O horror nosso de cada dia
A notícia nos surpreendeu e chocou a todos: um rapaz de vinte e poucos anos, entra na Escola Municipal Tasso da Silveira, bairro do Realengo, no Rio de Janeiro, a pretexto de dar uma palestra, saca dois revólveres calibre 38 e sai atirando a esmo. Consegue matar 11 crianças e fere um punhado de outras. A catástrofe teria sido maior se o personagem em questão não tivesse sido morto num confronto com um policial.
O que nos assombra nesse episódio é a questão da perversidade, da personalidade antissocial. A vida em sociedade exige de nós a repressão dos impulsos agressivos, animalescos. Não é uma renúncia fácil. Quem de nós já não sentiu um impulso quase incontrolável para a violência, uma vontade extrema de esganar alguém? Todos nós, portanto, temos um potencial para o comportamento agressivo e essa agressividade não pode ser atribuída, de forma simplificada, tão somente à ignorância, à pobreza, à irracionalidade.
Entretanto, para os estudiosos da personalidade humana existe algo de diferente na mente da pessoa capaz de cometer certas atrocidades que a faz circular com desenvoltura entre o bem e o mal, apoiada na crença de ser o senhor da vida e da morte, e sentindo, não culpa ou remorso, mas um prazer mórbido e sádico diante de seus atos desumanos. É a personalidade antissocial (ou psicopática). São sintomas característicos da personalidade antissocial: um padrão recorrente de violação das normas e um desrespeito acentuado pelos desejos, direitos e sentimentos do outro.
O psicopata tem consciência de seus atos, mas não sente que está violando as normas sociais. É capaz de falar de seus crimes e atrocidades sem nenhum sinal de constrangimento ou emoção. Muito provavelmente, o jovem rapaz, protagonista da tragédia que se abateu sobre os alunos da Escola Municipal Tasso da Silveira, sofria do distúrbio da personalidade antissocial. As opiniões divergem quanto à origem do transtorno: alterações no cérebro (especificamente no córtex frontal) e traumas do tipo violência e abuso sexual na infância. De qualquer forma, todos são unânimes em afirmar que as causas do distúrbio são múltiplas, incluindo o abuso de drogas.
A soma desses fatores pode tornar alguns sujeitos mais vulneráveis ao distúrbio do que outros. Para Amador Pereira (PUC de São Paulo), existe um elo direto entre pobreza e violência. Sentir-se excluído de uma sociedade consumista pode tornar o indivíduo mais propenso ao ódio e à violência, o que lhe daria, ainda que por momentos, a sensação de poder. Lembremo-nos da declaração daquele atirador de Washington, nos Estados Unidos, após ter matado dez pessoas: Policial, eu sou Deus!
O acelerado progresso técnico-científico do nosso tempo se, por um lado, nos torna senhores do mundo, por outro, nos faz caminhar numa corda bamba: a sensação é a de que o abismo nos pode devorar a qualquer instante, de que a catástrofe nos espreita por todos os lados. Precisamos insistir no esforço de compreender e administrar o instante, sobretudo no que ele tem de mais incômodo, surpreendente e trágico. E não tenhamos ilusão: nenhum de nós está imune a mergulhar no impensável, no horror nosso de cada dia. Viver dói.
Shyrley Pimenta
Psicóloga
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