O bullying e o exemplo
Assistimos, nos últimos anos, a vários massacres ocorridos em escolas. Quem não se lembra de Columbine ou Virginia Tech, quando estudantes descarregaram suas armas, matando professores e alunos? Nós nos sentíamos imunes a isto, este terror não era característico do Brasil, tudo acontecia em países distantes, bem longe de nós, apesar de nos afetar profundamente.
De repente, o choque: o Brasil entra numa trágica lista. No Rio de Janeiro, em Realengo, um jovem de 24 anos comete o massacre, atirando em várias crianças, com frieza e oportunismo, provocando 12 mortes e suicidando-se em seguida, a exemplo do que tantas vezes aconteceu em lugares distantes. Infelizmente, deixamos de estar entre as exceções.
O comportamento do criminoso e os motivos que o levaram a tal ato extremo é assunto para especialistas. Mas o acontecimento na escola de Realengo traz à baila um assunto importante e que pode ter efeitos catastróficos na formação de nossas crianças e nossos jovens: o “bullying”, palavra inglesa que designa um tipo de violência mascarada sob forma de brincadeira, intencional e persistente e que vem acontecendo frequentemente em nossas escolas. Num curto espaço de tempo tomei conhecimento de vários episódios, entre eles o de uma adolescente que, cansada das críticas e agressões por parte de colegas, pede insistentemente à mãe que lhe dê remédios para parar de crescer. A escola, para a menina que adora estudar, transformou-se num inferno e a autoestima desapareceu… Em outro caso, um garotinho de apenas 4 anos passou a sofrer violência psicológica e física constantes por parte de um aluno mais velho. A troca de escola fez-se necessária, tal o pânico do menino agredido. É evidente que apenas isto não explica ataques como o ocorrido em Realengo. Mas pode sim ser um dos vetores da violência. O assunto precisa ser tratado com extrema seriedade e atenção pelos pais e escolas, para que não prospere este tipo de “brincadeira” perniciosa tanto para quem sofre a agressão como para os autores.
É de se notar também e ser motivo de reflexão o espaço enorme que a mídia oferece aos que cometem atentados como os de Realengo. De pessoas introvertidas, solitárias, antis-sociais passam a ser foco de atenção. Sua vida é minuciosamente mostrada, seus gostos, seus hábitos, seus retratos, suas ideias doentias. Torna-se artista do Google, toma conta das telinhas, sua pessoa fica em enorme evidência por dias e dias. Não seria este um dos objetivos? Provocar comoção, espanto, horror e aparecer a qualquer custo? Não seria o sonho, sair do anonimato, do esconderijo, da reclusão para se tornar assunto número um dos grandes meios de comunicação do país e até do exterior? E como não há nada tão contagioso como o exemplo, a influência deste tipo de ocorrência sobre pessoas transtornadas mentalmente pode ser perigosa e fatal.
Esperamos que esta tragédia represente apenas uma página de nossa história e que toda a sociedade se coloque pronta e evitar sua repetição. Que as nossas escolas sejam moradas da paz e da segurança e que nossos alunos possam frequentá-las felizes e sem receios. Que a educação seja colocada no lugar que lhe cabe, peça fundamental para o desenvolvimento do país. Repetindo Pitágoras de Samos:” Eduque o jovem e não será necessário punir o adulto”.
Marília Alves Cunha
Educadora
Uberlândia (MG) mariliacunha16@hotmail.com
Comentários 0