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19/06/2011 7:45

Falou sem dizerou sem dizer

Cesar Vanucci *

“Palocci não deu explicações, deu desculpas.”
(Senador Demóstenes Torres)

O Ministro falou, mas não disse. Rodeou toco, como se diz na saborosa linguagem roceira. Na entrevista da tevê lembrou-me, em muito, dois personagens famosos dos anos 50. O primeiro, do mundo dos espetáculos. O segundo, da cena política internacional. Cantinflas, grande comediante mexicano, o primeiro deles, encantava o público com o jeito engabelador, prosa encachoeirada, uma espécie de “rosca sem fim” que não levava a nada. Gromiko, o outro personagem, porta-voz da política externa nos “anos de chumbo” do fechadíssimo império bolchevista, carregava no semblante um enigma de difícil decifração.

Antônio Palocci incorporou, no papo com o repórter, um pouco de cada qual. Ouviu, com imperturbabilidade esfíngica, às perguntas. Respondeu-as até de forma copiosa, sem perder a fleuma e sem passar qualquer toque de emoção às palavras. Restou subentendida a disposição de empurrar a história com a barriga.

Sua saída do Ministério trouxe – como não? – alivio. Conquanto se possa vislumbrar nas denúncias formuladas uma dose de indesejável passionalismo político, o episódio é de molde a proporcionar desdobramentos didáticos que não devem deixar de ser enfatizados. É preciso ficar bem claro, agora e sempre, a todo ocupante de função pública, que o exercício democrático implica na sujeição a regras de rigorosa transparência quanto a atos praticados pertinentes ao interesse comunitário.

Por conseguinte, um pedido de explicações, acerca do crescimento súbito, exagerado, do patrimônio pessoal de alguém faz parte da normalidade institucional. Traduz, naturalmente, louvável preocupação e zelo pela lisura dos negócios feitos em nome da coletividade. A regra se aplica a qualquer agente público, em quaisquer escalões. O episódio Palocci sugere, por sinal, aos órgãos de controle social que se conservem sempre alertas no acompanhamento das ações dos servidores públicos, de maneira a refrear aqueles que cometam a ousadia de extrapolar, com gastos e aquisições patrimoniais suspeitosos, os limites da renda declarada. Quando irregularidade desse jaez ocorre, o sinal de alerta precisa soar. Alguma coisa provavelmente danosa ao interesse social pintou no pedaço. É hora de esclarecimento convincente. Esclarecimento que não pode, jeito maneira, ser sonegado à opinião pública.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

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