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20/04/2011 6:00

A morte noticiada

Em condições normais sou um leitor das manchetes jornalísticas, apenas o suficiente para saber como vai este nosso mundo. De vez em quando alguma coisa maior ou intrigante me desperta atenção ou curiosidade, a aí me ofendo da noticia.

Aquele caso da pinça esquecida na barriga do nosso paciente do hospital foi uma destas, mesmo porque correu mundo, um tsunami escandaloso… que a mesma imprensa sensacionalista não quis acompanhar em evolução e final, que mais adiante vou contar. Antes, porém, vou comentar notícia de horror semelhante, aqui ocorrida e noticiada em nosso jornal.

Na sexta feira passada, ali no trevo da BR-050 uma patrol dá uma ré e atropela um jovem tenente do exército que também estava a serviço. As obras são suspensas, o trânsito fica interditado, e o socorro do SAMU é chamado de urgência.

O acidentado está deitado no asfalto, ferimento doloroso na cabeça, as dores torácicas e dor no pé.

Chega o SAMU, e começa a odisséia: a ambulância não trouxe médico!… é chamada a segunda ambulância, desta vez com médico (não identificado na nossa noticia).

Segue a imprensa noticiando: ali mesmo o paciente acidentado é medicado por um “coma induzido”. Para quem não sabe o “coma induzido” é um grupo de medicações parenterais injetáveis que abolem a consciência, os reflexos cardio-respiratórios colocando a sua vida numa verdadeira “anestesia geral” – o que exige cuidados, meios e profissionais altamente qualificados.

Seu uso ali no chão da rodovia já me pareceu audácia difícil de explicar – a menos que o nosso jornalista tenha informação e observação errada. Segue o andor: o paciente é removido para nosso Hospital Escola, visando a UTI – mas a notícia para por aí. Fico sabendo apenas que o jovem tenente é de Araguari.

No dia seguinte a notícia fatal: o jovem morreu, não resistiu aos ferimentos… porém sem identificação destes danos vitais ou intervenções médicas. Mais ainda, e completando: neste mesmo dia seria sepultado aqui em Uberaba, não em sua terra Araguari. Estranho ainda: não se faz referencia a um exame anatomopatológico que seria obrigatório no diagnóstico desta morte – o sepultamento rápido, a notícia termina, vire-se a página.

Bem, eu não sei, mas apontei acima as circunstancias esquisitas deste caso. Será que a patrulha do Exército Nacional achou tudo isto normal e satisfatório? Vão mandar ofício de agradecimento à evidente falha do SAMU em socorro sem médico?

O próprio jornal deveria interessar-se pelas conclusões. Como médico e um pouco como jornalista, peço que tudo seja do conhecimento profissional e público.

E não me esquecendo a promessa do início: aquele nosso paciente, que pôs em escândalo público nosso hospital. O paciente idoso, complicado e grave foi cuidado, re-operado, retirada a pinça do horror, bons cuidados de UTI e medicina… teve alta, está em sua casa. Isto a imprensa não noticiou, não é sucesso a vida, a morte é que dá notícia. E os desastres do jovem tenente, morreram com ele?

João Gilberto Rodrigues da Cunha
Médico – Uberaba – MG

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