Do Outro Mundo
Tinha tudo para ser um dia normal como qualquer outro. A rotina das ruas tomava seu rumo. Os primeiros ônibus já se faziam ouvir e sentir. Crianças em uniformes coloridos tagarelavam rua acima, rumo à escola. O primeiro sinal já havia tocado. Conversas de namoricos, último capítulo de novela, reality show.
— E a nova música do Justin Bieber, alguém gravou? Ah, me passa por favor, me manda o link!
Como se vê, só assuntos da mais alta relevância, passíveis de mudar os rumos da humanidade. Impressionante! A sirene da escola tocou pela segunda vez. Debandada geral. Agora, como disciplinadas abelhas, adentravam uma a uma ao sagrado templo do saber. Tudo corria tranquilo e sossegado.
O que poucos podiam imaginar era que, na outra esquina, bem próximo à escola, algo se preparava para importante missão. Havia ficado em vigília por longos nove anos. Durante todo este tempo ficou a observar costumes e hábitos dos habitantes desse pequeno planeta, onde haviam detectado sinais de vida inteligente. Bom, este conceito de sabedoria mudou um pouco depois de todo esse tempo. Personagens com nomes estranhos recheavam agora seus relatórios diários e eram vistos como potenciais ameaças à cultura e sobrevivência de seu povo.
Compunha lista do que deveria ficar enterrado e esquecido para sempre e, de preferência, em cápsulas blindadas e enviadas para a longínqua e inacessível nuvem de Oort, o aterro sanitário de sua galáxia.
Para azar seu, os cientistas de seu planeta, por engano, deram-lhe corpo de cachorro para misturar-se à multidão. Teve de se adaptar ligeiro. Arrumou um dono, digamos, diferente, com certos vícios. Terráqueo perfeito para seu disfarce. Mas era chegada a hora de realizar sua missão. Tinha que fazer contato com os líderes desse lugar. Mas aí pairava a maior de suas dúvidas.
Quem era o verdadeiro representante dessa estranha raça? Era aquele senhor barbudo de falar rouco e que por anos e anos frequentou os noticiários? Seria aquela senhora loira que todas as manhãs conversava com um papagaio? Ou seria aquele outro com plástico sorriso que aos domingos jogava aviõezinhos de dinheiro no povo? Quem seria?
A única pessoa lúcida que ele conhecia era uma moça muito bonita e educada, que morava ali perto e que, volta e meia, afagava-lhe a cabeça através das grades do portão. Era a ela que iria perguntar.
Decidido, foi a ela. Lá chegando, a encontra na varanda. Sorridente aproxima seu rosto de se seu focinho e, com a mão em seu queixo, perguntou-lhe o que o lindo cão poderia querer. Achando que sabia falar balbuciou entre roncos, rugidos sons inteligíveis:
— Por favor, leve-me ao seu líder.
Nessa, acidentalmente mordeu os lábios da moça que, numa mistura de espanto e terror, se pôs a gritar ao sentir o calor do sangue a correr-lhe pelo queixo.
Também assustado desapareceu no mundo e buscou refúgio em local ermo, de onde, após contato com a nave resgate, se foi em desgraça, sem cumprir a missão para a qual foi designado.
Enquanto cruzava o cosmo, consegui captar uma última transmissão de seu antigo dono. Este, cercado de homens fardados, bradava aos quatro ventos:
— Não falei: “Meu cachorro é de Júpiter e estava apaixonado pela vizinha. Ela sorriu para ele e o cão tentou dar um beijo”. Agora quero ver quem vai me dar outro cachorro do outro mundo!
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