A primeira Eva
Segundo a lenda, foram criados primeiramente Adão e Lilith e esta fêmea não saiu da costela do macho. Ambos foram criados da mesma essência: o barro. E por terem sido feitos do mesmo material, não houve o propósito de se criar para Adão uma simples coadjuvante, mas sim uma parceira, uma companheira.
E ainda, conforme a lenda, em certa época Lilith começou a ficar meio avançadinha, rebelde, ideias próprias, como se diz modernamente — “o cão chupando manga”. Não aguentando a pressão, Lilith caiu fora, deixando Adão na maior solidão. O Criador, sentindo a tristeza do macho, visivelmente contrariado com a perda da parceira, fez com que ele adormecesse profundamente e deu início àquela velha história.
Criou Eva, mulher ideal, feita não de pó, como o homem, mas de sua carne, seu sangue, suas necessidades. Submissa e dócil, símbolo do poder patriarcal, ao contrário de Lilith vista como demoníaca, hoje símbolo das lutas femininas.
Por milhares de anos predominou o espírito de Eva, a humilde, resignada, conformada. Para quê, com qual finalidade as mulheres habitavam a terra? Nascer, crescer e realizar o sublime ato da procriação, ser o anteparo do homem no seu papel superior de provedor e protetor da família, sua sombra e esteio no trabalho glorioso de edificar o mundo. Mas, em certo momento, o espírito de Lilith, que não fora apagado, começa a reverberar, sair da sombra, não sem uma grande dose de sacrifício. Conhecemos bem a origem do Dia Internacional da Mulher, na história das tecelãs de Nova York, que em 1857 foram mortas, num ato totalmente desumano, por estar reivindicando melhores condições de trabalho.
Em meio a dificuldades, as conquistas foram acontecendo e, na sociedade atual, muito ainda há para se discutir sobre o papel da mulher, suas necessidades, seus anseios. No Brasil, um grande passo foi dado com a criação da Lei Maria da Penha, protetiva da mulher. Não obstante, ainda crescem os conflitos, os abusos, a violência que se comete contra elas. Mais do que a proteção legal, expressa, ainda faltam consciência do outro e do respeito pelo semelhante, ainda sobram discriminação e intolerância.
Somos todos, homens e mulheres, seres da mesma espécie, com suas individualidades e aparências próprias. Somos todos homens e mulheres habitantes do planeta, à procura de realização e felicidade. Na diversidade de gêneros está o próprio sentido da criação, que reservou a cada sexo alguns papéis que lhe são peculiares. O caminhar juntos na construção de um mundo mais feliz, mais humano, eis um ideal a ser realizado.
A grande maioria das mulheres, creio, não deseja igualar-se, confrontar-se ou adiantar-se aos homens. Importa o respeito, importa que todos tenham o direito de procurar conquistar seu lugar na sociedade sem discriminações e que as boas conquistas sejam valorizadas. Que cada homem e cada mulher saibam respeitar-se e respeitar o outro, reconhecendo seus horizontes e seus limites.
Parafraseando Lya Luft, nossa laureada escritora, mesmo que nos esforcemos não somos nem devemos ser mulheres-maravilha, mas apenas pessoas: vulneráveis e fortes, incapazes e gloriosas, assustadas e audaciosas — mulheres.
Marília Alves Cunha
Uberlândia (MG) mariliacunha16@hotmail.com
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