Ponto de Vista

Envie seu ponto de vista

Ponto de Vista Escreva você também para o Ponto de Vista. O artigo deve ter no máximo 3300 caracteres com espaço. A coluna é publicada de segunda-feira a domingo.

19 de maio de 2013 7:00

Secretaria do Bom Ambiente

Hoje, o projeto mais importante da Secretaria do Meio Ambiente de Uberlândia tornar-se a Secretaria do Bom Ambiente. Seria um paradoxo querer contribuir com o bom ambiente da cidade ignorando o ambiente interno. Este é o grande desafio não apenas do setor público: a iniciativa privada tem investido para que existam organizações nas quais as pessoas não só produzam, mas também se sintam felizes, e são poucas as que conseguem.

O que aconteceu já nos primeiros dias foi um diagnóstico organizacional, no qual ficou claro que havia um desejo de mudança. Todos querem oportunidade de expressar os seus sonhos, mas concluiu-se que só será possível se for uma ação coletiva, em que o não e o sim tenham o mesmo valor; em que as oportunidades terão de ser construídas e o foco deve ser no cidadão, sabendo que a maioria das pessoas vai à secretaria para solicitar coisas simples, que a forma de recebê-las é tão importante como o solicitado. Gentileza e atenção são fundamentais.

Medidas que já estão sendo adotadas desde o dia 2 de janeiro: a pirâmide organizacional está sendo invertida. Neste novo modelo, o secretário não é diferente dos demais, a sua sala pode ser usada por todos. Quando a secretaria mudar para o Parque Siquierolli, previsto para acontecer ainda neste ano, o secretário não terá sala separada, ocupará uma ilha com os funcionários. Será igual a empresas privadas modernas, as quais concluíram que divisórias e centralização segregam. Trabalho em equipe é fundamental.

Não fazemos reuniões de portas fechadas. A secretária deixou de servir água e café, ela é um membro da equipe, participa de todas as reuniões. Se o secretário quiser água ou café, ele terá que se servir.
O que é preconizado na secretaria é que a liderança deve ser feita por quem está à frente dos projetos; cargo não mais garante poder, o processo é o novo líder. As decisões estão passando do plano informativo para o consultivo e decisório, e as equipes passarão a se autogerenciar. Esta é a proposta, quando estiver consolidado o projeto.

A partir de junho, as quatro diretorias terão suas metas, indicadores de resultados. O princípio é: o que não pode ser medido não existe. A responsabilidade não é apenas da equipe, mas de todos os funcionários da secretaria, que terão acesso à apresentação mensal. Os resultados serão fixados nos quadros de avisos e não serão apresentados apenas pelos números, mas também pelas cores. A meta que estiver na cor azul foi alcançada; vermelha, se tiver abaixo; e verde, acima. Os próprios visitantes poderão acompanhar e avaliar os resultados.

Além da mudança física do novo modelo de gestão, esta é a jornada de sustentabilidade na qual as principais empresas de Uberlândia e região são convidadas a apresentar as suas práticas na área ambiental. Já participaram a Algar e a Souza Cruz. O próximo será o Tribanco. Serão, ao todo, 48 apresentações.
O lobo-guará passou a ser marca de eventos da secretaria.

O planejamento estratégico da secretaria tem horizonte para 2050, com revisão marcada para acontecer em todo mês de dezembro. As oportunidades são muitas, mas o principal fator estratégico de sucesso é ter um bom ambiente interno. E não será difícil para uma cidade educadora.

Hélio Mendes
Secretário de Meio Ambiente de Uberlândia

17 de maio de 2013 8:29

Casos da nossa terra

Era uma vez Alzira, professora alfabetizadora num distante distrito do Norte de Minas. Ganhava pelo nobre trabalho, enfileirando crianças no caminho das letras, menos de um salário mínimo. Mentira não! Tem muita educadora neste país que ganha menos do mínimo. Um dia resolveu mudar a sorte: foi para a capital e lá conseguiu empregar-se como doméstica, melhor remuneração e oportunidade para melhorar o padrão de vida. E ainda: carteira assinada, vale-transporte, FGTS, aviso prévio e tudo mais que uma mestra contratada não tem. A sua amiga professora substituta sofreu despacho sumário quando não precisaram mais de seus serviços.
A Alzira, no vaivém da vida, encantou-se com galã de boa lábia e este encanto produziu uma barriga e a chegada de uma garotinha, alegria maior da doméstica, ex-professora, vinda lá do norte de Minas. Dilema cruel: necessário conseguir uma pessoa que cuidasse do bebê, enquanto trabalhava na casa dos patrões. Uma vizinha ofereceu-se para o serviço, a troco de R$ 200 por mês. Tornou-se, então, a babá da criança, empregada da doméstica, “socorrista” da mãe que não conseguiu creche nem perto, nem longe de casa. E os direitos da “socorrista”, que cuida do pai doente e para quem o dinheiro a mais é essencial? Como conseguirá trabalhar a Alzira, se não tiver uma pessoa para ajudá-la? Não me cabe responder. Só posso dizer que o país é mestre e pródigo em legislar e incompetente em criar estruturas que possam oferecer a todos a oportunidade de trabalhar, sem medo de ser feliz.

E o André Rieu, artista internacionalmente conhecido e aplaudido, olhado de banda por alguns puristas a quem não convencem as firulas que apronta com a música erudita, deu um show em Belo Horizonte, no Mineirinho. Multidão para ver o artista, que carrega além da música, luzes, cores, fantasias, lindas bailarinas e muita alegria. E como costuma acontecer com europeus, na hora exata o show começou. E como costuma acontecer neste nosso país, os atrasados foram chegando. Espalhafatosos, barulhentos, passavam em frente ao palco rindo e conversando, ignorando a presença do artista e o início do espetáculo. Ao fim da primeira música, Andre Rieu silenciou a orquestra, em meio ao vaivém dos mal-educados e das vaias que espocavam. No intervalo, a mesma coisa aconteceu. Os atrasados demoraram a voltar a seus lugares, no meio de barulho e confusão. O artista esperou mais uma vez, pacientemente e quando o silêncio se fez disse que tinha trazido um presente aos mineiros. O público gritava: “O violino, o violino”. Ele respondeu: “Não, um relógio”. Que vergonha, meu Deus!

Este fato lembrou-me um espetáculo com a grande Marisa Monte a que fui assistir em Uberlândia. Quem chegou na hora certa saiu no prejuízo. Os atrasados impediram o show de obedecer ao horário previsto para o início. Um bando de celulares levantados nas filas da frente formava uma verdadeira cortina, atrapalhando a visão dos que se sentavam atrás. Gana moderna de registrar tudo que se apresenta sem se ater à beleza do espetáculo, atrapalhando os que gostam de apenas ver, ouvir e apreciar. Antes do término resolvi ir para casa e tomar um bom vinho, vendo o DVD da artista. As plateias brasileiras muitas vezes precisam se munir de duas coisas para assistir a bons espetáculos: relógio e educação.

Marília Alves Cunha
Educadora
Uberlândia (MG)
mariliacunha16@hotmail.com

16 de maio de 2013 8:31

Zoo-Ilógico

Bom-dia, humanos! Como são saudáveis as manhãs de outono do cerrado central do Brasil. Melhor seriam as da minha África, com o frescor das savanas e o repique dos atabaques de uma tribo, mas deixe prá lá. Em compensação, aqui, no Parque Sabiá, da minha jaula, ouço o Olodum capitaneado pelo Carlinhos Brow. Prá- prá-prapá-prapá-prapá.

Meus caros! Diante da proposta de acabar com os zoológicos, como parte interessada, quero fazer algumas considerações. O título do artigo bem poderia ser “Reflexões de um leão” e a adjetivação poderia ser à escolha, por exemplo: leão frustrado, castrado, desdentado, aniquilado ou o pior deles: domado. Quer condição mais triste do que a de domado? Quer referência? Pense num humano alienado. Como se vê são tantas as mazelas dedicadas aos seres de carne e osso que permitem uma diversificação extensa de títulos, mas, de qualquer maneira, ao optar por essa linha, teríamos um título muito comum, piegas até.

Então preferi esse, “Zoo-ilógico”, porque, na minha ideia de leão, espelha bem as contradições da natureza humana. E não precisa ir muito longe para comprovar ambiguidades do homem para com a natureza, essa relação de amor e ódio, de sugar e dar. A propósito, o homem, para sentir-se forte, recorre a ela para dar nome a si, por exemplo: os Rochas viram na pedra a solidez; os Pereiras viram nas frondosas árvores o conforto; os Raposos e os Coelhos viram nesses animais a astúcia e com o tempo diversificadas uniões aconteceram de maneira branda e salutar, a ponto de brasões de diversificadas naturezas se unirem, como é o caso do Lobo com o Coelho e, no caso da minha espécie, o Leão com o Carneiro.

O homem, já dizia o filósofo, é fruto da contradição. A culpa, não resta a menor dúvida, foi de Adão e Eva. A serpente foi apenas um boi de piranha. Aliás, se hoje preso aqui estou, a causa remonta a esse evento. Imagine o que perdemos: o paraíso! A rigor, por interferência direta do homem, a cada dia, perdemos o que restou da gênese.

A vida é a assim mesmo: um processo de evolução, de educação, de extinção. A natureza humana, que se diz mais evoluída, que nos classifica de irracionais — e essa é a razão pela qual intitulo essa reflexão de zoo-ilógico —, teve e terá que dar muita burrada para se aperfeiçoar.

E quando digo burrada, não digo por preconceito não, mas por convicção. Adianto-lhe que o politicamente correto para mim é falsidade ideológica envernizada. Só um burro, ou equivalente a burro, se dispõe mansamente a trotar milhas e milhas com dois cargueiros no lombo a troco de nada. É da natureza dele e com certeza não é da minha.

A mim, pelo contrário, intitularam de o rei da selva, o rei dos animais. Inclusive um tal de Shakespeare produziu um peça teatral baseada na minha natureza e que, por sinal, faz sucesso no mundo inteiro e a razão do sucesso deve ser a semelhança de nossas naturezas manifestas nos instintos de defesa, de predador, de domínio e, sobretudo, nessa sede de sangue que nos faz dilacerar carnes e vísceras para tonificar nossos músculos. Quando se trata de domínio, só admitimos em nosso território machos passivos, e com a natureza humana também não é muito diferente. Cada país tem o rei que merece.

Contudo, ao findar esse espaço, devo confessar que sou um leão acomodado. Bem, mas esse é assunto para outro dia, se o editor desse respeitável diário permitir dar continuidade a esse zoo-ilógico.

J. B. Guimarães
Escritor
Uberlândia (MG)