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2/04/2011 8:31

Se ele é o cara…

Obama poderia ter começado o seu discurso, no Rio de Janeiro, com mais propriedade, entretanto confundiu “hello” com o alô de telefone. Apesar de estudar a cultura brasileira, nem Obama pode dominá-la com um curso intensivo, por isso desconhecia a música “Não tem Tradução”, de três monstros da MPB ( N. Rosa, F. Alves & I. Silva), na qual as feras versam: “…As rimas do Samba não são I Love You e esse negócio de Alô, Alô Boy, Alô Johnny só pode ser conversa de telefone…”

Aliás, foi do morro que veio a resposta mais sincera contra o zelo exagerado da segurança presidencial americana, que constrange os nativos que ainda guardam algum respeito próprio.  MV Bill, um verdadeiro filho de Zumbi dos Palmares, após retirar-se da organização de acolhida declarou: “Revistar crianças de 4 anos de idade, retirar moradores de suas casas, não marcar encontro com nenhum movimento social da comunidade são coisas que estão desafinadas com o desejo da população de ver o Obama de perto e de passar carinho para ele”.

Por outro, do Planalto, quatro ministros do Estado Brasileiro, reclamaram, curvaram-se e submeteram-se à humilhante revista. O povo brasileiro na pessoa de MV Bill deu a resposta à altura.

Obama suavizou o seu discurso lembrando que os brasileiros lutaram contra a ditadura e omitiu que foram os próprios ianques que deram uma “mãozinha” para que o golpe ocorresse, esqueceu-se ainda que a luta mais renhida, contra a ditadura, era conduzida pela esquerda radical que estava muito longe de querer uma democracia.

Dentre as várias comparações entre as duas nações, Obama ressaltou que ambas possuíam uma população autócne e ignorou como as mesmas foram escorraçadas, no caso deles de forma menos hipócrita como é a característica ianque, com franqueza, no aço e na bala, enquanto na nossa o extermínio é mais sofisticado, com doenças, abandono e assim por diante.

Obama utilizou cerca de cinco minutos do seu discurso para fazer uma comparação entre as duas nações e utilizou os 15 minutos finais numa inteligente construção retórica, na qual os EUA são apresentados como os guardiões da liberdade. Discorreu sobre a situação mundial, ressaltando a necessidade de liberdades e abordou a luta que se trava hoje por mais democracia. O Brasil foi elogiado por ter conseguido sair do atraso, valendo-se da democracia com liberdade e, fechou o discurso de forma brilhante, associando a luta pelas “Diretas Já” com a presidente Dilma, que foi alguém que lutou e que aprendeu o que é padecer sem liberdade. 

A passagem de Obama pelo país foi ainda ressaltada com cinco outdoors em Salvador com a frase “Digaí negão”, patrocinada pela ONG Instituto Maria Preta. A escolha da frase “Digaí negão” aconteceu com base numa série de documentários que trataram de personalidades negras dentro do projeto Digaí negão.

Para completar a viagem, não poderia faltar a nota destoante, o ex-presidente Lula declinou do convite da presidente Dilma para o jantar com Obama e os ex-presidentes brasileiros. Lula ofereceu uma desculpa esfarrapada e pretensiosa, se autoelogiando e ao mesmo tempo relativizando a nossa presidente, dizendo não querer ofuscá-la. Mas Lula e seu estafe avaliaram politicamente, e a recusa, em minha opinião, deu-se para não fixar no  povão a imagem de ex, mas perenizar a imagem do ídolo e sempre candidato salvador. De qualquer forma, Lula pode ser o cara, mas o presidente Barack é o Bamba.

Euclídes Araújo
Prof. Titular da FEQ-UFU – euclides@ufu.br
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