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16/04/2011 7:12

Das ferramentas

“Deem-me uma alavanca e erguerei o mundo” (Arquimedes).

Com uma simples colher de pedreiro, ele ia montando, tijolo por tijolo a parede da creche. O ambiente era de cooperação e companheirismo. Antes de começar esta tarefa em pleno sábado à tarde, sol a pino, ele levara as crianças ao bosque do parque, para protegê-las do calor. Estas atividades fazem parte do que se convencionou chamar de voluntarismo. Ser voluntário é fazer algo pela sociedade, sem receber pecúnias como pagamento pelo serviço: construir pontes para comunidades isoladas, alimentar mendigos, dar um lar a cegos, plantar árvores, levar velhinhos do asilo ao sol da manhã.

Para a maioria de cidadãos, durante um longo tempo de suas existências, gestos como estes são ou eram impossíveis de ser realizados, por causa da correria da vida, todavia, em certo momento, depois de um sermão de um pastor de almas — daqueles que  tocam  o coração da gente, ou após  uma caminhada como a de Santiago de Compostela  na Espanha, a saída é participar, para saciar a sede de ser útil, de ser um agente do “Reino de Deus na terra”, e, voltando à colher de pedreiro, ela foi a ferramenta usada para dar  forma, função e propósito à esta  nova realidade .

Ao refletirmos sobre a importância das ferramentas, precisamos nos lembrar da dificuldade que é não a possuirmos nos momentos decisivos da vida, por exemplo, quando ao voltarmos à idade da pedra, em situações de sobrevivência – tipo “Discovery Chanel”, nos vermos com  a necessidade de construir algo que corte ou que faça fogo. No dia a dia, no entanto, nem nos damos conta da bênção que é usufruirmos de todas  tecnologias desenvolvidas durante séculos, do simples garfo até um dispositivo para trabalhar com softwares, como um  notebook.

Mas ferramentas nem sempre são usadas para o bem. Uma arma de fogo, por exemplo, pode servir para um louco tirar a vida de uma dezena de crianças numa escola do Rio de Janeiro e ferir outra dezena delas. Ou seja, ferramentas podem ser usadas para maldição, para machucar e deixar sequelas físicas, mentais e espirituais. Ao pensar sobre este massacre, considerado o décimo maior do gênero no mundo, e como ex-professor da rede pública em SP, recordo-me do dia em que fui ameaçado por um aluno drogado que havia entrado com um revólver, isso após repreendê-lo por mau procedimento em classe.

Até hoje, passados quase 20 anos, meu coração se entristece, ao lembrar-se do impacto negativo daquela situação sobre minha vida e sobre os demais alunos daquela classe.   Dias depois do ocorrido, ao participar do conselho da escola, sugeri e foi acatada e realizada a instalação de um detector de metais — outra ferramenta, que tantos anos atrás nos ofereceu a segurança que faltava. Será que é tão caro assim este dispositivo? Ou será falta de cuidado com as vidas humanas que entram em uma escola? Se em bancos, lojas de departamento, shoppings, aeroportos não se entra ou sai sem se passar por este equipamento, por que não na escola?

Concluo, me solidarizando com as famílias enlutadas e lembrando às autoridades nacionais da educação, já tão humilhada neste país, que o uso ou a falta de ferramentas adequadas numa escola podem fazer a diferença entre a vida e a morte de nossos filhos.

José Carlos Nunes Barreto
Professor-doutor
debatef@debatef.com.br

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