Celso Machado

Um jeito de ver gente

Papo Geraes A coluna é publicada aos sábados no CORREIO de Uberlândia

15 de junho de 2013 6:52

O silêncio fala

jornalista

ão é fácil escapar do barulho porque o mundo anda cada vez mais cheio de ruídos. O ronco dos motores e as buzinas dos veículos no trânsito, os sons das lojas e propagandas volantes, as rádios internas nas lojas e supermercados, as gritarias de ofertas nas feiras livres, as conversas no celular em locais públicos, o volume alto da TV em casa, as rádios evangélicas que as empregadas escutam o dia inteiro e por aí afora.

Tão acostumados estamos com o barulho que nem mesmo percebemos grosserias e indelicadezas como ligar o rádio do carro quando tem uma pessoa ao lado, falar alto no ambiente de trabalho ou social, gritar o nome de alguém no meio de uma multidão, buzinar sem necessidade. Não atentar para o fato de que conversas entre pessoas deveriam ficar restrita a elas e não alcançar outros que nada têm a ver com elas e mais, não querem ouvi-las. Confundir alegria com gritaria, espontaneidade com assanhamento. Enfim contribuir para aumentar a carga terrível de decibéis que ouvimos diariamente.

Outra falta de sensibilidade comum é a abordagem a alguém quando dá para perceber nitidamente que ela está num processo de reflexão ou concentração.

Porque tem momentos e não são poucos, em público ou mais reservadamente, em que a pessoa está focada, concentrada conversando consigo mesma. Um momento importante de introspecção para tomar uma decisão ou rever a que tomou, planejar o momento seguinte, refletir sobre o que ouviu ou passou, o que pode provocar ou mudar. São instantes preciosos em que se pode ouvir com clareza a voz do eu interior. Os recados tão importantes, que todo ser humano em diferentes períodos da vida necessita passar para si próprio.

E quando se é interrompido, o processo mental altera e nem sempre é possível se conectar novamente no mesmo ponto. Não é a toa que meditação exige silêncio, que oração não combina com tumulto.

Vivemos em ambientes impactados por uma quantidade e diversidade tão intensa de sons que poucas vezes nos damos conta que o silêncio fala. Da mensagem forte e profunda que passa em muitos momentos. Do tanto que é revelador por não dizer absolutamente nada. Do seu recado mudo.

Da resposta que se dá quando não se responde. Da resposta que é ficar calado. Para pessoas sensíveis o silêncio é algo valioso, prato raro para ser saboreado com intensidade e apuro. Preciosidade para ser cultivada e reverenciada.

Uma meia hora de silêncio e concentração diária pode ser uma receita mais eficaz do que muita consulta e remédio. O silêncio para mim é tão notável, que, muitas vezes, ligo o som do rádio só para ter o prazer de desligá-lo.

Penso que, ao nos abrir para o silêncio, estimulamos o pensamento para viajar mais longe. E também para avaliar melhor o que temos perto. Próximo, junto. Com certeza o silêncio é o ambiente mais motivador para alguém falar consigo mesmo. Dedicar um tempo focado na avaliação do que faz, como faz, por que faz.

Sábias as palavras do ditado que é um alerta: “ou se deve estar calado ou dizer coisas que valham mais do que o silêncio”.

8 de junho de 2013 7:00

“ENVEIEIE”

jornalista

Considero que a velhice é uma etapa muito bonita da vida que vem acompanhada de mais sabedoria, mais paciência, mais aceitação, mais entendimento, mais conciliação. Em que o uso do tempo é saboreado com mais respeito e valor, portanto menos utilizado em disputas, discussões, afirmações.

Recentemente por ocasião de um contato que tive com o ex-ministro Camilo Penna ouvi dele uma frase que traduz magistralmente essa etapa da vida. Disse-me ele que a velhice é a fase mais bonita da vida, pena que dura pouco. Evidente que nem todo mundo tem esse privilégio, porque não se trata apenas de uma questão de idade, mas de aprendizado, de vivência, de maturidade.

Eu, por exemplo, não penso que estou envelhecendo, mas “enveiando”. O que viria a ser “enveiar”? Penso que é a mudança de hábitos, comportamentos e manias que talvez não seja correto afirmar que sejam frutos da maturidade. O correto pode ser “stress sacal”, ou seja a redução da paciência e a manifestação de implicâncias que vão surgindo com o passar dos anos.

Assim uma pessoa que gostava tanto e ainda gosta tanto de música, ultimamente tem dado uma preferência enorme ao silêncio. Trocando os acordes musicais dos “talentosos” sertanejos pelo som singelo e simples dos pássaros, das águas, do vento.

Que sempre gostou de futebol e ainda gosta hoje prefere muito mais uma descontraída “pelada” do que assistir uma “sensacional” partida do seu time de coração. Tudo bem que torcendo para o Vasco a culpa não é só minha. Mas esse pouco entusiasmo não é só em relação aos jogos do meu time, mas se estende também a seleção brasileira. Que considera que se para o povo brasileiro a seleção é a pátria em chuteiras, para a geração atual dos jogadores a moda é “salto alto”.

O frequentador relativamente assíduo de bares e restaurantes tem saído bem menos e não aguenta a pressão do serviço querendo faturar mais. Garçom trazendo outro chope antes de terminar o que você está bebendo; servindo vinho como quem serve água; servindo água como quem quer enfiar goela abaixo. A marcação na mesa passando a sensação de que você está sendo vigiado, não servido.

O apaixonado por televisão agora não aguenta os Faustão, Galvão e Datenas da vida. Apresentadores que não suportam quando o convidado têm brilho próprio. Que tem acesso a mais de 100 canais, mas que cada vez assiste menos TV.

Que fica aborrecido com tanta falta de educação: no trânsito, nas ruas, em todos os lugares. Com autoridade que não tem humildade. Com quem se serve e não serve. Com tanta falta de escrúpulos. Que não se conforma com tanta evidência e tão pouca punição. Que sofre ao receber a notícia, cada vez mais frequente, de doenças em amigos queridos.

Que não entende separação em casais que viveram mais de 40 anos de união muito mais cheia de altos do que de baixos. Que fica cada vez mais estarrecido com a violência e a falta de respeito ao ser humano. Com desentendimento por “grana”. Que vê tanta gente desperdiçando vida quando vê na vida tantos prazeres e motivações. Que tem vontade de envelhecer como tantos, mas que reconhece que, por enquanto, ainda está na fase do “enveiar”…

1 de junho de 2013 6:49

Paciente que dá receita…

jornalista

Todo ser humano é único e, portanto, com procedimentos, comportamentos e atitudes próprios. Ainda que numa sociedade sejam estabelecidos padrões, nem sempre é o que acontece. O imponderável é mais frequente do que imaginamos. Como de quem está com um problema de saúde e procura o médico. É de se esperar que, ao procurar um especialista, a pessoa esteja em busca dos conhecimentos de alguém que reconhece qualificado para tal. Isto quando tem a opção da escolha e não está condicionado a alguma obrigatoriedade, tipo serviço público, certos convênios etc.

Ocorre que determinado tipo de paciente procura o médico não para receber um diagnóstico ou recomendação; procura em busca de uma resposta que deseja ou que gostaria de ter. E quando isto não acontece discorda da avaliação de quem procurou exatamente para isso. Não se conforma com o laudo do especialista porque na sua teimosia considera que sabe mais do que ele. E não é apenas no ambiente das clínicas que encontramos tipos com essa conduta, nas demais atividades essa postura se repete.

Gente que prefere mudar de orientador do que atender a prescrição que lhe recomenda aquilo que não gosta de fazer. Que quer mudar o resultado mas não abre mão de manter os mesmos comportamentos e atitudes. Que insiste em fazer sempre do mesmo jeito e fica torcendo para o resultado ser diferente das outras vezes. Gente que não entende por que as coisas acontecem sempre com elas; se consideram perseguidas e incompreendidas. Planta semente na seca e rega no período das chuvas. E fica lamentando o resultado da safra.

Uma das dificuldades do ser humano responsável por transtornos, desgastes e frustrações é sua incapacidade de aceitar a realidade como ela é, não como gostaria que fosse. Rever conceitos, posturas, atitudes, avaliar com rigor e isenção seu comportamento e ações. Estar disposto a mudar a si próprio muito mais do que provocar mudanças nos outros. Ser menos crítico em relação aos que conseguem sucesso e prestígio e mais observador no esforço e dedicação que eles fazem para alcançarem seus objetivos.

Quem quer ter um corpo saudável precisa cuidar não só da boca, mas também da língua, para não ser mais um paciente que procura o médico com a receita pronta. Que discorda do laudo e, do alto de sua arrogância, clinica a si mesmo. E, como o resultado geralmente não é o desejado, ainda sai falando mal do médico.