Celso Machado

Um jeito de ver gente

Papo Geraes A coluna é publicada aos sábados no CORREIO de Uberlândia

18 de maio de 2013 6:22

Chicote curto

jornalista

Se nem sempre é fácil entender determinados comportamentos, isto não impede de observá-los. Ainda mais quando estamos um pouquinho mais distantes, o que amplia o ângulo de visão e, por consequência, o de análise.

Um deles é o de pessoas que discursam teorias e opiniões como se fossem professores em sala de aula lecionando para alunos pouco preparados. Conversam como se estivessem no palco e o interlocutor fosse alguém da plateia. Que só tem o direito de ficar calado e prestar muita atenção. E, de preferência, manifestar sempre admiração e aprovação.

Outro comportamento que me incomoda e que procuro ficar atento para não repetir é o de bater em quem está perto. Só porque está por perto. Quem é mais próximo e mais presente no convívio. Porque nos aceita e suporta. Nos compreende e entende. Que por gostar de verdade da gente tem mais tolerância e paciência conosco. Tem disposição verdadeira de nos aceitar como somos. Não reage no mesmo tom e procura sempre conciliar e solucionar todo tipo de situação.

Quantas vezes não vemos isso nos mais diferentes ambientes. No líder, quando se relaciona com os auxiliares mais diretos; no maître com o garçom, no piloto com a aeromoça, no médico com a enfermeira, no motorista com o cobrador, no pedreiro com o servente, no mecânico com o aprendiz. No patrão com o empregado. No cliente com o fornecedor. Na autoridade com o cidadão. E por aí afora.

Não consigo encontrar uma palavra mais adequada para avaliar esse tipo de comportamento do que uma indelicadeza que uma pessoa faz com a outra justamente pelo fato de a outra ter um perfil mais dócil, mais compreensivo, mais meigo. Para usar uma expressão bastante popular, “bater em quem está com as mãos amarradas”.

Se, no passado, o chicote curto era a ferramenta usada para punir e advertir quem era mais próximo, hoje o instrumento comumente utilizado para isso são as palavras. E o resultado muitas vezes é bem mais dolorido e duradouro. Porque o chicote provocava sofrimentos físicos; as palavras, sentimentais e afetivos. Palavras têm um poder tão forte que chegam a machucar até quem está batendo.

Por isso devemos ter muito cuidado com o que falamos. Com o impacto e desdobramentos que elas podem causar. Porque quem fala pouco tempo depois nem lembra mais do que disse. Mas, se a palavra foi usada como um chicote curto, quem a ouviu vai sentir por muito tempo. E com um agravante, pode ir aumentando de proporções a medida que o tempo passa.

Melhor não ter que usar chicote, muito menos de palavras. Até para não sofrer com o sofrimento que podemos causar. Existem armas muito melhores para se usar. O carinho e a atenção, por exemplo, têm um poder muito maior para conseguir resultados. Com uma vantagem a mais: não dói para quem utiliza e muito menos para quem recebe.

11 de maio de 2013 7:00

Três torres

jornalista

É provável que um dos temas sobre o qual mais escrevi neste espaço seja o da mãe. Sinal óbvio de algumas coisas: do respeito, carinho e admiração que tenho por elas, da admiração e do valor da minha esposa como mãe dedicada, da certeza que tenho de que minha filha será uma superdedicada e particularmente o valor e importância da minha mãe na minha vida.

Toda mãe é sempre muito especial. Porque ela representa na plenitude a extraordinária força, sabedoria e o amor de que toda mulher é capaz. É tão excepcional esse poder que a mulher tem que, muitas, mesmo sem ter gerado, são capazes de cultivar dentro de si o amor de mãe. Amor que compartilham de diferentes formas, mas sempre com generosidade e afeto. Seja pela adoção, por obras e projetos ou outra forma de cuidar sem esperar nem pedir nada em troca.

Há pouco tempo ouvi de um amigo um comentário que para mim traduz com exatidão essa figura notável. Dizia ele que o pai daria um rim para um filho se ele precisasse. A mãe, daria os dois. Sem desmerecer o amor de pai, até porque o do meu e de tantos outros que conheço com quem convivo e convivi também são marcantes, amor de mãe é incomparável. Até no reino animal isso é notório. É ela quem defende, cuida e orienta. Que encaminha, ensina e abre o mundo para seus filhotes.

Minha mãe era uma dessas mulheres extraordinárias que exerceu esse papel com uma dignidade marcante. Não tinha formação escolar, cursou apenas o primário, mas era dotada de uma sabedoria que só as pessoas inspiradas no bem conseguem alcançar. Quantas vezes, nos momentos de dúvida, nos mais diferentes aspectos da minha vida recorri aos seus conselhos e me alimentei na fonte de suas verdades…

Pouco sabia de matemática, mas me orientava financeiramente como nenhum gerente de banco foi capaz. Não sabia nada de psicologia, mas me dava conselhos valiosos nos meus momentos de angústia. Não conhecia de medicina, mas tinha remédio para tudo. Nunca foi executiva, mas me apontava caminhos e comportamentos profissionais que me permitiram chegar onde nunca imaginei que pudesse estar. Para não falar de culinária, campo no qual era magistral.

Gostava de estar a par de tudo que eu gostava, só para ter mais assuntos para conversar comigo. Tinha interesse real em me ouvir, o tempo que fosse, sobre qualquer coisa. Foi minha mãe, companheira e amiga. Todos os dias, infalivelmente, lhe telefonava e aos finais de semana ela fazia parte dos meus programas. Bastava um toque e lá estava no último degrau da escada de sua casa me aguardando chegar. Não esperava no alpendre para não perder tempo de conviver conosco.

Dela recebi muito mais do que amor, educação e formação. Recebi exemplo e valores que tento preservar. Para mim, no dia 11 de setembro de 2001, além das duas torres gêmeas que caíram, teve uma terceira que também caiu com a morte da minha mãe. Uma torre que, para mim, era de energia e de equilíbrio. A torre que era fonte de amor maternal…

4 de maio de 2013 6:07

Sobre guarda-chuvas, kombis e ideias arcaicas…

jornalista

Ao longo dos tempos pelas facilidades da tecnologia, associadas a mudança de hábitos e desenvolvimento de novos recursos, a maioria dos equipamentos sofreram alterações relevantes. Muito do que era tido como inviável hoje foi incorporado.

Nos meus momentos de humor ferino que estão cada vez mais escassos costumo dizer que só conheço três coisas em que não percebo mudança alguma: guarda-chuva, kombi e as ideias de algumas pessoas radicais.

Acho até que vale a pena uma pausa para refletir sobre isso. Os guarda-chuvas pouco mudaram desde que os chineses os inventaram há mais de mil anos. A Kombi é um modelo que surgiu durante a segunda guerra mundial e continua sobrevivendo até os dias atuais. O layout mudou pouco, deixou de ter duas cores como era nos anos 60 e uma ou outra alteração, mas nada que a transformasse substancialmente. Quanto aos pensamentos de determinadas pessoas continuam os de sempre. Suas ideias e opiniões são as mesmas: previsíveis, permanentes e não evoluem. Não acompanham nem aceitam que as transformações da sociedade estabeleçam novos padrões de comportamento. Novas regras de convívio, novos hábitos e costumes. Como costumam dizer, nasceram assim e vão morrer assim. Os outros que os aceitem como são e ponto final.

O que aborrece não é que tenham e mantenham suas ideias, digamos, menos flexíveis. Que não queiram se abrir para o novo; que prefiram ser inflexíveis e rígidas; que se considerem esclarecidas o suficiente para não buscarem novos conhecimentos e informações. Que não estejam dispostas a olhar por ângulos diferentes. Afinal como o mundo é de todos, é deles também. O que incomoda é a insistência com que as apresentam sem se preocupar com a receptividade da plateia.

Falar de futebol durante a novela para o público feminino talvez não seja democracia, mas provocação. Ao fazer isso a pessoa não quer ser ouvida, o que deseja na verdade é incomodar. O difícil é conseguir passar isso para quem não acompanha os sinais dos tempos.

Hoje em dia a audiência é mais relevante do que o veículo. Se antes as opções de mídia eram poucas, hoje são incontáveis. E, entre tantas surgiram duas ferramentas que alteram profundamente a passividade antes existente entre audiência e veículo. O controle remoto e a internet.

O primeiro permitiu a mudança de canal com mais agilidade e rapidez; a segunda democratizou o acesso a informação e a opinião. A plateia também pode produzir conteúdo. Opinar e se posicionar. Questionar e influenciar. Para avaliar como estas duas ferramentas mudaram nossas vidas, pense se hoje conseguiríamos viver sem elas?

Evidente que a internet tem um papel muito mais importante, mas que o controle remoto também tem muita utilidade ninguém duvida.
Imagine se pudéssemos mudar de sintonia quando alguém nos vem com ideias mais antigas do que guarda-chuvas e kombis…