Celso Machado

Um jeito de ver gente

Papo Geraes A coluna é publicada aos sábados no CORREIO de Uberlândia

19 de abril de 2014 6:18

Reflexões sobre um feriadão

jornalista

Convenhamos parar na quinta-feira a partir do almoço e só voltar ao batente na terça-feira pela manhã é um bom tempo. Dá para fazer muita coisa, até mesmo nada.
Muita gente gosta de viajar. E quem pode, geralmente viaja. Viaja nas férias e principalmente em feriado emendado. Para estes um feriadão como deste final de semana é um prato cheio.
Uns aproveitam para ir para longe. Conhecer ou rever lugares com que sonham há tempos. Muitos para perto, desfrutar dos seus refúgios junto à natureza. Praticar atividades bem diferentes daquelas dos seus cotidianos.
Tenho um amigo de uma cultura e saber consideráveis que tem uma opinião um pouco diferente. Segundo ele viajar estressa! Principalmente quando todo mundo viaja. Viaja para os mesmos lugares que todo mundo viaja.
O aeroporto lota, a rodoviária enche, as estradas recebem um volume de veículos absurdamente superior às suas capacidades. Os locais turísticos nunca estão preparados para a população flutuante que nessas ocasiões se multiplica por 10.
Interessante que as pessoas que detestam fila no dia a dia, vão em busca de filas para seus momentos de lazer. Penso que ele não deixa de ter suas razões. Talvez por isso que tem outros que preferem ficar em casa. Curtindo o aconchego do lar, revendo suas atividades domésticas, convivendo em família. Colocando suas coisas em dia. Ou não fazendo nada, quando muito assistindo filmes na TV. No máximo indo ao clube ou ao shopping.
Mas tem aqueles que não param nunca. Ficam levantando informações, coletando documentos, preenchendo suas declarações do imposto de renda. São aquelas que gostam tanto de trabalhar que não perdem a oportunidade de aproveitar os feriados para fazer isso. Em casa.
Tem também quem considera que descansar num feriado prolongado cansa. Porque interfere na rotina, prejudica hábitos, nos leva a desfrutar daquilo que a gente gosta mas não pode. Que é tudo aquilo de bom. Por isso todo feriadão sempre mexe com a gente. Mexe, principalmente quando a gente não faz nada.
É um paradoxo. O ser humano que reclama tanto da falta de tempo, as vezes tem dificuldade em saber o que de melhor fazer quando tem tempo. Bom mesmo é gostar de viver e desfrutar de tudo que a vida nos oferece sem valorizar demais os feriados e principalmente sem reclamar muito das segundas.
Com o discernimento de reconhecer que todo tempo é sempre valioso. Em feriado emendado ou não.

12 de abril de 2014 6:44

Receita caseira

jornalista

Como estamos vivendo um período de grandes turbulências, especialmente em nosso país, onde a sucessão de escândalos é frequente, vamos perdendo muito da nossa capacidade crítica.

Mortes provocadas por motivos fúteis, tragédias causadas por negligência, desvios de dinheiro do povo sem pudor algum, gestões fraudulentas e por aí afora se repetem todos os dias causando um outro mal que muitas vezes não atentamos para ele: a passividade com que aceitamos todos esses desvios de conduta.

Esse distanciamento entre o cidadão e o poder público é um baita problema. Que não é fácil de ser resolvido, mas que exige atenção e atitudes porque sua continuidade só interessa para quem não quer o bem, o certo, o justo, o correto para todos.

Falar mal dos políticos, passar matérias indignadas etc. tem seus efeitos, mas pouco produzem em termos práticos. Toda pessoa racional também não pode imaginar nem querer meios radicais. O que fazer então?

Longe de ser um expert no assunto fico imaginando algumas alternativas que penso que podem ser mais eficazes. Uma das quais boto a maior fé, é cada um de nós agir corretamente. Não pactuar com nada errado. Adotar sempre comportamento, atitudes e procedimentos éticos. Mais do que isso, isolar do convívio daqueles que agem de forma diferente.

Não dar importância, nem espaço para quem está em evidência só porque está num patamar onde chegou por meios não adequados. Eleitor que troca seu voto é pior do que o político que o aceita porque a corrupção e o abuso vão proliferar em maior dimensão e profundidade em terrenos propícios, no convívio e na aceitação daqueles que as comungam. Nunca onde são rejeitadas e varridas.

Mostrar sua indignação pelo que está errado por meio do exemplo. Compartilhar e estimular no seu convívio a propagação dessa postura. Não há nada que tenha mais poder de influência do que a coerência entre o discurso e a prática. Quem comunica por atitude, comunica muito melhor…

Ainda que seja um pouco controverso penso que é sempre tempo de rever procedimentos e atitudes.

Que quem num período, seja lá por que motivo for, tenha adotado comportamentos que hoje reconhece, errados e equivocados, pode e deve modificar sua conduta. Reconhecer seus erros, assumir suas consequências e mudar são armas poderosas que o ser humano tem sempre a sua disposição.

Isto vale também para toda pessoa em qualquer atividade. Até para os políticos.

Porque quem justifica seus erros usando como referência os erros alheios, não quer modificar sua conduta. Apenas uma justificativa para continuar agindo errado. Fazer o bem é fazer o melhor. Melhor para todos. Em todos os momentos. A vida toda.

Penso que essa alternativa é uma receita simples, básica, caseira. Mas com um poder de influência extraordinário.

5 de abril de 2014 6:05

Lembranças de uma pescaria antiga

jornalista

Ainda nos meus tempos de solteirice, período em que minhas pescarias eram mais frequentes e em locais diferentes, convivi com uma pessoa que tinha uma história de vida fantástica.

Ele era tio de um dos colegas que faziam parte da minha comitiva de pesca. Seu nome, se não estiver enganado, era Guilherme, mas isso não importa. O que interessa é sua curiosa trajetória.

Funcionário público estadual trabalhando em Anápolis, teve a ousadia de participar ostensivamente da campanha de um candidato a governador. Evidente que imaginava os benefícios que teria com a vitória do dito cujo. Só que o resultado foi outro. E as consequências também.

Discriminado pelos colegas que ambicionavam seu cargo, teve ainda que amargar transferência para uma cidade bem menor e muito mais distante.

Assim foi o nosso amigo Guilherme de mudança para a pequena Aruanã, às margens do Araguaia. A esposa, com quem não estava se entendendo, resolveu ficar. Ele foi sozinho, sem nada. Descasado e desprestigiado.

Mas a vida tem suas surpresas. E o que era para ser um castigo acabou se transformando numa premiação. Lá arrumou de cara uma morena que lhe despertou os prazeres da vida e como não tinha quase nada para fazer, passava quase todo tempo pescando, outro de seus maiores prazeres.

Um belo dia teve que ir a Goiânia para alguns ajustes profissionais. Lá chegando foi abordado por um vendedor de bilhetes. Não resistiu a sua prosa e comprou um cujo primeiro prêmio era uma Camionete D-10 – naquela época um dos maiores sonhos de consumo em termos de veículo.

E não é que ele ganhou a bendita?

Feliz da vida, foi para um boteco bem movimentado da capital goiana para comemorar.

Lá encontrou um companheiro da época de Anápolis, que, ao contrário dele, estava na pior. Tinha sido um empresário bem sucedido, de muitas posses, mas que em função de alguns infortúnios, perdera tudo.

Ao saber da situação do velho amigo, o que fez o nosso Guilherme?

Pegou o bilhete premiado e lhe deu. Ante o espanto que provocou simplesmente comentou: “Olha eu nunca tive uma camionete, por isso não vou sentir falta dela. Mas você, que já teve e perdeu, deve sentir muito.
Fique com ela. Pra você ela terá muito mais valor e utilidade do que para mim.

Dito e feito voltou para continuar sua vidinha boa em Aruanã. Voltou como foi, feliz e sem camionete.
Guilherme (se é que esse seu nome) morreu tranquilo, feliz e rodeado de amigos. Já seu antigo companheiro, a quem deu a camionete, ninguém lembra o que aconteceu com ele.

Volta e meia essa história me vem à memória. Por tantos aprendizados que ela passa.

De como muitas vezes somos ajudados por quem quer nos prejudicar. De como muitas vezes perdemos por ganhar. Mas principalmente que ajudar quem nos ajudou faz um bem danado. Não só para quem a gente ajuda, mas a nós mesmos.