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História da Arte e da Cultura

Nehac A coluna é publicada às sextas-feiras por integrantes do Núcleo de Estudos em História da Arte e da Cultura (Nehac)

3/06/2011 6:00

A (anti)estrela de Cannes: Lars Von Trier

Cannes sempre foi um festival que despertou paixões: um filme pode ganhar seu lugar na história ou cair no ostracismo eterno. E esse ano não foi diferente. Encerrado no último dia 22, o festival teve, dentre seus destaques, a polêmica envolvendo o cineasta dinamarquês Lars Von Trier. Ao se declarar nazi e simpatizante de Hitler, o diretor conseguiu causar um desconforto generalizado nos participantes do evento. Mais do que isso, Trier foi convidado a se retirar da premiação, sendo rebaixado ao posto de persona non grata em uma das festas mais importantes do cinema contemporâneo.

De fato, assuntos como o holocausto ainda pairam sob uma nuvem de estigmas. Ao fazer tal comentário – depois desmistificado e tratado como um mal entendido – temas caros à história mundial vieram novamente à tona, demonstrando que antigas feridas ainda permanecem mal cicatrizadas. Porém, outra questão salta aos olhos: até que ponto opções pessoais podem, ou devem, interferir na apreciação de uma obra de arte que não faz nenhuma ligação com opiniões particulares? Trier, uns dos mais geniais diretores de sua geração (vide filmes como Dogville, Dançando no Escuro e Os Idiotas) apresentou o belíssimo Melancholia, com atuações impecáveis de Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg. Infelizmente, pouco se falou sobre o filme.

É notório ainda como outros diretores, envolvidos em escândalos, não tiveram suas imagens abaladas por incidentes de proporções parecidas. Woody Allen (atualmente casado com sua enteada) e Roman Polanski (acusado de fazer sexo com uma adolescente durante a gravação de um de seus filmes) tiveram destinos diferentes quanto às suas escolhas, ou seja, suas imagens continuaram inabaladas.
Sem dúvidas, o regime nazista gera polêmicas – não podemos encarar o extermínio de judeus como algo normal. Mas seria esse o ponto de partida para o julgamento da validade e importância de um filme que trata de um assunto tão distante do comentário feito por seu diretor? Cannes, sempre elogiado pelo seu bom senso quanto à crítica parece ter, não pela primeira vez, cedido ao consenso generalizado, esquecendo de fazer o que sabe de melhor: eleger os destaques do cinema ao longo do tempo.

Renan Fernandes 
Mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia e integrante do Núcleo de Estudos em História da Arte e da Cultura (NEHAC)

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