Celso Machado

Um jeito de ver gente

Papo Geraes A coluna é publicada aos sábados no CORREIO de Uberlândia

23/07/2011 6:00

Pressa mata

jornalista

Há pessoas que têm um ritmo de vida extremamente apressado, mas que não sabem por que têm tanta pressa. Vivem constantemente afobadas e agitadas, mesmo nos momentos que deveriam ser dedicados à reflexão e à curtição. São como gulosos no rodízio, que vão botando tudo que lhe oferecem no prato sem atentar que podem escolher à vontade o que quiserem, no momento que desejarem. Que podem apreciar em vez de simplesmente comer.

Parece que tem gente que tem pressa para ter mais tempo de ter pressa. Gente que atravessa sinal amarelo, que levanta para ser o primeiro a se servir, que não dá tempo de ouvir o outro numa conversa e dá sua resposta antes de escutar toda argumentação. Que fura fila, que ultrapassa pela direita, que esbarra no caminho, que não olha para trás.

Creio que a vida tem um ritmo cuja intensidade tem se acelerado por uma série de circunstâncias. O ser humano hoje faz muito mais atividades, mas bota muito mais nisso do que seus congêneres de tempos atrás.
Até porque, num passado não tão longe, a maioria das atividades eram mais simples, menos complexas, mais objetivas. É só dar uma parada e relembrar quantas marcas de cerveja, quantos modelos de carro, quantos cursos universitários, quantas emissoras de TV e por aí afora existiam há 20 anos… Quantos sinaleiros e veículos tinham nas cidades.

Antigamente, as pessoas sofriam porque tinham poucas opções, hoje sofrem mais pelo excesso de opções que têm. Para tudo. E, por isso, vivem ansiosas para decidir, para escolher, para utilizar, para se servir. Lógico que isso impactou no ritmo de vida de todos. Nada mais natural.

A questão é que pressa em todos os momentos tira da vida muito do viver. Porque, em muitas situações, a pressa não deveria ser o importante, mas sim o apreciar, o degustar, o saborear.

Tem gente que tem pressa até para passear. Que, quando chega a um lugar, já quer ir para outro. Que corre tanto, que nem nota o que está no caminho. Que passa pelas belezas sem olhar para elas. Tem tanta pressa para viver, que nem vive, passa pela vida apressadamente. Que não percebe os filhos crescerem, os cabelos clarearem e rarearem, os frutos amadurecerem, os amigos partirem, a influência e o poder acabarem. O outono chegar. Vivem com tanta pressa, que não têm tempo para viver.

Deveriam, enquanto é tempo, prestar atenção naquilo que a pressa, quase sempre, não permite enxergar, que a vida, pelo menos por aqui, é só uma. E passar com pressa por ela é perda de tempo. Que o diga o sr. Tim, motorista de táxi de Araguari ainda forte e firme na ativa aos 90 anos: ando devagar porque pressa mata.

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