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15/02/2011 6:00

O preço da lucidez

A vida de cada um de nós é um mistério indevassável. A Psicanálise, assim como a arte em geral, quando busca encontrar a conformação dos motivos profundos que animam o coração humano, só faz adensar o enigma que existe em cada um de nós. Enigma que exige contemplação, percepção afinada, enfim, ato de consciência que expõe nossos próprios desconcertos, o desconcerto do outro, o desconcerto do mundo.

Como o fruto que o tempo amadurece, nosso destino se cumpre a pouco e pouco. Até que chegue o ocaso. O epílogo do homem, quase sempre, se dá numa instituição de internamento: o asilo ou o hospital, ou ambos, aptos (ou nem tanto) a recolher nossos “restos”, mais ou menos deteriorados pelo tempo, pelos desastres da vida.

Resta ao recluso, entre vigilâncias, corredores longos e pesados silêncios, a tarefa de reavaliar seus afetos, sua visão de mundo, os vínculos que sobreviveram, a saudade doída dos que partiram. O impacto recai, direto, pesado e fundo, sobre o coração. E pode, ou não, torná-lo melhor. É chegada a hora de passar a limpo, de rememorar, os sonhos e os pesadelos, da vigília ou do sono.

Eles iluminam o nosso inconsciente, tornando mais evidentes os delírios, a tirania, as traições, as mudanças de poder, o uso extremado desse poder, enfim, a realidade e seus absurdos. As questões, permanentemente em aberto, voltam à cena: a vida, a morte, a alma, os mistérios que se intercalam entre o céu e a terra.

Assim, postos em reflexão, somos convidados a tomar o chá da humildade, pois, com todas as suas dores e vicissitudes, damo-nos conta de que gostamos da vida, sobretudo quando a saúde se encontra ameaçada. Saúde ameaçada no Brasil, aliada à incapacidade financeira, é assustador: haja filas, formulários, comprovantes, delongas…

O certo é que nunca (ou quase nunca) paramos para pensar no lugar que a morte ocupa em nossa vida, para colocar em cena a aventura da descoberta do sentido da vida. O ofício de viver torna-se a cada dia mais complicado, revelando um retrato sem retoques do homem moderno, atravessado por desejos, que nunca se completarão de todo, um homem forçado a criar laços sociais mais por conveniência do que por afetos genuínos.

E os espaços disponíveis, incluindo igrejas e templos, antes propícios à reflexão e à contemplação interior, estão se especializando na trilha da histeria e da estridência. Haja dispersão, barulho, superficialidade… Apesar disso, precisamos aumentar nossa capacidade de autoexame, até o nível de um autoconhecimento impiedoso, até que toquemos os segredos para os quais não existem palavras, sabendo que cada qual tem o direito de andar pelos próprios atalhos em busca da verdade.

Assim, será possível reconhecer: engendrados a partir de um mundo onde reinam, absolutas, as convenções civilizatórias, somos seres humanos perversos. E profundamente perigosos. Sobretudo, quando incitamos o espírito de independência, de liberdade, sem fugir ao preço que se paga pela própria lucidez.

É isso, leitor amigo. A vida dói. E por causa dessa dor, como tão sabiamente escreveu Rubem Alves, eu acendo meus altares com poesia e música para colocar beleza no abismo escuro.

Shyrley Pimenta
Psicóloga clínica
ivsant@terra.com.br

Comentários (2)

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  1. Leandro Xadem disse:16/02/11 17:52

    Shirley, eu sinceramente, queria ser um grande alienado. A lucidez tem me matado, dia a dia…

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  2. Cecília Lomônaco de Paula disse:06/03/13 11:16

    Que beleza de texto, que profundidade, que lucidez!

    Para mim, o abismo profundo perde sua feiura e se torna menos absurdo quando percebemos que não somos apenas perversidade. Há algo em nós que reconhece a beleza, que se reconhece. Podemos escolher a esperança…

    Responder