Casos da nossa terra
Era uma vez Alzira, professora alfabetizadora num distante distrito do Norte de Minas. Ganhava pelo nobre trabalho, enfileirando crianças no caminho das letras, menos de um salário mínimo. Mentira não! Tem muita educadora neste país que ganha menos do mínimo. Um dia resolveu mudar a sorte: foi para a capital e lá conseguiu empregar-se como doméstica, melhor remuneração e oportunidade para melhorar o padrão de vida. E ainda: carteira assinada, vale-transporte, FGTS, aviso prévio e tudo mais que uma mestra contratada não tem. A sua amiga professora substituta sofreu despacho sumário quando não precisaram mais de seus serviços.
A Alzira, no vaivém da vida, encantou-se com galã de boa lábia e este encanto produziu uma barriga e a chegada de uma garotinha, alegria maior da doméstica, ex-professora, vinda lá do norte de Minas. Dilema cruel: necessário conseguir uma pessoa que cuidasse do bebê, enquanto trabalhava na casa dos patrões. Uma vizinha ofereceu-se para o serviço, a troco de R$ 200 por mês. Tornou-se, então, a babá da criança, empregada da doméstica, “socorrista” da mãe que não conseguiu creche nem perto, nem longe de casa. E os direitos da “socorrista”, que cuida do pai doente e para quem o dinheiro a mais é essencial? Como conseguirá trabalhar a Alzira, se não tiver uma pessoa para ajudá-la? Não me cabe responder. Só posso dizer que o país é mestre e pródigo em legislar e incompetente em criar estruturas que possam oferecer a todos a oportunidade de trabalhar, sem medo de ser feliz.
E o André Rieu, artista internacionalmente conhecido e aplaudido, olhado de banda por alguns puristas a quem não convencem as firulas que apronta com a música erudita, deu um show em Belo Horizonte, no Mineirinho. Multidão para ver o artista, que carrega além da música, luzes, cores, fantasias, lindas bailarinas e muita alegria. E como costuma acontecer com europeus, na hora exata o show começou. E como costuma acontecer neste nosso país, os atrasados foram chegando. Espalhafatosos, barulhentos, passavam em frente ao palco rindo e conversando, ignorando a presença do artista e o início do espetáculo. Ao fim da primeira música, Andre Rieu silenciou a orquestra, em meio ao vaivém dos mal-educados e das vaias que espocavam. No intervalo, a mesma coisa aconteceu. Os atrasados demoraram a voltar a seus lugares, no meio de barulho e confusão. O artista esperou mais uma vez, pacientemente e quando o silêncio se fez disse que tinha trazido um presente aos mineiros. O público gritava: “O violino, o violino”. Ele respondeu: “Não, um relógio”. Que vergonha, meu Deus!
Este fato lembrou-me um espetáculo com a grande Marisa Monte a que fui assistir em Uberlândia. Quem chegou na hora certa saiu no prejuízo. Os atrasados impediram o show de obedecer ao horário previsto para o início. Um bando de celulares levantados nas filas da frente formava uma verdadeira cortina, atrapalhando a visão dos que se sentavam atrás. Gana moderna de registrar tudo que se apresenta sem se ater à beleza do espetáculo, atrapalhando os que gostam de apenas ver, ouvir e apreciar. Antes do término resolvi ir para casa e tomar um bom vinho, vendo o DVD da artista. As plateias brasileiras muitas vezes precisam se munir de duas coisas para assistir a bons espetáculos: relógio e educação.
Marília Alves Cunha
Educadora
Uberlândia (MG)
mariliacunha16@hotmail.com