Carnaval e cinema na Sapucaí
Hoje é sexta-feira, o carnaval está aí. Logo, lembro-me dos desfiles das escolas de samba, especialmente do Rio de Janeiro. Esse ano, ao menos duas escolas, Unidos da Tijuca e Acadêmicos do Salgueiro, levarão à avenida uma dosagem de cinema que deixará muito apaixonado pela sétima arte feliz.
A Unidos da tijuca, campeã de 2010, levará à Sapucaí o samba enredo “Esta Noite Levarei Sua Alma”, analogia ao filme “À Meia-Noite Levarei Sua Alma”, do grande José Mojica Marins, o Zé do caixão. A primeira estrofe do samba-enredo nos convida a fazer parte de uma viagem pelo universo do terror cinematográfico na barca de Caronte, que na mitologia grega era o meio de locomoção no rio do inferno para as almas cujos corpos foram sepultados.
Essa viagem parece se confirmar em diversas passagens, como “pavor me abraça, isso não se faz”, que menciona o pavor que temos ao assistir terror; “Ele volta, revolta mistério no ar”, alusão a Jason, personagem de “Sexta-Feira 13” que sempre volta para assassinar mais pessoas; e ainda “Dos milharais uma estranha visão”, referência direta à Colheita Maldita.
Já o Salgueiro, escola tradicionalíssima (quem não se lembra de “explode coração na maior felicidade…”, de 1994), levará à Sapucaí o samba-enredo “O Rio no Cinema”. Tendo como referência temática direta a sétima arte, a agremiação lembrará a tradicional região da Cinelândia, que nos anos de 1910, 1920 e 1930, concentrou o maior número de salas de cinema do Brasil; conduzirá o espectador às populares chanchadas da Atlântida Cinematográfica, maior empresa produtora de filmes do Brasil nos decênios de 1940 e 1950; e mesclará cinema hollywoodiano e cinema brasileiro por meio da confusão de personagens como Carlota Joaquina, Carmem Miranda, Orfeu, Homem-Aranha, Superman e King Kong.
Certa vez vi num filme, não muito antigo, uma cena em que o carnaval era exposto na tela e a voz firme de um narrador dizia: “Uma perfeita forma de dominação autoritária: a felicidade”. Se o carnaval fizer essa mesma interpretação do cinema, talvez nós cinéfilos não sejamos tão felizes nesse carnaval de 2011. No entanto, acredito que o espírito carnavalesco encara felicidade apenas como felicidade, e isso é bom, pois quando estamos felizes não avaliamos se esse estado espírito é uma manifestação de passividade ou rebeldia, apenas estamos felizes. Portanto, que o cinema e o carnaval nos deixem ao menos satisfeitos.
Julierme Sebastião Morais Souza
Mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia e integrante do Núcleo de Estudos em História da Arte e da Cultura (Nehac)
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