Uma brasileira nos States
Em quase três meses que estive nos States, na casa da filha, aprendi muito. Por exemplo: em país estranho, nunca ande de trem ou metrô sem ter certeza de onde vai descer. Saí para passear com meu neto de 2 anos. Guardei o nome da estação onde deveria descer na volta, Meadowview, mas este, na verdade, era o nome da linha. Assim, passamos do ponto e quando descemos, na última estação, eu não tinha a menor ideia de onde estava e muito menos o meu neto, que adorou andar tanto tempo de trem. Fomos resgatados pelo genro, depois de muita confusão.
Outra coisa: não corte cabelo em salão de chineses. Entrei nessa e não tinha a menor ideia de como sairia do salão, pois a chinesa falava sem parar, num inglês esquisito e não aceitava opinião. Cortou e tingiu o meu cabelo do jeito que quis. Quase fugi, com medo de sair de cabelo verde, bem curtinho e espetado. É mais barato, mas não vale a pena, é só angústia e desespero (paguei 43 dólares, em salão normal é cerca de 150).
Também nem pensar em ficar doente e precisar de médico e hospital, sem ter algum plano de saúde. Uma brasileira, sogra de uma amiga da minha filha, veio passar uns tempos nos States, teve uma ameaça de enfarte, passou 24 horas no hospital e a conta foi de 150 mil dólares. Além disso, não é bom morrer por aqui (aliás, em lugar nenhum). Existe o costume de se embalsamar os corpos para esperar o momento oportuno para o enterro.
Um amigo da babá da minha filha morreu no inverno e ficou dois meses embalsamado esperando um tempo melhor. Em compensação, tem funeral muito sofisticado. Assisti a um (de penetra), com todas as pessoas (menos eu, lógico) com camisetas com o retrato do finado e palavras de carinho. Além do corpo embalsamado, cercado por flores, havia uma exposição de fotos das etapas da vida e dos familiares do finado. Colocaram também os brinquedos preferidos dele, quando criança, e até a primeira roupinha azul que vestiu no hospital quando nasceu, quase chorei.
Outro conselho importante: muito cuidado ao pedir comida em restaurante. Tem tanta comida diferente por aqui (tailandesa, chinesa, indiana, portuguesa, americana, africana, francesa), que é bem possível comer uma coisa pensando que é outra. Como eu, que certa vez enchi um prato fundo de “dressing”, um tipo de molho picante e apimentado, pensando que era uma sopinha gostosa. Mas não há perigo se as comidas forem bem óbvias, como as pernas de siri de meio metro e um caldeirão imenso com sopa de pés de galinha, que vi em um restaurante chinês (mas não comi).
Outra coisa: aqui todos respeitam o espaço pessoal do outro. Não tem empurra-empurra nem encosta-encosta. Qualquer encostadinha em uma pessoa, é preciso falar “excuse me”, “I am sorry”, várias vezes. Ninguém fica juntinho nas filas e no metrô, é falta de educação. O meu genro americano, respeitador do espaço alheio, ficou espantado quando, na Bahia, entrou na fila para comprar passagem de ônibus. Deixou um espaço entre ele e o próximo. Todos entravam naquela vaga e ele ficou horas na fila.
Por fim, aconselho a não assistir à missa em português de Portugal, quando sentir saudades da nossa língua. Fui algumas vezes assistir ȧ à missa dos portugueses e, embora seja encantador ouvir o coro de pessoas bem velhinhas, cantando ao som de bandolins, só é possível entender uma ou duas palavras. No mais, States é um país diversificado, de pessoas educadas, mas “bãão” mesmo é o Brasil.
Ana Maria Coelho Carvalho
anacoelhocarvalho@terra.com.br
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