Modelos corporativos
Estudando a história das organizações nos últimos cem anos, podemos considerar que quase todos os executivos atuais são os atores dos últimos 50, concluir sem receio de errar que são eles os responsáveis conscientes pela conservação dos modelos organizacionais antigos, como também pelas tecnologias que têm causado grandes transformações. Acreditar que a revolução tecnológica dos últimos 30 anos, sem precedência, com o advento da internet, telefonia celular, causou grandes mudanças. Paralelamente, aconteceram outras: a dos valores da sociedade, da família, do surgimento de uma nova geração – denominada “Y” – e das redes sociais. O poder do Estado e das famílias se fragilizou. Se isso é melhor, é cedo para concluir, mas é uma realidade.
Mesmo com tantas mudanças radicais, os modelos corporativos se mantêm ainda em um estágio muito conservador, comparados com as grandes mudanças no campo tecnológico e social. Há muita resistência em discutir a estrutura interna nas empresas; predomina o formato da pirâmide, em que o poder está muito concentrado, a vaidade do empreendedor e dos executivos impera, apesar de inúmeras teses sobre a democratização na gestão e formação das equipes.
E a maioria das Escolas de Negócios continua a considerar o professor como único construtor do conhecimento. Acredito que só elas creem na eficácia desse velho paradigma. Mas a grande crise mundial, que até o momento se sustenta, mostrou com muita clareza a fragilidade das organizações, fato que vem sendo debatido exaustivamente pelos governos centrais, grandes empresas e pelas Escolas de Negócios de primeira linha. É preocupante que não esteja acontecendo na mesma intensidade no Brasil.
Um dos motivos é que a prioridade tem sido oferecer vagas, a qualquer custo, algumas com mensalidades do curso de pós-graduação com valores abaixo dos de academia de ginástica.
O Brasil não é mais o país do futuro, os investimentos estrangeiros têm chegado de forma estratégica, mas continuamos exportando mineiros e minérios; as empresas investindo muito pouco em educação corporativa; as escolas dando ênfase a guerras de preços: organizações com estruturas antigas. É necessário rever o modelo interno, afinal está nele o processo decisório. E a dinâmica dos mercados tem mudado muito, não aceita ineficiência, principalmente no mercado internacional.
Este é um bom momento, estamos crescendo, a renda está melhorando. Apesar de as mudanças acontecerem mais em época de crise, não podemos perder esta fase para rever conceitos ultrapassados. As pequenas e incômodas “cortes” existentes dentro das empresas, que são mais bem servidas do que os próprios clientes, têm sido já há algum tempo o maior obstáculo para se ter empresas de alto desempenho.
Infelizmente, como em muitos temas, não podemos contar, no curto prazo, com os governos, mas as organizações privadas, não governamentais e as redes sociais podem acelerar as mudanças que fazem a diferença. Os últimos acontecimentos no Egito, na Itália e a busca desesperada dos Estados Unidos para ter novamente um modelo sustentável não podem ser para nós apenas manchetes de noticiários, mas motivos de reflexão e de ação. Esta é nossa hora.
Hélio Mendes
Prof. e consultor de Estratégia e Gestão
latino@institutolatino.com.br
Comentários 0