. Quando demos fé está todo o mundo de toalhinha sobre os ombros no posto de gasolina anos 40 do interior do Tocantins.

Vai ser preciso cozinhar alguma coisa, o Reginaldo me saca um fogão de duas bocas, acende uma lamparina, a van é lâmpada produzindo som: “No rancho fundo”. Palestras edificantes da Radio AM. Jogo de futebol do campeonato russo, transmitido em russo pelas ondas curtas do radinho do Reginaldo. Tiro onda, compreendo o russo, traduzo cada jogada, digo que está nevando no estádio, que o público pagante não chega às duas dezenas, que o juiz está roubando como um louco, que um torcedor invade o campo gritando “utererê”, que “na rede pelo lado de fora!”.

Junta gente, o Reginaldo tem um projetor de vídeo. Despejamos sobre as paredes da van o maior clássico da pornochanchada nacional. Tarcísio Meira & Vera Fisher. Reginaldo faz aparecer uma esteira de palha, sentam-se sobre ela músicos e caminhoneiros, mais as meninas do ponto, mais os meninos do ponto.

Fumam-se charutos, bebe-se pinga. Quando dou por mim, o tapete parece querer ganhar voo, me equilibrio sobre ele, mas não: quem havia ensaiado o milagre do arranque foi a van do Reginaldo. Luz de farol incide sobre a placa, toda van é um projetor de vídeo: “Altamira a 600 km”.

Danislau