O silêncio fala
ão é fácil escapar do barulho porque o mundo anda cada vez mais cheio de ruídos. O ronco dos motores e as buzinas dos veículos no trânsito, os sons das lojas e propagandas volantes, as rádios internas nas lojas e supermercados, as gritarias de ofertas nas feiras livres, as conversas no celular em locais públicos, o volume alto da TV em casa, as rádios evangélicas que as empregadas escutam o dia inteiro e por aí afora.
Tão acostumados estamos com o barulho que nem mesmo percebemos grosserias e indelicadezas como ligar o rádio do carro quando tem uma pessoa ao lado, falar alto no ambiente de trabalho ou social, gritar o nome de alguém no meio de uma multidão, buzinar sem necessidade. Não atentar para o fato de que conversas entre pessoas deveriam ficar restrita a elas e não alcançar outros que nada têm a ver com elas e mais, não querem ouvi-las. Confundir alegria com gritaria, espontaneidade com assanhamento. Enfim contribuir para aumentar a carga terrível de decibéis que ouvimos diariamente.
Outra falta de sensibilidade comum é a abordagem a alguém quando dá para perceber nitidamente que ela está num processo de reflexão ou concentração.
Porque tem momentos e não são poucos, em público ou mais reservadamente, em que a pessoa está focada, concentrada conversando consigo mesma. Um momento importante de introspecção para tomar uma decisão ou rever a que tomou, planejar o momento seguinte, refletir sobre o que ouviu ou passou, o que pode provocar ou mudar. São instantes preciosos em que se pode ouvir com clareza a voz do eu interior. Os recados tão importantes, que todo ser humano em diferentes períodos da vida necessita passar para si próprio.
E quando se é interrompido, o processo mental altera e nem sempre é possível se conectar novamente no mesmo ponto. Não é a toa que meditação exige silêncio, que oração não combina com tumulto.
Vivemos em ambientes impactados por uma quantidade e diversidade tão intensa de sons que poucas vezes nos damos conta que o silêncio fala. Da mensagem forte e profunda que passa em muitos momentos. Do tanto que é revelador por não dizer absolutamente nada. Do seu recado mudo.
Da resposta que se dá quando não se responde. Da resposta que é ficar calado. Para pessoas sensíveis o silêncio é algo valioso, prato raro para ser saboreado com intensidade e apuro. Preciosidade para ser cultivada e reverenciada.
Uma meia hora de silêncio e concentração diária pode ser uma receita mais eficaz do que muita consulta e remédio. O silêncio para mim é tão notável, que, muitas vezes, ligo o som do rádio só para ter o prazer de desligá-lo.
Penso que, ao nos abrir para o silêncio, estimulamos o pensamento para viajar mais longe. E também para avaliar melhor o que temos perto. Próximo, junto. Com certeza o silêncio é o ambiente mais motivador para alguém falar consigo mesmo. Dedicar um tempo focado na avaliação do que faz, como faz, por que faz.
Sábias as palavras do ditado que é um alerta: “ou se deve estar calado ou dizer coisas que valham mais do que o silêncio”.