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7/05/2011 7:43

Ética Brasileira

Desde a redemocratização brasileira, ocorrida há mais de 25 anos, e desde a retomada dos processos eleitorais amplos e diretos, os cargos de chefes do Executivo e dos membros de nossas casas de leis, do âmbito municipal ao federal, têm sido escolhidos única e exclusivamente pela vontade popular, efetivada por meio do voto. Ao contrário de regimes ditatoriais, em que somos governados por alguém que está no poder independentemente de nossa vontade, nos regimes democráticos nós, eleitores, temos responsabilidade sobre nossas escolhas e, de certa forma, temos nossa parcela de culpa quando do fracasso, técnico ou moral, do eleito.

Infelizmente, no Brasil, há uma moral algo flexível e certa tolerância com condutas inadequadas de políticos. Escândalos de corrupção e de utilização da máquina pública em benefício próprio muitas vezes são “esquecidos” pelos eleitores, quando do exercício do sagrado direito-dever do voto. Isto explica por que somente com a publicação de uma lei que torna inelegíveis candidatos com passado sujo pudemos livrar o Executivo e o Legislativo destas presenças deletérias.

Curioso constatar que, em nações como Japão, EUA e alguns países europeus, escândalos de âmbito pessoais não relacionados com o desempenho da função pública ou mesmo desvios de conduta insignificantes são suficientes para fulminar a carreira política de governador, deputado ou ocupante de outro cargo eletivo. No Brasil, infelizmente, a tolerância é tamanha, que, se não fosse a oportuna Lei da Ficha Limpa, diversos candidatos sem aptidão moral mínima ascenderiam ao poder pela vontade popular.

Cabe questionar: por que o brasileiro é tão tolerante com a falta de ética e de moral dos candidatos? Por que, mesmo reiteradamente envolvidos em escândalos, políticos como Maluf, Roriz, Sarney sempre estão no poder?
Descabe tecer, num despretensioso artigo, uma tese aprofundada do tema, mas não seria descabido fazer algumas ponderações.

A tolerância, a nosso modesto sentir, decorre do fato de que parte considerável do eleitorado pratica, embora em escala menor, atos tão reprováveis quanto os dos políticos corruptos. Ou seria descabido comparar as condutas de “dar um cafezinho” a um agente público para ter certo benefício perante uma repartição ou a de molhar a mão de um agente policial para se livrar de uma multa de trânsito não se assemelham a pagamentos de propina e trocas de favores presentes nos grandes escândalos de corrupção.

Quem pratica, na vida pessoal, atos reprováveis como estes e tantos outros não censuraria conduta semelhante em um candidato. Seja o político corrupto, seja o cidadão que deseja alguma vantagem ilícita do poder público, tudo é corrupção, variando apenas o tamanho da lesão provocada pelo ato.

A reconstrução ética do Brasil há de vir de baixo para cima, e isto somente será obtido com a completa extirpação de qualquer ato de corrupção, pois sem um rigor ético severo por parte do eleitorado não será possível melhorar a qualidade moral dos nossos representantes no poder.

Hugo César Amaral
Advogado
Uberlândia (MG)

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