Chicote curto
Se nem sempre é fácil entender determinados comportamentos, isto não impede de observá-los. Ainda mais quando estamos um pouquinho mais distantes, o que amplia o ângulo de visão e, por consequência, o de análise.
Um deles é o de pessoas que discursam teorias e opiniões como se fossem professores em sala de aula lecionando para alunos pouco preparados. Conversam como se estivessem no palco e o interlocutor fosse alguém da plateia. Que só tem o direito de ficar calado e prestar muita atenção. E, de preferência, manifestar sempre admiração e aprovação.
Outro comportamento que me incomoda e que procuro ficar atento para não repetir é o de bater em quem está perto. Só porque está por perto. Quem é mais próximo e mais presente no convívio. Porque nos aceita e suporta. Nos compreende e entende. Que por gostar de verdade da gente tem mais tolerância e paciência conosco. Tem disposição verdadeira de nos aceitar como somos. Não reage no mesmo tom e procura sempre conciliar e solucionar todo tipo de situação.
Quantas vezes não vemos isso nos mais diferentes ambientes. No líder, quando se relaciona com os auxiliares mais diretos; no maître com o garçom, no piloto com a aeromoça, no médico com a enfermeira, no motorista com o cobrador, no pedreiro com o servente, no mecânico com o aprendiz. No patrão com o empregado. No cliente com o fornecedor. Na autoridade com o cidadão. E por aí afora.
Não consigo encontrar uma palavra mais adequada para avaliar esse tipo de comportamento do que uma indelicadeza que uma pessoa faz com a outra justamente pelo fato de a outra ter um perfil mais dócil, mais compreensivo, mais meigo. Para usar uma expressão bastante popular, “bater em quem está com as mãos amarradas”.
Se, no passado, o chicote curto era a ferramenta usada para punir e advertir quem era mais próximo, hoje o instrumento comumente utilizado para isso são as palavras. E o resultado muitas vezes é bem mais dolorido e duradouro. Porque o chicote provocava sofrimentos físicos; as palavras, sentimentais e afetivos. Palavras têm um poder tão forte que chegam a machucar até quem está batendo.
Por isso devemos ter muito cuidado com o que falamos. Com o impacto e desdobramentos que elas podem causar. Porque quem fala pouco tempo depois nem lembra mais do que disse. Mas, se a palavra foi usada como um chicote curto, quem a ouviu vai sentir por muito tempo. E com um agravante, pode ir aumentando de proporções a medida que o tempo passa.
Melhor não ter que usar chicote, muito menos de palavras. Até para não sofrer com o sofrimento que podemos causar. Existem armas muito melhores para se usar. O carinho e a atenção, por exemplo, têm um poder muito maior para conseguir resultados. Com uma vantagem a mais: não dói para quem utiliza e muito menos para quem recebe.