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Nos últimos 20 anos – período que coincide com o aprofundamento do neoliberalismo tanto quanto política governamental quanto traduzido em valores e atitudes -, o discurso recorrente dava conta de que no Brasil a distinção entre o espaço público e o espaço privado se tornou, com cada vez maior intensidade, praticamente inexistente. Tal fenômeno apontou caminhos que trilharam em duas direções: Por um lado, o espaço público do país, em nível institucional, passou a ser ocupado quase que exclusivamente por interesses privados, ou seja, cada vez mais pessoas e grupos específicos faziam esforços para eleger representantes que cuidassem de seus próprios interesses, num claro exemplo de sobreposição do público pelo privado.
Por outro lado, ficou evidente que a mobilização das pessoas em torno da defesa da esfera pública sofreu um grande retrocesso, alimentado tanto pela desilusão geral com a política (quando os cidadãos não se sentem efetivamente representados) quanto pelo cerceamento de espaços destinados ao debate e troca de opiniões – nesse sentido, a ditadura militar brasileira desferiu um golpe profundo na “cultura democrática” brasileira: vale lembrar que, neste período, até mesmo a concepção espacial de campus universitários construídos ou reformados no país era pensada de forma a isolar os estudantes dos diferentes cursos para evitar troca de impressões.
Ultimamente, no entanto, um dos grandes símbolos da “privatização” da vida social – o computador – tem se tornado um poderoso instrumento de discussão e mobilização política. As redes sociais, em seus mais variados níveis, se tornaram espaços privilegiados de organização política, no sentido de possibilitar a discussão e o planejamento de ações concretas (passeatas, manifestações etc.) em torno de questões de interesse geral.
Sobre este aspecto, é interessante observar que o mesmo espaço destinado a publicar (tornar público) a vida e a “obra” de indivíduos particulares – e isso é uma outra questão que merece uma reflexão mais atenta – torna-se, também, espaço de debate e troca de ideias referentes ao coletivo, ao público; e mais: promove ações políticas concretas, como a marcha contra a corrupção ocorrida em Brasília paralelamente ao desfile do último dia 7 de setembro.
André Luis Bertelli Duarte
Mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia e integrante do Núcleo de Estudos em História da Arte e da Cultura (Nehac)
andrebduarte@gmail.com
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