Eleitor ficha limpa
Num passado mais longínquo, coisa de 40, 50 anos atrás o comportamento das pessoas não era pautado somente pela obediência as leis. Era, sobretudo pelo respeito ao outro. Pela consciência de que toda pessoa que vive em sociedade tem compromissos e padrões de postura que devem respeitar limites e atender boas práticas. Por isso tanto ou mais do que o respeito aos dispositivos legais, respeitava-se o direito dos outros.
A consciência de quem assumia um cargo numa entidade, instituição, clube ou agremiação não era de que a partir daquele momento passava a ter poder. Era de que assumia a responsabilidade de servir. De que tinha que prestar contas de seus atos e de que deveria estar atento sempre na defesa dos interesses daquela sociedade, não dos seus próprios.
Quem se dispunha a exercer um mandato o fazia na autêntica e honesta intenção de servir e retribuir a comunidade da qual era parte. De reconhecer, agradecer e manifestar de forma contributiva as oportunidades que havia recebido. Era uma contra partida do cidadão consciente em tornar melhor o mundo a sua volta.
Em contra partida todos, sem distinção de cargo ou função também tinham o entendimento de que um bem público não era como parece ser o que predomina hoje, algo que não tem dono. De que o que é do governo e não tem nada a ver conosco. Que não somos co-autores, co-responsáveis, co-gestores do patrimônio público. O conceito de comunidade, de coletividade, mais respeitoso e fraterno.
Haviam disputas acirradas nas quais as pessoas expunham suas opiniões e pensamentos. Em que se buscava adeptos e aliados, nada muito diferente de hoje.
Não fosse pelo fato de as posições serem mais autênticas e claras. Conhecia-se o que determinada pessoa defendia e sua opinião não mudava de acordo com o ambiente ou circunstância para ganhar votos. As alianças eram por adesão, mais do que por interesse.
Quem era de um partido ou facção defendia suas ideias e se sabia perfeitamente como seria seu comportamento, caso eleito. Mas o que era mais importante nessa época é que as disputas, principalmente nas eleições eram só na época das eleições. E que terminada a disputa o interesse coletivo prevalecia em relação aos partidos.
Fosse para o bem de todos, o melhor para a comunidade, adversários se juntavam no entendimento de que muito mais do que a autoria, o importante era o benefício conquistado.
Esse distanciamento entre cidadão e político, em que o eleitor nem se lembre em quem votou para determinados cargos na última eleição, certamente não faz bem e produz essa quantidade enorme de escândalos.
Para melhorar o quadro não são apenas os políticos que necessitam mudar. E a aprovação da ficha limpa para eles é um bom avanço nesse sentido.
Bom seria que junto com isso renasça a dignidade do eleitor em ser co-avalista dos atos de quem elege. Em não trocar seu voto por favores e interesses. Em se tornar também um eleitor ficha limpa.
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