A revolução e os árabes
Robespierre discursou em 7 de maio de 1794: “A revolução é a passagem do reino do crime para o reino da justiça”. Será que a revolução dos árabes irá realizar a justiça para esses povos? Os povos pobres da Tunísia, do Egito e da Líbia vivem a tragédia social e política. Estes povos buscam construir um Estado nacional, onde a relação governante e governados seja democrática e com liberdade, livre dos mais variados crimes que esses autocratas experimentaram contra o povo. É a manifestação da vontade de mudança das ordens sociais e políticas estabelecidas.
A história registra várias revoluções: a Revolução Francesa de 1789, a Russa de 1917, de Bismarck na Alemanha e Garibaldi na Itália. Revoluções de libertação nacional foram as de Gandhi e Nehru, na Índia e a Mao Tsé-tung, na China. Revolução de afirmação nacional, a Revolução Mexicana de 1910.
O fenômeno revolucionário deve ser visto como mudança da realidade social e política de um povo. A mudança deve ser radical e de raiz. É uma ruptura entre o velho e o novo: mudança conjunta da sociedade civil e dos costumes. É o rompimento da continuidade histórica de um povo. A luta revolucionária tem uma visão progressista da história. As revoluções possibilitam saltos qualitativos em termos da vida social e política, quando da passagem de uma ordem a outra. A revolução é necessária para um povo quando as reformas não são mais suficientes.
Os povos árabes vivem esse momento histórico. O tipo de movimento revolucionário pode ser pacífico ou violento, o tipo de mudança pode ser parcial ou global. Enquanto fenômeno histórico, os povos podem experimentar, ao longo desse momento revolucionário, um ou vários dos seguintes fatos políticos: revolução violenta e global, o reformismo não violento e parcial, a revolução não violenta e global e golpe de Estado, violento e parcial. Os povos árabes experimentam alguns desses fatores políticos, enquanto reconstroem seus Estados nacionais.
As máscaras farsescas dos ditadores árabes estão caindo. São ditaduras implacáveis, com um aparato de opressão fortíssimo. As rebeliões em curso enfrentam governos, cuja brutalidade tenta esmagar esses levantes. Fazem guerra ao próprio povo. São autocratas sanguinários. A revolução é evento contagioso ao se espraiar pelos países árabes, ao mesmo tempo. Estes povos vão avançando em suas lutas por governança democrática e por liberdade individual.
O desafio maior é a reconstrução da sociedade civil em patamar democrático, o que levará às mudanças no plano social e econômico de cada país árabe. A violência revolucionária pode ser inevitável, dada a boa finalidade: o fim das ditaduras árabes. Há os que acreditam e defendem que o novo mundo árabe só pode ser construído por uma violência criadora e purificadora. Esta ideia só poderá ser julgada verdadeira após o fim dessas revoluções no mundo árabe.
Talvez o que acontece com os povos árabes se encaixe na definição de revolução criada por Aristóteles, Política, livro V: qualquer forma de mudança – política ou social – apenas alteração dos governantes ou forma de governo. Talvez a revolução seja a “Mutação” para Maquiavel, Discurso, capítulo 7, livro III: “mutações da liberdade à servidão, e da servidão à liberdade”. Passagem de uma forma de governo a outra, com muito sofrimento do povo pobre, que no fim das contas podem ser derrotado: domínio das velhas elites e dos interesses estrangeiros.
João Batista Domingues Filho
Cientista político e professor da UFU
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José F Pires disse:04/03/11 10:33
No filme Quando Explode a Vingança (Giú La Testa), dirigido por Sérgio Leone em 1971, sobre a revolução mexicana, o camponês Juan Miranda define a revolução da seguinte forma: “… as pessoas que lêem livros enchem a cabeça do povo que não lê, com falação sobre coisas que ele não entende. Daí as pessoas lutam, morrem e fazem a mudança. Ai os que lêem livros se sentam em grandes mesas lustrosas falam, falam, comem e comem e tudo continua como antes”. No artigo do professor Domingues esta é a definição que mais se aproxima do conceito de Aristóteles; por isso fico com ela. O mundo está cheio deste exemplo, o povo sendo usado como bucha de canhão, para se trocar uma elite por outra no exercício do poder e da locupletação.
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