A carga de ódio
Tenho um grupo de leitores usuais e semanais aos que eu chamo “carga da brigada ligeira” – lembrança de um filme muito antigo e heroico, daqueles em que o mocinho sempre sai com vida – mas os seus maiores amigos e companheiros morrem na batalha. Na minha ideia e visão personalista, o herói não é o sobrevivente, mas sim aqueles amigos que lhe deram sobrevivência e vitória, muitos morrendo anônimos e desconhecidos. Isto, a meu ver e viver, acontece em quase todo dia triste – meu ou de qualquer um. Para mim, viver não é uma arte – sobreviver é que é arte. Viver é apenas biologia, coração bate, cabeça pensa, estomago dói, intestino funciona… tudo automatizado… como animais que somos. A diferença dos animais nos acontece por um fator especial, que só Deus poderia dar: a consciência humana. Sem consciência, o homem seria apenas um animal bípede melhorado – e nós todos seríamos iguais. A consciência é na espécie humana o fiel da balança, pendendo para o bem – ou para o mal. Consciência significa conhecer, avaliar, entender para sentir e decidir. Todas as religiões e filosofias estão assentadas no conhecer, verbo definitivo e absoluto da consciência. Desastres terríveis aconteceram na vida humana – individual ou coletiva – quando ela foi guiada exclusivamente pelas emoções, simpáticas ou antipáticas. Com frequência, o ser humano decide por suas impressões pessoais, frequentemente distorcidas – e daí vêm os sentimentos das nossas relações. Sem um conhecimento maior ou mais profundo, o ser humano estabelece suas simpatias… e antipatias. Nem sei quantas vezes passaram pelo meu consultório sentimentos sem base ou conhecimento… apenas o sentimento como razão de salvação ou repulsão. E quantas vezes o erro descoberto traz mudanças da análise apressada, tendenciosa e ignorante. Curiosamente, talvez por aquele demônio interior que nos é injetado, o paciente fica matriculado naquele pelotão a que chamo “a carga do ódio”. Vejam o que conheço, sinto e lamento: a humanidade toda é muito mais preparada para esta carga do que para a carga do amor. Uma estupidez, vão me dizer. Uma verdade, vão me dizer os que tiveram a graça da dúvida, da esperança… até da coisa rara que se chama amor. Como seria bom, pensa este escriba otimista, se todos duvidassem do seu primeiro e apressado julgamento. Se reconhecerem erro – o que não é tão rápido – poderão encontrar caminho feliz, pelo menos para seu sentimento que talvez seja caridade… e talvez amor. Olhem, amigos, eu não sou nem vou morrer com esta enorme felicidade. Mas faço força, ELE sabe e me ajuda. Escutem comigo uma obra prima: Tião Carreiro e Pardinho estão cantando… “o que foi feito daquele beijo que te dei… daquele amor cheio de ilusão, que foi a razão do nosso querer…” É fácil concluir: jamais será feliz quem só espera e sente ódios. Esta carga é pesada demais.
João Gilberto Rodrigues da Cunha
Médico
Uberaba (MG)
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Xadem disse:03/02/12 7:59
Se me permite, acrescento à sua frase Doutor João Gilberto: jamais será feliz quem só espera e sente ódios. Esta carga é pesada demais e os hipócritas viverão uma falsa felicidade baseada na desgraça e no sofrimento daqueles que julgam inferiores e desprovidos de conhecimento.
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Mário Borges disse:03/02/12 14:50
Montado em seu cavalo, o fazendeiro dirigia-se à cidade como fazia frequentemente, a fim de cuidar de seus negócios.
Nunca prestara atenção àquela casa humilde, quase escondida num desvio, à margem da estrada. Naquele dia experimentou insistente curiosidade.
Quem morava ali?
Cedendo ao impulso, aproximou-se. Contornou a residência e, sem desmontar, olhou por uma janela aberta e viu uma garotinha de aproximadamente dez anos, ajoelhada, de mãos postas, olhos lacrimejantes…
- Que faz você aí, minha filha?
- Estou orando a Deus, pedindo socorro… Meu pai morreu, minha mãe está doente, meus quatro irmãos têm fome…
- Que bobagem! – disse o fazendeiro. – O Céu não ajuda ninguém! Está muito distante… Temos que nos virar sozinhos!
Embora irreverente e um tanto rude, era um homem de bom coração. Compadeceu-se, tirou do bolso boa soma em dinheiro e o entregou à menina.
- Aí está. Vá comprar comida para os irmãos e remédio para a mamãe! E esqueça a oração.
Isto feito, retornou à estrada. Antes de completar duzentos metros, decidiu verificar se sua orientação estava sendo observada.
Para sua surpresa, a pequena devota continuava de joelhos.
- Ora essa, menina! Por que não vai fazer o que recomendei? Não lhe expliquei que não adianta pedir?
E a menina, feliz, respondeu:
- Já não estou mais pedindo, estou apenas agradecendo. Pedi a Deus e ele enviou o senhor!
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Aninha B. Martins disse:04/02/12 7:31
Meu caro amigo Mário Borges, achei linda a sua mensagem…
Quando a oração sincera brota do coração proporciona doces emoções. É como suave brisa da manhã que perpassa nossa alma inebriando-a de perfume. Parabéns! Um bom dia para todos. Abçs.
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Comentários (3)