O suplício de escrever
Escrever é um suplício para quem gosta de escrever e para quem leva a sério o ofício. Não acreditem em quem diz o contrário.
Paris pode ser uma festa. Escrever não é uma festa. Não é, sequer, um ato prazeroso.
Dá prazer ler um texto bem escrito. Fazê-lo não dá prazer, dá trabalho.
Escrever não é um dom que se tem, é uma habilidade que se adquire como qualquer outra.
Entrei em crise quando li o colombiano Gabriel García Márquez pela primeira vez, ali pelos idos de 70. A leitura de “Cem Anos de Solidão”, o romance de estreia dele, deixou-me confuso.
Parei de escrever durante quase seis meses depois de ter me deslumbrado com a descrição do momento em que o velho coronel Aureliano Buendia descobriu o gelo e com o relato da ascensão aos céus de Remédios, a bela, envolta num imaculado lençol branco.
Se era possível ler com naturalidade que borboletas amarelas sempre precediam às aparições do namorado de uma das filhas de Buendia, e se era possível a um escritor extrair tanta beleza do simples ato de alguém tocar uma pedra de gelo pela primeira vez, bem… Tudo que eu lera até então envelhecera de repente. Tudo. E aqueles contos, ou esboços de conto ou ainda fiapos de contos que eu guardava no fundo de um baú herdado da minha bisavó, estavam condenados a permanecer ali para sempre. Como de fato permanecem até hoje. Não existe uma receita única para que se escreva bem. Na verdade, não existe receita alguma. Pode-se dizer, como disse Samuel Johnson, que “o que é escrito sem esforço geralmente é lido sem prazer”. Pode-se dizer também, como disse Miguel de Unamuno, que “só escreve claro quem concebe claro”.
De García Márquez, por exemplo, não se dirá que é um escritor econômico de palavras. Nem se dirá o mesmo de Jorge Amado.
Graciliano Ramos, autor de “Vidas Secas”, esse, sim, economizou todas as palavras que pôde economizar. Torturava-se sem piedade quando se debruçava sobre uma folha de papel em branco.
Graciliano reescrevia suas histórias de maneira obsessiva. Cortava parágrafos inteiros, amputava tudo que fosse dispensável, barrava a entrada no texto de qualquer adjetivo, até que sua prosa parecesse tão esquálida, tão enxuta, tão árida quanto os personagens que lhe davam vida.
O modelo de texto que pede o jornalismo está mais para o despojamento de Graciliano do que para o excesso de espuma e de fogos de artifício de Jorge Amado. Enfim, coitados dos que se devotam a escrever e sonham em fazê-lo bem. Todos os pecados lhes deveriam ser perdoados.
Ricardo Noblat
Jornalista brasileiro
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Hugo Cesar Amaral disse:17/01/12 10:58
Excelente texto Ricardo! Belas e oportunas reflexões!
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joao roberto spini machado disse:18/01/12 11:36
Ivan,console-se! voce comanda o jornal na parte escrita e lucida,e deve ganhar bem por isto,mesmo que seja num padrão uberlandense,mais contido.Pense em mim,e outros,como o constante MARIO BORGES,QUE FAZEMOS TUDO ISTO DE GRAÇA E COM MUITO PRAZER,E,AS VEZES,SEM SABER SEQUER SE SEREMOS PUBLICADOS,CONTANDO APENAS,E JÁ É MUITO COM SUA PERCEPÇÃO DO QUE LE E SUA CAPTAÇÃO CEREBRAL!ABRAÇOS FIEIS.
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Zé Bonitinho disse:19/01/12 19:49
Olha só a “coruja” gavando o tôco! Você é muito parecido com o “Zé Bonitinho” da Praça é Nossa, sabia? Pelo o menos no que diz…é idêntico!
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Bel. Sebastião Alves de Araújo - Uberlândia-MG disse:20/01/12 19:07
Parabéns Ricardo Noblat, faço minhas as suas palavras, realmente escrever é uma arte, quantas vezes esboço escrever algo, mas ao sentir faltar-me inspiração, prefiro desistir, afinal, escrever por escrever é como se deitar sem sono, comer sem fome, etc. Abraços.
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