Sociedade mosaico
Mosaico é composto por uma variedade de fragmentos, mas permanecem juntos por força de um cimento comum. Esta imagem pode ser de uma sociedade verdadeiramente democrática. A “sociedade mosaico” é formada por comunidades harmonicamente integradas entre si. O que possibilita a liga entre as partes que compõem a sociedade é o “núcleo de valores partilhados”, conforme define Amitai Etzioni, cujo projeto comunitário aplicado à vida política traz como solução a “sociedade mosaico”.
Esse professor de sociologia, conselheiro político influente (democrata), em 1991, funda a revista “The Responsive Community”. É reconhecido pela invenção da palavra “comunitariano”, designação dada aos autores hostis ao individualismo excessivo da sociedade contemporânea. Prega a reforma social pelos princípios comunitários, para buscar a realização do “bem comum”, fundado na participação de valores políticos e morais. O projeto de Amitai Etzione é o restabelecimento da sociabilidade comunitária, sem limitação à liberdade individual.
É preciso seguir as ideias sociológicas de Etzione para a compreensão dos principais problemas vivenciados por cada indivíduo membro da sociedade contemporânea. Sua análise pressupõe que a sociedade se sustenta em três pilares: o poder, a troca e a moral. Vivemos em sociedade por três razões: a coação, o interesse e os valores. O destaque aqui é para os valores coletivos, que devem ocupar o lugar central na “Sociedade Mosaico”, cumprindo a função integradora no Estado, no setor privado e nas comunidades.
Neoliberalismo é o declínio das referências morais: quando o individualismo se fortalece, o interesse pela política decresce e a existência volta-se para a vida material. A sociedade contemporânea vive em crise por não encontrar o caminho social para a produção do “bem comum”, que possibilita o desenvolvimento da “sociedade mosaico”. Estado e mercado são incapazes de restaurar a solidariedade social, mas as comunidades são lugares de fortalecimento dos laços sociais. Comunidade é um agrupamento de pessoas livremente constituído, com uma mesma atividade, com vontade de se ajudar mutuamente, organizam-se para resolver um problema coletivo (comunidades de bairro, associação de pais, as associações de cidadãos em base voluntarista). Não são comunidades “fechadas”: étnicas, religiosas e culturais.
É a defesa do ideal comunitário para solução dos problemas da sociedade contemporânea segmentada. Comunidades são crisóis onde se constroem laços de solidariedade fortes. Um lugar “aberto”, cuja legitimidade surge da ajuda mútua e na partilha de interesses, projetos sociais fundados na associação voluntária. Fundada nos interesses comuns, apoiados em “valores partilhados”, exprimindo os grandes valores da vida comunitária, a saber: a democracia, ideia do bem, não simplesmente técnica de governo; respeito pelas constituições e pelos direitos; a lealdade para com a nação; a tolerância e o respeito com as comunidades, com megálogo, vasto diálogo ampliado ao conjunto das comunidades; e a reconciliação para fundar novas sociedades.
Não há melhor base para a realização da sociedade solidária do que a forjar sobre a vida comunitária. Sociedade não é soma de indivíduos. Solidez dos laços sociais advém da estabilidade da moral. Para Etzione o interesse coletivo deve prevalecer sobre os direitos individuais. Comunitarismo é a resposta intelectual ao liberalismo triunfante.
João Batista Domingues Filho
Cientista político e professor da UFU
Comentários 0