De Llosa à lousa: o professor e o nobel
“Sem ficção, o homem seria menos consciente da importância da liberdade para levar a vida, e o inferno que se torna quando é atropelado por um tirano, uma ideologia ou religião”, afirmou o ganhador do último Prêmio Nobel de Literatura, Jorge Mario Vargas Llosa.
Preciosas palavras quando, ao acompanhar os noticiários, vivemos em um período de “caça ao terrorismo”. Imiscuem-se as imagens de tiranos e supostos “defensores das nações”. Mal sabemos, perante a eterna defesa dos direitos e interesses norte-americanos, quem são os verdadeiros terroristas: fanáticos religiosos ou obstinados pelo poder, pela guerra, pela aquisição de petróleo ou pela venda de armas? Nesse ponto, entenderíamos ser sim a ficção, como disse Llosa, uma arma importante para nos tornarmos mais críticos e suportarmos, então, determinadas ideologias ou fanatismos.
Mario Llosa, quando recebeu a ligação sobre o Nobel, maior prêmio da literatura destinado a um autor, pensou ser aquilo uma brincadeira de mau gosto. Há tempos tinha perdido as esperanças, mesmo sendo apontado por muitos críticos como o maior escritor latino-americano. Seu primeiro romance, “A cidade e os Cachorros”, é um frenético saracoteio entre a sua própria vida e o romance, ou seja, caminha entre os limites da autobiografia e da ficção. Seu ideal marxista é evidente, o que mais tarde justificaria o seu apoio ao socialismo cubano, encabeçado por Fidel Castro.
Sua segunda obra, “A Casa Verde”, com influência de um dos maiores escritores dos Estados Unidos, William Faulkner, narra a vida conturbada de um bordel. “Conversa na Catedral”, publicada em 1969, seria a obra que selaria a maturidade literária do autor, abordando distintas fases da ditadura peruana. Num botequim, chamado “La Catedral”, observamos a conversa de um motorista e de um filho de um político. Críticas à tirania, à ditadura e à ideologia, que alimenta o anseio da minoria, são alicerçadas numa inusitada técnica narrativa que mescla o dialogo no presente com cenas do passado.
Por meio da educação, como professor da Universidade de Princeton, Llosa descobriu que o ensino de literatura não deve apenas enaltecer os autores e as obras já consagrados, mas ajudar que os alunos as desconstruam, recriem novas leituras e possibilidades. Quando se lê uma obra de perto, temos a possibilidade, segundo ele, de tecer críticas e pensamentos que desafiam as experiências postas no dia-a-dia. Assim, o prêmio destinado ao peruano consagrou mais de 30 trabalhos publicados e a sua capacidade de entusiasmar e inquietar os seus alunos e leitores. Inquietações que retiram nossa couraça protetora, que torna cômodo aceitar aquilo que vemos e ouvimos em nosso cotidiano, sejam os “absurdos” do belicismo internacional ou mesmo as incoerências sociais nítidas em nosso país.
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