Leonardo e a pureza na arte
A restauração do quadro de Leonardo da Vinci “A Virgem e a Criança com Sant’Ana”, iniciada em 2010 após uma série de discussões e reflexões em torno de seus desdobramentos, tem causado polêmica no meio artístico, sobretudo após a publicação de um artigo intitulado “Leonardo em Perigo”, no “Journal des Arts”, que chamava a atenção para o fato de que a restauração seria uma “profanação” da obra do grande mestre florentino.
Segundo reportagem do portal “Terra”, o projeto de restauração, que ficou por conta da italiana Cinzia Pasquali com auxílio técnico do Centro de Pesquisa e de Restauração dos Museus da França (C2RMF), após uma longa e detalhada pesquisa, decidiu pela volta do azul no quadro que estava mergulhado em tonalidades de amarelo, verde e marrom, sob o acúmulo de vernizes. Desta forma, o céu se apresenta, agora, com um azul quase límpido, e a paisagem adquire maior profundidade. O rosto de Sant’Ana foi levemente clareado, mas ainda permanece muito bronzeado, o que deverá acalmar as preocupações de alguns especialistas em Leonardo da Vinci, que temiam uma intervenção mais pesada.
Com a percepção da importância da questão, o diretor do Departamento de Pinturas do Museu do Louvre, Vincent Pomarède, responsável pelo projeto de restauração do quadro, afirmou que “Leonardo é um monstro sagrado. Nos cercamos de precauções e de conselhos para estarmos seguros de que os padrões e especificações técnicas fossem observados”.
O debate de fundo que se apresenta em torno da restauração da Sant’Ana de Da Vinci é a “pureza” da obra de arte, ou seja, as gerações posteriores possuem o direito de “profanar” a criação de mestres do passado a fim de preservá-las? Qual é o ponto limítrofe onde a restauração deixa de ser preservação do original e se torna re-criação? Houve um caso de um autor do século XVIII que publicou o “Dom Quixote de La Mancha” com o seu nome afirmando que era diferente do texto de Cervantes pelo simples fato de ser publicado em um tempo diferente.
No entanto, sobre a questão da restauração, em particular, e da “pureza” da obra de arte, de modo geral, cada geração atribui significados e impressões diferentes sobre a obra de arte, seja a partir de uma réplica, de uma reedição ou da restauração. Nesse sentido, estas releituras são extremamente importantes para manterem vivas e atuais as próprias obras, sentido último de sua preservação.
André Luis Bertelli Duarte
Mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia e Integrante do Núcleo de Estudos em História da Arte e da Cultura (Nehac) andrebduarte@gmail.com
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