A dor do mundo
Tempus fugit. E o homem precisa aproveitar melhor seu curto espaço de tempo sobre a desolada terra. E, enquanto isso, precisa buscar o âmago fugidio das coisas, dos seres, da vida. Como diria o poeta Haroldo de Campos, há que buscar o âmago do ômega, na complexa tarefa de analisar os paradoxos do próprio comportamento, pois a tarefa maior é o conhecimento de si mesmo, a inspeção rigorosa da própria alma, experimentando-a, conhecendo-a em profundidade, permitindo-lhe entregar-se, sem medo, a todas as formas de amor, sofrimento e loucura, consciente de que o mistério também faz parte de sua história, e de que não há desvios possíveis: a resignação é viver a vida no limbo, esse estranho espaço entre o céu e o inferno.
Viver no limbo implica o combate permanente aos sentidos regrados, embotados, do convencionalismo e das verdades aparentes, tidas como definitivas. Nada é definitivo sobre a face da terra e no humano tudo cabe. Por isso, já cantava Zé Rodrix “eu quero o silêncio das línguas cansadas”, para que se inaugure uma nova sintaxe. Abaixo, pois, o entediante e exaurido discurso de uma nota só, resistente à lucidez, alheio à efervescência da vida que GRITA furiosamente para que a libertem da sua infelicidade.
A realidade é um quadro rico de matizes sutis. Exige interpretações mais amplas e mais perspicazes em todos os seus aspectos: culturais, sociais, psicológicos. Não dá para encobrir os radicalismos de quaisquer espécies sob a capa açucarada ou a exaltação caricata do “politicamente correto”. Nosso mundo, cada vez mais individualista e doente, perdeu o rumo e o prumo: os diálogos não dialogam, a comunicação se encheu de ruídos, de mal-entendidos; no cenário cotidiano, somos personagens sonsas, atrapalhadas, quixotescas, emocionalmente sem controle.
Urge que se materialize entre nós a delicadeza: no amor compreensivo dos pais para com os filhos, no trato entre homens e mulheres, nas relações humanas em geral, para que se amplie e se aprimore nossa capacidade de extrair emoção de tudo o que é aparentemente banal e pouco importante. Não dá mais para sermos bonecos de engonço, manobrados por alheias mãos, condicionados ao protocolo de leis petrificadas no tempo, submissos a uma cordialidade codificada e convencional.
É tempo de fazer o elogio da maturidade, de cultuar a simplicidade, de valorizar a informalidade do dia a dia, aspirando à quietude interior, ao depuramento da percepção, à aguda consciência do intangível, do impalpável, do nada que, em verdade, nos define. Precisamos reconciliar-nos com a vida, esse sonho vazio, como ela é, com serenidade, equilíbrio, resignação, se quisermos experimentar a catarse, na sua plenitude e o conforto psicológico que dela decorre. Precisamos rever nossas certezas absolutas e abrir mão delas.
O importante, afirma A. C. Grayling, é pensar por si mesmo, nutrindo-se, à farta, da sabedoria que nasce dos próprios homens. A propósito, Grayling, que é professor de Filosofia na Universidade de Londres, acaba de publicar, no Reino Unido, uma bíblia laica, reunindo citações de pensadores e filósofos, entre os quais, Aristóteles, Baudelaire, Nietzsche e Rimbaud. No Brasil, o livro de Grayling, cuja estrutura e linguagem se assemelham às da Bíblia cristã, deve sair em 2012, pela editora Objetiva/Alfaguara.
É isso. Precisamos de um jeito novo para lidar com os mistérios da vida. E mudar não é fácil. Às vezes escorre sangue.
Shyrley Pimenta
Uberlândia (MG)
ivsant@terra.com.br
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