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História da Arte e da Cultura

Nehac A coluna é publicada às sextas-feiras por integrantes do Núcleo de Estudos em História da Arte e da Cultura (Nehac)

8/04/2011 6:00

Vips: baseado em uma história (sur)real

Já se tornou célebre a reflexão de que se for para mentir ”que seja grande a mentira, pois, assim sendo, nem passará pela cabeça das pessoas ser possível arquitetar uma tão profunda falsificação da verdade”. E, infelizmente, ela faz todo o sentido. Afinal, quem imaginaria que alguém fosse “cara de pau” o suficiente para se fazer passar pelo herdeiro de uma companhia aérea, apenas para “curtir” o carnaval em uma das festas mais exclusivas de Recife? E o pior de tudo: quem acreditaria, em seu juízo normal, que tal plano pudesse de fato funcionar?

A história, que mais parece o roteiro de um filme, ganhou destaque nas páginas dos jornais do país no ano de 2001, quando Marcelo Nascimento da Rocha se fez passar por Henrique Constantino, um dos donos da Gol Linhas Aéreas. Durante quatro dias, Marcelo não apenas teve todas as suas despesas pagas (um prejuízo de cerca de R$ 100 mil, segundo reportagens), como também se tornou um dos solteiros mais cobiçados (não pelos seus lindos olhos), amigo de celebridades e patrocinador de “futuros eventos”. Não passou de forma alguma despercebido. Ao contrário, fez questão de dar entrevistas para programas de TV, em rede nacional.

A história, que já havia sido contada no livro “Vips: Histórias Reais de Um Mentiroso” (escrito por Mariana Caltabiano, em 2005), ganhou versão cinematográfica. Lançado no dia 25 de março, o filme “Vips”, do diretor Toniko Melo, propõe-se a contar a história deste “mentiroso” que consegue, com muita inteligência e cinismo, ludibriar as pessoas por onde quer que passe. Wagner Moura foi o ator escolhido para viver esse personagem que, tanto nas telas como fora delas, se mostra tão rico e múltiplo. A atuação lhe rendeu o prêmio de Melhor Ator no Festival do Rio 2010.

Mas engana-se quem acredita que encontrará a biografia de Marcelo da Rocha projetada nas telonas. Desde o início, a produção do longa deixa claro que há uma grande distância entre a ficção e a história real, a começar por nomes, datas e eventos. Há também uma narrativa tendenciosa que leva o público a torcer pelo bandido-héroi, afinal, o enredo conta a história de um menino que cresce com o “sonho de voar” e vive em busca de uma identidade que não a sua. Ou seja, acaba-se torcendo por ele, em vez de se revoltar com a possível valorização do crime.

Por isso mesmo, a história real é mais inacreditável do que a narrada nos cinemas. No entanto, é um filme que vale a pena conferir.

Talitta Tatiane Martins Freitas

Mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia. Bolsista de Apoio Técnico CNPq e Integrante do Nehac.

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