O Discurso do Rei
Um discurso pode ter mais efeito que um canhão. Se arquitetado harmoniosamente, tal como sólido edifício, sua sombra pode até mesmo obscurecer na memória de seus ouvintes o efeito de uma arma, encorajar para a batalha, produzir seguidores, suscitar admirações e semear o fanatismo. O discurso dotado de uma boa oratória é uma das mais sublimes veredas para a construção de um líder, sua fala é um monumento à sua glória, suas palavras são o sustentáculo de seu domínio, seus ecos perpetuam nas mentes em que se introjeta. Dessa forma, espera-se, de um grande líder, um grande discurso. O “O Discurso do Rei”, ganhador de quatro estatuetas no Oscar 2011, incluindo o de melhor filme, vem retratar o intenso drama vivenciado pelo rei Georges VI da Inglaterra diante de sua gagueira, impossibilitando-o de exercer com excelência uma das funções mais básicas de um monarca: falar em nome e para o seu povo.
Albert Frederick Arthur George, príncipe de York, apresentava sintomas de disfemia, popularmente conhecida como gagueira, não conseguindo, assim, realizar pronunciamentos oficiais em público sem gerar desde uma contínua ansiedade nos ouvintes diante das longas pausas e constantes repetições até um profundo constrangimento pessoal. A situação se torna mais desesperadora para Albert no momento em que herda o trono inglês diante da renúncia de seu irmão mais velho, e se vê, de imediato, diante da necessidade de realizar um discurso para proclamar formalmente pelo rádio estado de guerra contra a Alemanha de Hitler.
Tanto a recém produção “O Discurso do Rei”, junto de outras que retratam o cotidiano de membros ilustres da realeza britânica, como “A Rainha”, ou “A Jovem Rainha Vitória”, trazem uma perspectiva da realeza que se contrapõe em muito à perfeição nobre traduzida e representada pelas aparições públicas em ornamentadas carruagens. Tais filmes apresentam uma realeza formada por pessoas humanas com limitações e problemas furtadores de sua paz interna, desmistificando a perfeição romântica apresentada pelo luxo dos palácios. Em “O Discurso do Rei”, uma atividade tão aparentemente simples para alguém crescido naquele universo se torna um fardo, revestindo-se de um profundo terror em face do quase fracasso do monarca e decepção do público.
Em síntese, trata-se de uma produção convidativa a um exercício reflexivo sobre a angústia de uma pessoa que carrega sobre si dois pesos inconciliáveis: a coroa e a gagueira; conjuntamente a isso, observar a figura de um monarca que não se faz grande por causa do seu manto ou cetro, mas sim pela perseverança na busca da superação de suas dificuldades.
Kléber Sienna
Graduando em História pela Universidade Federal de Uberlândia e integrante do Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura (Nehac).
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