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17 de maio de 2013 8:29

Casos da nossa terra

Era uma vez Alzira, professora alfabetizadora num distante distrito do Norte de Minas. Ganhava pelo nobre trabalho, enfileirando crianças no caminho das letras, menos de um salário mínimo. Mentira não! Tem muita educadora neste país que ganha menos do mínimo. Um dia resolveu mudar a sorte: foi para a capital e lá conseguiu empregar-se como doméstica, melhor remuneração e oportunidade para melhorar o padrão de vida. E ainda: carteira assinada, vale-transporte, FGTS, aviso prévio e tudo mais que uma mestra contratada não tem. A sua amiga professora substituta sofreu despacho sumário quando não precisaram mais de seus serviços.
A Alzira, no vaivém da vida, encantou-se com galã de boa lábia e este encanto produziu uma barriga e a chegada de uma garotinha, alegria maior da doméstica, ex-professora, vinda lá do norte de Minas. Dilema cruel: necessário conseguir uma pessoa que cuidasse do bebê, enquanto trabalhava na casa dos patrões. Uma vizinha ofereceu-se para o serviço, a troco de R$ 200 por mês. Tornou-se, então, a babá da criança, empregada da doméstica, “socorrista” da mãe que não conseguiu creche nem perto, nem longe de casa. E os direitos da “socorrista”, que cuida do pai doente e para quem o dinheiro a mais é essencial? Como conseguirá trabalhar a Alzira, se não tiver uma pessoa para ajudá-la? Não me cabe responder. Só posso dizer que o país é mestre e pródigo em legislar e incompetente em criar estruturas que possam oferecer a todos a oportunidade de trabalhar, sem medo de ser feliz.

E o André Rieu, artista internacionalmente conhecido e aplaudido, olhado de banda por alguns puristas a quem não convencem as firulas que apronta com a música erudita, deu um show em Belo Horizonte, no Mineirinho. Multidão para ver o artista, que carrega além da música, luzes, cores, fantasias, lindas bailarinas e muita alegria. E como costuma acontecer com europeus, na hora exata o show começou. E como costuma acontecer neste nosso país, os atrasados foram chegando. Espalhafatosos, barulhentos, passavam em frente ao palco rindo e conversando, ignorando a presença do artista e o início do espetáculo. Ao fim da primeira música, Andre Rieu silenciou a orquestra, em meio ao vaivém dos mal-educados e das vaias que espocavam. No intervalo, a mesma coisa aconteceu. Os atrasados demoraram a voltar a seus lugares, no meio de barulho e confusão. O artista esperou mais uma vez, pacientemente e quando o silêncio se fez disse que tinha trazido um presente aos mineiros. O público gritava: “O violino, o violino”. Ele respondeu: “Não, um relógio”. Que vergonha, meu Deus!

Este fato lembrou-me um espetáculo com a grande Marisa Monte a que fui assistir em Uberlândia. Quem chegou na hora certa saiu no prejuízo. Os atrasados impediram o show de obedecer ao horário previsto para o início. Um bando de celulares levantados nas filas da frente formava uma verdadeira cortina, atrapalhando a visão dos que se sentavam atrás. Gana moderna de registrar tudo que se apresenta sem se ater à beleza do espetáculo, atrapalhando os que gostam de apenas ver, ouvir e apreciar. Antes do término resolvi ir para casa e tomar um bom vinho, vendo o DVD da artista. As plateias brasileiras muitas vezes precisam se munir de duas coisas para assistir a bons espetáculos: relógio e educação.

Marília Alves Cunha
Educadora
Uberlândia (MG)
mariliacunha16@hotmail.com

16 de maio de 2013 8:31

Zoo-Ilógico

Bom-dia, humanos! Como são saudáveis as manhãs de outono do cerrado central do Brasil. Melhor seriam as da minha África, com o frescor das savanas e o repique dos atabaques de uma tribo, mas deixe prá lá. Em compensação, aqui, no Parque Sabiá, da minha jaula, ouço o Olodum capitaneado pelo Carlinhos Brow. Prá- prá-prapá-prapá-prapá.

Meus caros! Diante da proposta de acabar com os zoológicos, como parte interessada, quero fazer algumas considerações. O título do artigo bem poderia ser “Reflexões de um leão” e a adjetivação poderia ser à escolha, por exemplo: leão frustrado, castrado, desdentado, aniquilado ou o pior deles: domado. Quer condição mais triste do que a de domado? Quer referência? Pense num humano alienado. Como se vê são tantas as mazelas dedicadas aos seres de carne e osso que permitem uma diversificação extensa de títulos, mas, de qualquer maneira, ao optar por essa linha, teríamos um título muito comum, piegas até.

Então preferi esse, “Zoo-ilógico”, porque, na minha ideia de leão, espelha bem as contradições da natureza humana. E não precisa ir muito longe para comprovar ambiguidades do homem para com a natureza, essa relação de amor e ódio, de sugar e dar. A propósito, o homem, para sentir-se forte, recorre a ela para dar nome a si, por exemplo: os Rochas viram na pedra a solidez; os Pereiras viram nas frondosas árvores o conforto; os Raposos e os Coelhos viram nesses animais a astúcia e com o tempo diversificadas uniões aconteceram de maneira branda e salutar, a ponto de brasões de diversificadas naturezas se unirem, como é o caso do Lobo com o Coelho e, no caso da minha espécie, o Leão com o Carneiro.

O homem, já dizia o filósofo, é fruto da contradição. A culpa, não resta a menor dúvida, foi de Adão e Eva. A serpente foi apenas um boi de piranha. Aliás, se hoje preso aqui estou, a causa remonta a esse evento. Imagine o que perdemos: o paraíso! A rigor, por interferência direta do homem, a cada dia, perdemos o que restou da gênese.

A vida é a assim mesmo: um processo de evolução, de educação, de extinção. A natureza humana, que se diz mais evoluída, que nos classifica de irracionais — e essa é a razão pela qual intitulo essa reflexão de zoo-ilógico —, teve e terá que dar muita burrada para se aperfeiçoar.

E quando digo burrada, não digo por preconceito não, mas por convicção. Adianto-lhe que o politicamente correto para mim é falsidade ideológica envernizada. Só um burro, ou equivalente a burro, se dispõe mansamente a trotar milhas e milhas com dois cargueiros no lombo a troco de nada. É da natureza dele e com certeza não é da minha.

A mim, pelo contrário, intitularam de o rei da selva, o rei dos animais. Inclusive um tal de Shakespeare produziu um peça teatral baseada na minha natureza e que, por sinal, faz sucesso no mundo inteiro e a razão do sucesso deve ser a semelhança de nossas naturezas manifestas nos instintos de defesa, de predador, de domínio e, sobretudo, nessa sede de sangue que nos faz dilacerar carnes e vísceras para tonificar nossos músculos. Quando se trata de domínio, só admitimos em nosso território machos passivos, e com a natureza humana também não é muito diferente. Cada país tem o rei que merece.

Contudo, ao findar esse espaço, devo confessar que sou um leão acomodado. Bem, mas esse é assunto para outro dia, se o editor desse respeitável diário permitir dar continuidade a esse zoo-ilógico.

J. B. Guimarães
Escritor
Uberlândia (MG)

15 de maio de 2013 8:32

Uma visão da modernidade

A modernidade exibida nas mídias representa um segmento importante (não o mais) do mundo atual que, na verdade, não é moderno nem antigo, senão o somatório de todos os tempos, cada um deles com seus usos, costumes e crenças, tudo ainda em vigor.

Os focos de resistência ao modernismo acelerado vão, aos poucos, se rendendo aos apelos bem engendrados das mídias, autênticas representantes desta modernidade. Quem ainda não se associou a nenhuma rede social, nem mesmo no computador nem no telefone celular, é exemplo desta resistência, o que não deve ser objeto de preocupação. A felicidade, nossa busca essencial, não passa necessariamente por aí. Ela tem caminhos próprios e atemporais.

Enquanto a tela cintilante da TV, os tablets, os jornais e as revistas propagam a modernidade para que ela avance e conquiste cada vez mais adeptos, o restante do mundo (a maior parte dele) permanece primitivo e fiel à determinada cultura. Basta imaginar um cenário campestre onde o gado caipira pasta sonolento no capinzal verde e úmido, enquanto a família, detentora (ou não) dos direitos daquele sítio, tece o antigamente na casinhola ao lado. Este primitivismo de pureza e despojamento também subsiste na periferia das cidades, onde crianças ainda empinam pipas e se agrupam nas brincadeiras de época. Enquanto isso, a modernidade avança, ameaçando as pipas e as casinholas.

O mundo moderno é em parte real, em parte editado, ou seja, é manipulado tecnologicamente para se apresentar a nós como um fluxo de acontecimentos vazados em imagens e textos noticiosos, tudo se sucedendo em alta velocidade. O tempo presente é movimento sucessivo e mutante de curtíssima duração, feito, sim, para informar, mas também para captar consumidores de banalidades. Em resumo, o binômio imagem-notícia é preparado para causar espanto passageiro e não para ser objeto de reflexão.

O dicionário explica que reflexão é juízo, é pensamento sério. É também meditação; reflexão é o ato em virtude do qual o pensamento se volta sobre si mesmo para examinar seus elementos e combinações. Reflexão parece, pois, estar em desacordo com o mundo moderno e veloz. É como se pairasse uma ordem superior: “Não pense, apenas aprecie e passe à cena seguinte, pois o tempo urge!”. É evidente que a reflexão não morreu, só está meio fora de moda.

Ao pio de um passarinho, desviei o olhar de toda essa modernidade e pus atenção sobre minha estante de livros e afins. Foi o quanto bastou para que me lembrasse de um exercício de liberdade que sempre esteve ao meu alcance. E está ao seu alcance também. O que vai entrar em nossa mente, e frutificar, e o que deixamos passar de largo é decisão inteiramente nossa.

Somos autônomos para escolher e para rejeitar informações dentre aquelas que nos são oferecidas minuto a minuto. Podemos, portanto, dosar o fluxo de modernidade sobre nós, deixando espaço para rever velhos livros, retomar aquela ideia que andava meio esquecida ou, simplesmente, apreciar o que se passa no entorno, entendendo por isso a família, os amigos, os cantinhos da casa e a paisagem vislumbrada da janela.

Somos depositários de todos os tempos, do antigo ao moderno. O grande barato é cada um conseguir o seu jeito próprio de misturar bem tudo isso.

José Carlos da Silva
Escritor
Uberlândia (MG)